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Pai e filho constroem casa de pedra medieval sem experiência prévia

Descubra como uma família catarinense ergueu manualmente uma construção circular inspirada em castelos escoceses, com paredes de quase 1 metro

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Pai e filho constroem casa de pedra medieval sem experiência prévia
Pai e filho constroem casa de pedra medieval sem experiência prévia • Imagem Ilustrativa

Em meio às áreas verdes do interior de Saudades, no Oeste de Santa Catarina, uma construção chama atenção pela arquitetura que parece ter saído de um cenário medieval. A estrutura circular de pedras, com paredes robustas e formato que lembra antigas torres de castelos europeus, desperta a curiosidade de quem passa pela região.

Mas o que impressiona ainda mais do que a imponência da obra é a história por trás dela. A casa foi construída praticamente de forma artesanal, sem que os responsáveis tivessem experiência anterior em edificações desse tipo. O projeto nasceu da inspiração de Fernando Hentz durante seu doutorado na Escócia e foi executado pelo pai, José Henrique Rempel Hentz, que encaixou milhares de pedras manualmente ao longo de mais de dois anos.

A inspiração escocesa que originou o projeto

A ideia de construir uma casa de pedras surgiu das experiências de Fernando Hentz durante o período em que viveu na Escócia. Ele realizou parte do doutorado na Universidade de Edimburgo e ficou encantado com a arquitetura local.

Segundo Fernando, o contato com as construções históricas escocesas despertou uma admiração que permaneceu após o retorno ao Brasil. A Escócia possui uma rica história de preservação e utilização de pedras nas edificações.

"A ideia de construir a casa de pedras surgiu a partir das experiências que tive em outros países, principalmente na Escócia, onde fiz parte do meu doutorado na Universidade de Edimburgo", conta Fernando.

Além da experiência internacional, Fernando participou de um curso voltado a técnicas construtivas alternativas. Embora o conteúdo não abordasse especificamente construções em pedra, ele passou a estudar o assunto por conta própria.

Por que escolher o formato circular

A decisão de construir utilizando pedras já era diferente para a região. Mas a família resolveu ir além ao optar por uma estrutura totalmente circular, em vez de um projeto tradicional quadrado ou retangular.

A escolha foi pensada tanto pela estética quanto pela funcionalidade. Fernando explica que uma casa de pedra em formato quadrado não o agradava. A intenção era criar algo que lembrasse uma torre ou cúpula de castelo.

Além disso, o formato redondo se encaixava melhor na paisagem do local onde planejavam construir. Seria também algo totalmente diferente do que existe na região.

O resultado é uma construção com paredes grossas, telhado arredondado e acabamento em pedras aparentes que realmente foge do padrão arquitetônico local.

Da ideia modesta ao projeto ampliado

O projeto inicial era muito mais modesto do que a construção final. Quando as primeiras escavações começaram, entre abril e maio de 2023, a intenção era erguer apenas uma pequena edificação térrea.

Conforme as paredes iam ganhando altura, a família percebeu que poderia ir além. José Henrique lembra que a decisão de ampliar aconteceu naturalmente.

"No começo seria apenas uma casinha baixa", relata. Quando chegaram a pouco mais de dois metros de altura, pai e filho decidiram fazer um segundo piso. A partir daquele momento, tudo mudou.

A alteração exigiu novas adaptações no projeto e aumentou significativamente o tempo necessário para concluir a obra. Atualmente, a construção possui aproximadamente 5,40 metros de altura distribuídos em dois pavimentos.

Fundação robusta e paredes de quase 1 metro

A fundação foi a primeira grande etapa do trabalho. Foi aberta uma vala de aproximadamente um metro de largura por cerca de 60 centímetros de profundidade.

As pedras maiores foram colocadas na base e compactadas cuidadosamente, formando uma estrutura extremamente resistente. Sobre essa fundação começou o processo mais demorado: empilhar, encaixar e alinhar milhares de pedras.

José Henrique explica que colocavam um pouco de concreto entre as pedras e procuravam o melhor encaixe possível. Não existia uma receita pronta, pois cada pedra era diferente da outra.

Outro detalhe que impressiona é a espessura das paredes. Em alguns trechos elas chegam muito perto de um metro de largura. Segundo Fernando, isso não aconteceu apenas por estética, mas foi uma necessidade estrutural.

Algumas pedras chegam próximas de 50 quilos. Era preciso uma parede robusta para garantir sustentação e fazer toda a amarração da estrutura. Além disso, essa espessura proporciona excelente isolamento térmico e acústico.

O desafio de encaixar pedras irregulares

Embora Fernando tenha idealizado o projeto, José Henrique assumiu praticamente toda a execução. Ele conta que nunca havia construído algo parecido.

"Eu não sabia fazer uma casa de pedra", relata José Henrique. A verdade é que foram aprendendo conforme a obra ia sendo construída. Cada etapa apresentava um desafio novo e a solução aparecia no dia a dia.

Se uma construção convencional utiliza blocos padronizados, a casa de Saudades seguiu exatamente o caminho contrário. Cada pedra precisava ser escolhida individualmente.

Boa parte do material veio de escavações realizadas em obras na cidade vizinha, Pinhalzinho. Segundo Fernando, essas pedras são provenientes de escavações e, quando recém-retiradas do solo, ainda permitem ser quebradas com um pouco mais de facilidade.

No início contrataram uma equipe para fazer esse trabalho, mas enfrentaram desistências e dificuldades. Depois José Henrique acabou assumindo boa parte dessa função.

Ele passou meses utilizando marreta para moldar as peças. Mesmo assim, nenhuma seguia um padrão. Tinha pedra grossa, pedra fina, pedra que encaixava de primeira e outras que precisavam ser movimentadas várias vezes.

A pedra da região não quebra fácil. Era preciso muita paciência, pontua José Henrique.

O processo demorado de encaixe perfeito

Fernando explica que o processo de encaixe foi muito mais demorado do que imaginavam. Muitas vezes uma mesma pedra precisava ser retirada, girada e recolocada três, quatro ou cinco vezes até encontrar o encaixe perfeito.

Como são pedras totalmente irregulares, cada uma exige um trabalho diferente. Essa característica tornou a obra extremamente artesanal e única.

O trabalho com paredes circulares também exigia medições constantes. Em uma parede reta é possível seguir uma linha, mas na construção redonda não havia esse referencial.

Como tudo é circular, a cada pedra era preciso conferir o prumo para manter o formato correto. O nível praticamente não foi utilizado. O prumo era o companheiro constante durante toda a construção.

Movimentação manual de toneladas de material

Ao observar a casa pronta, pouca gente imagina que praticamente todo o material utilizado foi movimentado manualmente. Não houve guindastes, esteiras ou equipamentos especiais para levar as pedras até o segundo pavimento.

Tudo foi carregado no braço. Para conseguir trabalhar na parte superior da construção, José Henrique improvisou uma escadaria de pedra com 10 degraus, construída durante a própria obra.

Era por ela que subiam tanto as pedras quanto o concreto. O concreto era preparado no chão, misturando na enxada e na pá, e depois levado balde por balde até lá em cima.

José Henrique descreve que foi um trabalho bastante pesado, mas era a única forma de executar a construção.

Telhado arredondado e acabamentos especiais

Encontrar um telhado que acompanhasse o formato arredondado da casa se mostrou uma missão igualmente difícil. Fernando passou meses pesquisando materiais utilizados em outros países.

A solução veio de uma técnica bastante comum em construções norte-americanas. Eles encontraram um material leve, bastante utilizado nos Estados Unidos, principalmente na Flórida. Esse material permitia acompanhar o formato arredondado da estrutura.

Mesmo depois da escolha, convencer uma empresa a executar o serviço não foi simples. Segundo Fernando, até mesmo instalar portas, janelas e outros acabamentos exige soluções diferentes.

Como praticamente tudo é pedra, não basta simplesmente fazer um furo ou fixar uma peça, como acontece numa parede convencional. Cada detalhe precisa ser estudado antes.

As tonalidades naturais das pedras

A família decidiu preservar boa parte das características naturais do material. Fernando explica que as tonalidades variam conforme o processo de transformação da rocha.

Algumas pedras possuem uma coloração mais amarelada, indicando um estágio diferente da transformação mineral. Fernando considera isso muito bonito.

Claro que nem sempre conseguiram utilizar exatamente a pedra desejada, porque dependiam do formato e do encaixe. Mas buscaram preservar essa diversidade de cores e texturas.

É justamente essa irregularidade que dá personalidade à construção. Não existe uma pedra igual à outra, e para a família esse é um dos maiores encantos do projeto.

Cronograma estendido pela complexidade

Quando começaram a construção, Fernando imaginava que tudo estaria pronto em aproximadamente um ano e meio. Mas a realidade foi diferente.

A rotina da propriedade, dedicada à criação de ovinos de genética, obrigava a família a dividir o tempo entre o trabalho rural e a construção. Além disso, a complexidade da obra aumentou significativamente o cronograma.

Houve épocas em que conseguiram trabalhar quase todos os dias. Em outras, praticamente tiveram que parar por causa das atividades da propriedade.

Somado a isso, o próprio processo construtivo é extremamente lento. Como todas as pedras são irregulares, muitas vezes era necessário movimentá-las várias vezes até encontrar o encaixe perfeito.

Depois de mais de dois anos de trabalho, a casa está na reta final dos acabamentos.

Banheiro e ampliações não previstas

Se no início a intenção era erguer apenas uma pequena casa de pedra, a obra foi ganhando novas proporções à medida que as possibilidades apareciam.

O banheiro, por exemplo, sequer existia no projeto inicial. Fernando conta que não imaginavam que aquilo realmente se transformaria em uma casa completa.

Quando decidiram fazer um segundo piso, perceberam que precisavam acrescentar um banheiro. Tiveram que ampliar a estrutura, construir outro muro e criar um corredor ligando os ambientes.

Atualmente, o pavimento térreo abriga sala e cozinha. No piso superior ficará uma suíte destinada aos hóspedes. Os dois ambientes são ligados por um corredor interno e uma escada construída durante a própria execução da obra.

Integração ao projeto de agroturismo

Embora a construção já desperte curiosidade de moradores e visitantes, ela representa apenas uma parte de um projeto muito maior.

Inicialmente, Fernando sonhava em criar uma pequena vila formada por diversas casas de pedra. A ideia acabou sendo revista diante da dificuldade para encontrar mão de obra especializada.

Foi nesse momento que nasceu a proposta de transformar a propriedade em um espaço de agroturismo. Além da casa de pedra, quatro chalés estão sendo construídos no local.

"Hoje contamos com quatro unidades bastante adiantadas", diz Fernando. A casa de pedra passa a ser um conceito, algo que diferencia a propriedade e desperta a curiosidade das pessoas logo na chegada.

Quando estiver totalmente concluída, a casa será destinada exclusivamente à hospedagem. Segundo Fernando, o objetivo é oferecer muito mais do que um lugar para dormir.

"Queremos proporcionar uma experiência", explica. A pessoa vai entrar em uma construção completamente diferente do que costuma encontrar na região.

A família ainda está definindo todos os elementos da decoração e planejando alguns anexos que vão complementar essa proposta. A construção promete se tornar um dos principais atrativos turísticos da propriedade.

Sem engenheiro e sem experiência

José Henrique se diverte com uma pergunta que escuta com frequência. Quem visita a obra costuma imaginar que um projeto tão diferente só poderia ter sido executado por especialistas.

A resposta, no entanto, surpreende. "Muita gente pergunta qual foi o engenheiro que fez a casa. A verdade é que não teve engenheiro acompanhando essa construção", relata José Henrique.

Eles foram estudando, pensando, adaptando e aprendendo conforme o trabalho avançava. Cada dificuldade acabava trazendo uma solução diferente.

Essa abordagem artesanal e de aprendizado contínuo transformou a construção em um projeto único, que carrega a história e a dedicação de pai e filho em cada pedra encaixada.

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