O milagre amarelo: a joia de 2 bilhões de anos que encerra a era de ouro do Ártico Canadense
Entre o brilho de um diamante de 158 quilates e o desafio ambiental do fechamento da mina, os Territórios do Noroeste enfrentam o fim de um ciclo econômico e o início de uma complexa recuperação ecológica

O fechamento de uma das minas mais emblemáticas do Canadá ganhou um capítulo final digno de cinema. A mineradora Rio Tinto anunciou a descoberta de um raríssimo diamante amarelo de 158,20 quilates na mina Diavik, localizada nos Territórios do Noroeste, a cerca de 200 quilômetros ao sul do Círculo Polar Ártico. O achado impressiona não apenas pelo tamanho e pela cor (uma anomalia causada pela presença de átomos de nitrogênio na estrutura da pedra), mas pela idade estimada: mais de 2 bilhões de anos.
Contudo, o brilho dessa joia monumental contrasta com o silêncio que começa a tomar conta da região. A extração comercial em Diavik foi oficialmente encerrada no final de março de 2026, após 23 anos de operação e mais de 150 milhões de quilates de diamantes extraídos. Agora, o foco do território deixa de ser a riqueza subterrânea e passa a ser o futuro da própria terra.
Uma raridade de última hora
Os diamantes amarelos de qualidade gema representam menos de 1% da produção histórica de Diavik, que sempre foi reconhecida globalmente por suas pedras brancas de alta pureza. Em mais de duas décadas de operação, apenas cinco diamantes amarelos com mais de 100 quilates foram encontrados no local.
"Este diamante natural canadense de 2 bilhões de anos é um milagre da natureza", afirmou Matt Breen, diretor de operações de Diavik, no comunicado oficial da companhia.
Embora o valor de mercado da pedra não tenha sido divulgado pela Rio Tinto, já que o preço final dependerá da intensidade da cor, pureza e do processo de lapidação, o valor simbólico é imensurável. Ele funciona como uma espécie de "prêmio de consolação" para uma despedida que impactará profundamente a economia local, dado que a mina respondia por cerca de 10% do PIB dos Territórios do Noroeste e gerava mais de 1.100 empregos anuais.
Desafio ambiental: desligando as máquinas no gelo
Operar uma estrutura industrial desse porte no isolamento subártico exigiu soluções energéticas complexas. Para mitigar o impacto ambiental em uma logística dependente de óleo diesel, a Diavik implementou uma rede híbrida com energia eólica em 2012 e concluiu uma planta solar em 2024. Juntas, as iniciativas evitaram a emissão de mais de 120 mil toneladas de $CO_2$ ao longo dos anos.
Agora, o verdadeiro teste para a Rio Tinto começou. O processo de fechamento e remediação da área não consiste apenas em abandonar as instalações, mas em executar um plano meticuloso planejado desde o início do projeto.
Cronograma e metas de recuperação (2026–2029)
-
Desmontagem: Remoção completa dos edifícios e infraestruturas industriais.
-
Recuperação Hídrica: Reconexão dos diques para que a água do lago Lac de Gras volte a inundar as cavas a céu aberto de forma controlada.
-
Biodiversidade: Restauração do relevo e da vegetação para garantir que a fauna local (como os caribus) possa migrar e habitar a área sem riscos.
-
Monitoramento: Fase pós-2029 para analisar de forma contínua a qualidade da água e a segurança do solo.
O legado com as comunidades indígenas
Mais do que a engenharia ambiental, o encerramento da mina traz uma forte dimensão humana e social. Em fevereiro de 2026, poucas semanas antes do fim das atividades, a mineradora e o Governo Tłı̨chǫ assinaram um acordo de fechamento focado na gestão responsável das terras ancestrais.
Jackson Lafferty, Grão-Chefe do Governo Tłı̨chǫ, reforçou a importância do compromisso firmado, destacando a "responsabilidade sagrada com a terra, a água e a fauna". O sucesso do plano será medido pela capacidade da região de se curar das cicatrizes da mineração de larga escala.
O diamante de 158 quilates seguirá seu caminho rumo aos mercados de luxo internacionais, mas a verdadeira joia que o Canadá precisará lapidar nos próximos anos é o próprio ecossistema da tundra. Afinal, como o próprio desfecho de Diavik demonstra, nenhum brilho compensará o custo se o preço for enterrado na fragilidade das águas do Ártico.
Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.
