Malhar uma hora por dia na academia não traz resultados: descubra o motivo
Resposta está na própria evolução dos seres humanos, que afeta a maneira que o corpo metaboliza os gastos energéticos

Fomos enganados e chegou a hora de reconhecer isso. Durante anos, a expansão das academias foi celebrada como uma grande conquista. Afinal, ter espaços acessíveis para praticar exercícios e combater o sedentarismo parece, à primeira vista, uma excelente notícia.
O problema não está nas academias em si, mas na forma como passamos a enxergar a atividade física. Foi criado um modelo que trata o movimento como algo isolado do restante do dia, uma lógica tem limitações importantes.
Malhar não funciona?
Não é isso que os estudos indicam.
Praticar exercícios continua sendo extremamente benéfico para a saúde. Exercícios intensos ajudam a melhorar o condicionamento físico, a força, a saúde cardiovascular e uma série de outros indicadores. Além disso, qualquer atividade física é melhor do que nenhuma.
O ponto é outro: não faz muito sentido analisar apenas aquela uma hora de treino. O que realmente importa é como o corpo se comporta ao longo das 24 horas do dia.
Afinal, por que os hadzas, um povo caçador-coletor da Tanzânia que caminha cerca de 12 quilômetros diariamente, não gastam muito mais calorias do que trabalhadores de escritório? Por que tantos programas de academia focados em emagrecimento entregam resultados abaixo do esperado? E por que a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a diferenciar "fazer exercício" de "passar menos tempo sentado"?
A resposta para todas elas está na forma como nosso organismo evoluiu.
Pesquisas revelam resposta
Entre 2012 e 2018, pesquisadores da Universidade Duke, liderados pelo antropólogo Herman Pontzer, observaram que o corpo humano não simplesmente soma o gasto energético do exercício ao metabolismo basal.
Na prática, quando aumentamos o gasto energético com atividades intensas, o organismo tende a compensar reduzindo energia destinada a outros processos fisiológicos, como funções inflamatórias, reprodutivas e alguns mecanismos de regulação metabólica.
Isso significa que fazer uma hora de exercício intenso não necessariamente aumenta o gasto energético total na proporção que imaginamos.
Uma segunda linha de pesquisa aponta na mesma direção. Em 1999, cientistas da Clínica Mayo identificaram que pessoas com peso e altura semelhantes podem apresentar diferenças significativas no gasto calórico diário. A principal explicação não estava nos treinos, mas nas pequenas atividades realizadas ao longo do dia.
Caminhar, ficar em pé, subir escadas, realizar tarefas domésticas e até movimentos involuntários podem representar uma parcela importante do consumo energético diário.
O risco
Além da questão do gasto calórico, existe outro fator importante: o comportamento sedentário possui riscos próprios.
Em 2016, um grande estudo liderado pelo médico Ulf Ekelund concluiu que são necessários entre 60 e 75 minutos de atividade física moderada por dia para compensar o aumento do risco de mortalidade associado a permanecer sentado por oito horas ou mais diariamente.
Em outras palavras, uma sessão de exercícios não elimina automaticamente os efeitos de passar o restante do dia praticamente imóvel. O problema é que o debate público frequentemente ignora essa realidade.
Desde os anos 1980, consolidou-se a ideia de que algumas horas de exercício por semana seriam suficientes para "comprar" saúde. Muitas discussões atuais, como o foco quase exclusivo em metas de passos diários, continuam seguindo essa mesma lógica.
Mas as evidências sugerem que a equação é mais complexa. Não se trata apenas de encaixar um treino na agenda, e sim de reduzir períodos prolongados de inatividade ao longo do dia.
O que deve ser feito
A grande mudança, em 2026, é compreender que a forma correta para pensar a atividade física não é a hora de treino, mas o dia inteiro.
Como destaca a OMS, mais atividade física é melhor do que pouca atividade; qualquer atividade é melhor do que nenhuma. Ao mesmo tempo, reduzir o tempo sedentário traz benefícios próprios, independentemente do exercício praticado.
Por isso, a ideia de treinar durante uma hora e passar todo o resto do dia sentado não encontra respaldo nas evidências atuais.
Ir à academia continua sendo uma excelente escolha. O que mudou é a forma de entender seu papel: o exercício intenso complementa um estilo de vida ativo, mas não substitui a necessidade de se movimentar ao longo do dia.
Leia também: Como começar a fazer exercícios sem forçar o corpo e a mente
Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou na Rádio UFMG Educativa e em empresas de marketing, com experiência em produção de conteúdo, SEO e redação Atualmente, escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.



