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Hospital sueco armazena neve de inverno e usa água derretida no verão para refrigeração

Conheça o sistema de armazenamento sazonal de neve que supriu 93% da demanda de refrigeração hospitalar no primeiro ano e pode ser replicado em regiões com inverno rigoroso

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Imagem ilustrativa • Canva

Em 1999, um hospital no centro da Suécia enfrentou um desafio comum a grandes edifícios: como resfriar 190.000 metros quadrados de instalações durante o verão sem depender exclusivamente de sistemas convencionais de ar condicionado. A solução encontrada não envolveu tecnologia de ponta, mas sim o aproveitamento inteligente de um recurso abundante e gratuito: a neve acumulada durante os meses de inverno.

O Hospital Regional de Sundsvall construiu uma área de armazenamento capaz de preservar 60.000 metros cúbicos de neve — equivalente a 40.000 toneladas — coberta por camadas de cavacos de madeira para retardar o derretimento natural. Durante o verão, a água gelada resultante do degelo circula pelo prédio através de um sistema de refrigeração fechado. No primeiro ano de operação, essa abordagem atendeu 93% da necessidade total de resfriamento do hospital, demonstrando viabilidade técnica e econômica.

Como funciona o armazenamento sazonal de neve para refrigeração

O princípio por trás do sistema é termodinâmico: quando neve ou gelo derretem a 0°C, absorvem uma quantidade significativa de calor do ambiente ao redor. Esse processo de mudança de fase — de sólido para líquido — exige energia térmica, o que torna a neve armazenada uma fonte natural de frio.

O hospital de Sundsvall utiliza a água proveniente do derretimento da neve, não a neve diretamente. A água gelada é bombeada para o edifício, onde circula pelos sistemas de refrigeração absorvendo o calor interno. Após cumprir essa função, a água aquecida retorna à área de armazenamento de neve.

Esse ciclo contínuo permite que a neve armazenada forneça resfriamento enquanto derrete gradualmente. O sistema completo do hospital demanda anualmente cerca de 1.000 MWh de energia para refrigeração, com potência máxima de 1.500 kW.

A importância do isolamento térmico com cavacos de madeira

Sem isolamento adequado, a neve acumulada no inverno desapareceria antes do fim do verão, tornando o sistema inviável. Pesquisadores Kjell Skogsberg e Bo Nordell publicaram em 2001 um estudo na revista Cold Regions Science and Technology demonstrando que o isolamento é o fator crítico para a eficácia do armazenamento.

A área de armazenamento foi construída como uma depressão rasa de 140 metros por 60 metros, com base impermeável de asfalto. Sobre a neve depositada, aplicou-se uma camada de cavacos de madeira funcionando como isolante térmico.

Segundo os cálculos apresentados no estudo, esse isolamento reduziu o derretimento natural para 20% a 30% do volume total de neve. Simulações mostraram que uma pilha de 30.000 metros cúbicos sem isolamento desapareceria completamente até 17 de junho — bem antes do término da temporada de resfriamento.

Com uma camada de 0,10 metro de serragem, restavam cerca de 12.169 metros cúbicos de neve ao final do verão. Aumentando a espessura para 0,20 metro, o volume preservado subia para aproximadamente 19.040 metros cúbicos. A camada mais espessa reduziu a transferência de calor do ambiente externo para a neve armazenada.

Com 0,20 metro de serragem, a taxa máxima de derretimento natural calculada foi de 77,4 metros cúbicos por dia, ocorrendo no fim de junho. Os pesquisadores concluíram que o isolamento térmico adequado permite cobrir toda a demanda de refrigeração do hospital entre maio e agosto.

Métodos históricos de refrigeração com gelo antes da era moderna

O uso de gelo para refrigeração precede em séculos os sistemas mecânicos. Na Grécia antiga, populações coletavam gelo de lagos e rios durante o inverno e o armazenavam em construções isoladas com materiais como serragem. Métodos semelhantes foram adotados na Europa e na América do Norte até o início do século 20, quando as máquinas de refrigeração se tornaram comuns.

O Japão desenvolveu diversas formas tradicionais de armazenamento. Os Himuros e Yukimuros eram edifícios de pedra ou madeira projetados para guardar gelo ou neve junto com alimentos como vegetais e frutas, preservando-os naturalmente por meses.

Outro método japonês, conhecido como Sistema de Ar Total (All Air System), resfriava o ar através do contato direto com neve armazenada. Essas técnicas ancestrais demonstram que o princípio termodinâmico explorado pelo hospital sueco tem raízes profundas na história humana.

Outras propostas de armazenamento sazonal de neve em centros urbanos

Pesquisadores também exploraram possibilidades de armazenamento de neve em contextos urbanos. Em Ottawa, no Canadá, cientistas investigaram se a neve removida de ruas e áreas públicas durante o inverno poderia ser transportada para um grande depósito central e armazenada para uso posterior em refrigeração.

Uma das propostas envolvia um depósito com volume de 90.000 metros cúbicos, coberto por camada refletora e isolante. O estudo concluiu que a circulação de água derretida era o método mais eficaz para extrair o frio armazenado, reafirmando a estratégia adotada pelo hospital sueco.

Outra possibilidade levantada foi o armazenamento em cavernas subterrâneas escavadas em rocha. Tais sistemas poderiam ser construídos em áreas urbanas, reduzindo a distância de transporte da neve coletada e facilitando a integração com redes de refrigeração urbana.

Contudo, o estudo identificou um problema significativo: neve urbana frequentemente contém altos níveis de poluentes — sal, óleos, metais pesados — acumulados nas ruas. A água resultante do derretimento dessa neve poderia necessitar de tratamento e controle ambiental rigoroso antes de ser utilizada ou descartada.

Por que o método do hospital sueco é sustentável e econômico

O sistema do Hospital Regional de Sundsvall alinha-se com metas ambientais e regulamentações nacionais. Sua demanda anual de refrigeração de 1.000 MWh é atendida majoritariamente por um recurso natural, renovável e localmente abundante: a neve de inverno.

Ao preservar apenas metade da capacidade total projetada de 60.000 metros cúbicos, o hospital obteve 93% da refrigeração necessária no primeiro ano de operação. Isso reduziu drasticamente a dependência de sistemas mecânicos convencionais que consomem eletricidade contínua e refrigerantes químicos.

O modelo também evita custos operacionais elevados durante os meses de pico de calor, quando tarifas energéticas tendem a ser maiores e sistemas de ar condicionado funcionam em carga máxima. A energia necessária para bombear a água gelada é mínima comparada ao consumo de chillers tradicionais.

Além disso, o uso de materiais de isolamento simples — cavacos de madeira ou serragem — torna a tecnologia acessível e replicável em regiões com invernos rigorosos. Não há dependência de equipamentos importados ou manutenção complexa, o que favorece a adoção local e regional.

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