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Como Roma construiu integração econômica revelada por 4 milhões de moedas antigas

Arqueologia digital e ciência de dados mapeiam fluxo financeiro da República Romana e mostram que consolidação do domínio dependeu mais da economia que da guerra

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Coliseu de Roma, na Itália
Coliseu de Roma, na Itália • Banco de imagens/Canva

Durante dois séculos, arqueólogos escavaram solo mediterrâneo e encontraram vestígios de aproximadamente 4 milhões de moedas romanas. Cada peça preservava três informações: onde foi cunhada, quando foi produzida e onde foi encontrada cerca de 2 mil anos depois. Consideradas isoladamente, essas informações dizem pouco.

Mas quando milhões de registros são analisados em conjunto, revelam os caminhos percorridos pelo dinheiro, a intensidade das trocas econômicas e a integração entre diferentes regiões de uma das maiores economias da Antiguidade. Um estudo conduzido por pesquisadores do Núcleo de Economia Regional e Urbana da USP (Nereus-USP) combinou economia regional, análise espacial e grandes bases internacionais de dados arqueológicos para reconstruir essa circulação monetária da República Romana entre 155 a.C. e 2 d.C. Os resultados mostram que a consolidação do domínio romano dependeu menos da simples conquista militar do que da progressiva integração econômica dos territórios incorporados.

Arqueologia digital transforma pesquisa sobre mundo antigo

A digitalização de grandes acervos arqueológicos, aliada ao desenvolvimento de métodos quantitativos capazes de integrar milhões de registros dispersos, está abrindo uma nova fronteira para a pesquisa histórica. Assim como outras disciplinas científicas beneficiadas pelo processamento de quantidades colossais de informação, a arqueologia e a história também ingressaram na era da ciência de dados.

Durante séculos, o estudo da História Antiga baseou-se principalmente na interpretação de textos clássicos e no exame individual de inscrições e vestígios arqueológicos nos locais de origem ou em museus. Essa fragmentação dificultava qualquer tentativa de reconstruir padrões de circulação em larga escala.

A situação começou a mudar quando instituições como a American Numismatic Society passaram a coordenar projetos internacionais de digitalização e padronização desses acervos, estabelecendo protocolos comuns para registrar informações arqueológicas. Hoje existem grandes bases públicas que reúnem milhões de registros produzidos por escavações realizadas em diferentes países.

Como começou o estudo que uniu economia e arqueologia

A origem do projeto remonta a 2014, quando Eduardo Amaral Haddad, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, realizou um período sabático na Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Embora estivesse desenvolvendo pesquisas em economia, passou a frequentar por interesse pessoal um seminário semanal organizado pelo Departamento de Estudos Clássicos.

Em uma dessas reuniões, Haddad assistiu à apresentação de um estudo que utilizava vestígios de naufrágios e fragmentos de cerâmica para reconstruir redes comerciais no Mediterrâneo Antigo. Pouco tempo depois, explorando a biblioteca da universidade, encontrou um catálogo de moedas romanas que reunia exatamente o tipo de informação necessária: a data da cunhagem, o local onde cada moeda havia sido produzida e o lugar onde fora encontrada em escavações arqueológicas.

O interesse inicial acabou se transformando em um projeto de longo prazo. Para aprofundar seus conhecimentos sobre o mundo clássico, Haddad matriculou-se em um programa de pós-graduação a distância sobre o Mediterrâneo Antigo, oferecido pela Universidade de Leicester, no Reino Unido. Um dos trabalhos desenvolvidos durante o curso tornou-se o embrião do artigo publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications, do grupo Nature, em colaboração com Inácio Fernandes Araújo, atualmente professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP.

Integração de bases de dados arqueológicos internacionais

Por muito tempo, as informações sobre moedas romanas permaneceram dispersas em museus, bibliotecas, coleções particulares e arquivos de pesquisadores. A principal fonte do estudo foi o Coin Hoards of the Roman Republic On-line (CHRR), um banco de dados dedicado aos tesouros monetários da República Romana.

O trabalho integrou ainda diferentes plataformas de arqueologia digital. Entre elas, o ORBIS, desenvolvido pela Universidade Stanford, que simula deslocamentos pela rede de estradas, rios e rotas marítimas do mundo romano, estimando tempo e custo das viagens entre centenas de localidades. E também o Pleiades Gazetteer, além das bases Roman Road Network, que forneceram informações georreferenciadas sobre cidades, estradas e portos do Mediterrâneo Antigo.

Esses diferentes bancos de dados foram integrados em um único sistema de análise espacial. Após um cuidadoso processo de curadoria, os pesquisadores passaram a trabalhar com um conjunto de aproximadamente 4 milhões de moedas, organizadas em 24.646 tesouros monetários e correspondentes a 5.167 pares formados por locais de cunhagem e locais de descoberta.

Em vez de analisar moedas individualmente, optaram por utilizar esses registros arqueológicos, reduzindo distorções produzidas por diferenças de preservação, perda ou reutilização das peças ao longo dos séculos.

Aplicação de ferramentas de economia regional ao mundo romano

O objetivo foi muito além da construção de mapas. Segundo Haddad, era necessário pensar essa circulação do ponto de vista da interação humana no espaço, segundo uma lógica econômica. Foi nesse momento que sua experiência em economia regional encontrou uma aplicação inesperada.

As mesmas ferramentas matemáticas desenvolvidas para estudar fluxos contemporâneos de pessoas, mercadorias e renda passaram a ser utilizadas para investigar movimentos monetários ocorridos há mais de 2 mil anos. Em vez de analisar cidades modernas, o objeto de estudo passou a ser o Mediterrâneo romano.

Em vez de acompanhar cadeias produtivas contemporâneas, os pesquisadores procuraram reconstruir as redes econômicas que sustentaram a expansão de Roma durante os dois últimos séculos da República. A equipe organizou informações provenientes da literatura histórica e arqueológica em um modelo inspirado nas chamadas matrizes de contabilidade social, instrumento empregado na análise de economias contemporâneas.

O modelo descreve as relações entre os principais agentes econômicos da época: governo, famílias, proprietários de terra, comerciantes, escravos e exército. E procura representar os fluxos de bens e pagamentos que ligavam essas instituições. Também distingue diferentes tipos de produção e consumo, desde alimentos e matérias-primas até manufaturas e artigos de luxo, cujo comércio podia alcançar distâncias muito maiores.

Padrões espaciais revelam rotas econômicas estruturadas

A primeira pergunta formulada pelos pesquisadores foi tão simples quanto decisiva: a distribuição espacial das moedas ocorria ao acaso ou obedecia a um padrão? Para responder, a equipe recorreu a técnicas de análise espacial amplamente utilizadas na economia regional e na geografia econômica.

Os testes mostraram que os achados estavam longe de apresentar uma distribuição aleatória. Ao contrário, formavam aglomerados estatisticamente significativos, concentrados ao longo dos principais eixos de circulação do mundo romano.

Identificado esse primeiro resultado, surgiu uma pergunta ainda mais ambiciosa: seria possível reconstruir os caminhos percorridos pelo dinheiro? Segundo Haddad, depois de verificar que existia uma correspondência entre localização e concentração das moedas, começaram a cruzar essas informações com as vias romanas.

Os mapas produzidos pelo estudo mostram que a circulação monetária acompanhava de perto a infraestrutura construída pela República Romana. Estradas, portos e grandes centros urbanos não eram apenas vias de passagem: constituíam os canais pelos quais se difundiam as relações econômicas que sustentavam a expansão territorial.

Existia uma clara propagação das moedas a partir de Roma, seguindo os eixos de infraestrutura e conectividade do império em formação.

Exército abriu caminho, mas economia consolidou territórios

Uma interpretação bastante difundida atribui ao exército romano o papel predominante na disseminação da moeda pelos territórios conquistados. A afirmação parece intuitiva: à medida que as legiões avançavam, levavam consigo soldados que recebiam salários e fornecedores que comercializavam mercadorias, produzindo uma intensa circulação monetária.

Mas os resultados confirmam apenas parcialmente essa hipótese. Segundo Haddad, as estruturas militares realmente desempenharam um papel decisivo na fase inicial da expansão. No entanto, sua influência diminuiu à medida que os novos territórios foram incorporados de forma permanente ao mundo romano.

O que os pesquisadores perceberam foi que a expansão militar introduzia a circulação monetária, mas ela só se consolidava quando esses territórios eram efetivamente integrados, criando estruturas econômicas, religiosas, administrativas e cívicas capazes de gerar demanda permanente por moeda. Em outras palavras, o exército funcionava como agente de abertura. Quem garantia a permanência da moeda era a economia.

Esse resultado ajuda a explicar por que determinadas interpretações históricas, centradas quase exclusivamente na ação militar, deixam de captar um aspecto fundamental da expansão romana: conquistar um território era apenas o começo. Para que ele passasse a integrar efetivamente a República, era necessário construir mercados, cidades, instituições administrativas, centros religiosos e redes permanentes de troca.

Evolução da integração econômica ao longo dos séculos

Outra conclusão importante diz respeito à evolução da própria geografia econômica romana. Nos períodos iniciais analisados, as moedas permaneciam relativamente próximas dos locais onde haviam sido cunhadas.

À medida que a República expandia suas fronteiras, porém, elas passaram a ser encontradas em distâncias cada vez maiores. Nos modelos estatísticos, isso aparece como uma redução progressiva do efeito da distância sobre a circulação monetária.

Em outras palavras, regiões antes separadas por barreiras geográficas tornavam-se progressivamente integradas por uma rede comum de transportes, mercados e instituições. Segundo Haddad, à medida que ocorre a expansão territorial, começamos a encontrar moedas em distâncias cada vez maiores. O papel da distância vai perdendo força, sugerindo uma integração crescente do território.

Essa conclusão vai muito além da numismática. Ela sugere que a circulação monetária pode funcionar como um indicador indireto do próprio grau de integração econômica entre diferentes regiões do império.

Regiões funcionais distintas dentro da República Romana

A análise espacial permitiu identificar não apenas a intensidade da circulação monetária, mas também diferentes regiões funcionais dentro da República Romana.

No centro do sistema encontrava-se a própria cidade de Roma, onde predominavam os gastos ligados à administração pública. Em torno dela estendia-se um núcleo econômico fortemente integrado, correspondente à Península Itálica, cuja circulação monetária refletia principalmente atividades de mercado.

Mais adiante aparecia uma faixa intermediária, uma espécie de zona de amortecimento entre o núcleo consolidado e as regiões recentemente incorporadas. Nela conviviam despesas administrativas, econômicas e militares.

Já nas áreas de expansão mais recente predominavam os gastos ligados ao esforço de conquista e ocupação territorial. À medida que essas regiões eram pacificadas e incorporadas de forma permanente ao mundo romano, a participação das despesas militares diminuía, cedendo lugar ao crescimento das atividades civis, administrativas e comerciais.

Esse padrão espacial revela como a economia romana operava em camadas concêntricas de integração, com diferentes graus de maturidade institucional e econômica conforme a distância do centro administrativo.

Monetização progressiva transformou economia republicana

Outro aspecto incorporado ao modelo foi a gradual monetização da economia romana. Durante parte da República, muitas transações continuavam sendo realizadas em espécie.

Com o passar do tempo, porém, pagamentos ligados ao abastecimento do exército, à manutenção dos escravos e a diversas atividades públicas passaram progressivamente a utilizar moeda. Essa transformação deixou marcas nos próprios acervos arqueológicos.

A partir desse modelo econômico, os depósitos monetários encontrados nas escavações deixaram de ser simples coleções de moedas antigas. Passaram a ser tratados como evidências materiais das relações econômicas que estruturavam a República Romana.

Cada peça preservada pela arqueologia fornece três informações fundamentais: onde foi cunhada, quando foi produzida e onde foi encontrada cerca de 2 mil anos depois. Consideradas isoladamente, essas informações dizem pouco. Mas quando milhões de registros são analisados em conjunto, tornam-se capazes de revelar os caminhos percorridos pelo dinheiro, a intensidade das trocas econômicas, a integração entre diferentes regiões e até mesmo a evolução institucional de uma das maiores economias da Antiguidade.

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