Começou a plantar árvores em uma ilha da Índia em 1979 e depois criou floresta com 550 hectares
Jadav Payeng transformou terreno desértico em ecossistema completo que abriga elefantes, rinocerontes e tigres de Bengala através de ação individual persistente

Em 1979, Jadav Payeng encontrou dezenas de serpentes mortas sobre um banco de areia do rio Brahmaputra, no estado de Assam, na Índia. Os animais haviam sido arrastrados por uma inundação e, sem árvores para oferecer sombra, morreram expostos ao calor extremo. Diante dessa cena, o homem tomou uma decisão que mudaria a paisagem local para sempre: começar a plantar.
Quase cinco décadas depois, aquele terreno praticamente árido se transformou em um ecossistema natural com mais de 550 hectares - maior que o Central Park de Nova York. A floresta Molai, batizada com o apodo de Payeng, hoje abriga elefantes, rinocerontes indianos, tigres de Bengala e inúmeras espécies de aves. Esta é a história de como persistência individual e cuidado diário podem gerar transformação ambiental em escala monumental.
Como começou o projeto de reflorestamento individual
Payeng iniciou o trabalho com cerca de 20 mudas de bambu plantadas no banco de areia. Com o tempo, diversificou as espécies, introduzindo árvores autóctonas adaptadas ao clima e solo da região.
O cuidado não se limitou ao plantio inicial. Ele assumiu sozinho a manutenção das mudas, o enriquecimento do solo empobrecido e a substituição das plantas que não conseguiam sobreviver nas condições adversas do terreno.
Essa dedicação diária, sem apoio institucional ou financiamento externo, sustentou o projeto durante as primeiras décadas, quando o crescimento era lento e os resultados ainda invisíveis para quem passava pela região.
Os desafios da erosão e das cheias do rio Brahmaputra
A tarefa revelou-se muito mais complexa do que parecia no início. As crecidas constantes do rio Brahmaputra e a erosão permanente do solo representavam ameaças reais ao trabalho.
Muitas mudas foram perdidas antes de se estabelecerem. O terreno arenoso dificultava o enraizamento, e a força da água em períodos de cheia destruía meses de trabalho em questão de horas.
Apesar dos revezes, Payeng manteve a rotina de plantio e cuidado. Com o passar dos anos, as árvores que sobreviveram começaram a estabilizar o solo, criando condições para que novas plantas prosperassem com mais facilidade.
A formação do ecossistema e o retorno da fauna
À medida que a vegetação se consolidava, o ambiente começou a mudar. A sombra das árvores reduziu a temperatura local, a matéria orgânica enriqueceu a terra e novas espécies vegetais surgiram naturalmente.
Esse processo criou as condições necessárias para o retorno da fauna. Primeiro chegaram os animais menores - coelhos, macacos e aves. Depois vieram os herbívoros de grande porte, como elefantes e cervos.
Atualmente, a floresta Molai abriga até mesmo rinocerontes indianos e tigres de Bengala, espécies ameaçadas que encontraram no local um refúgio seguro. A biodiversidade do ecossistema criado por uma única pessoa rivaliza com a de reservas ambientais oficiais.
O reconhecimento tardio e a história que permaneceu invisível
Durante muitos anos, o trabalho de Payeng passou completamente despercebido. Ele continuava plantando e cuidando da floresta sem qualquer tipo de atenção pública ou reconhecimento institucional.
A transformação só ganhou visibilidade quando Jitu Kalita, fotógrafo e jornalista, chegou à região e documentou a magnitude do que havia sido criado. As imagens mostravam um contraste dramático: floresta densa onde antes havia apenas areia.
Em 2015, as autoridades indianas concederam a Payeng o Padma Shri, uma das principais distinções civis do país, por sua contribuição extraordinária à conservação ambiental. Internacionalmente, ele passou a ser conhecido como o "Homem Floresta da Índia".
Dimensão e comparação com outros espaços verdes urbanos
Com superfície próxima às 550 hectares, a floresta Molai supera em tamanho diversos espaços verdes reconhecidos mundialmente. O Central Park de Nova York, por exemplo, tem 341 hectares - quase 40% menor.
Essa dimensão impressiona ainda mais quando se considera que o terreno original era praticamente desértico, sem vegetação significativa e sujeito a condições ambientais severas.
O que começou com 20 plantas de bambu em 1979 tornou-se, 47 anos depois, um dos exemplos mais notáveis de recuperação ambiental por iniciativa individual documentados no mundo.
Lições sobre impacto ambiental de longo prazo
A trajetória de Jadav Payeng demonstra que transformações ambientais profundas exigem perspectiva de décadas, não de meses ou anos. O impacto real do seu trabalho só se tornou evidente após mais de duas décadas de esforço contínuo.
O projeto também ilustra que a restauração de ecossistemas não depende necessariamente de recursos financeiros massivos ou tecnologia avançada. Conhecimento local, adaptação de espécies autóctonas e persistência podem gerar resultados monumentais.
Mais importante: o caso mostra que ação individual, quando sustentada no tempo, possui capacidade de criar mudanças em escala que normalmente se atribui apenas a governos ou grandes organizações ambientais.
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