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Andar de carro elétrico dá mais enjoo? Entenda

Especialistas explicam que as características dos carros elétricos, como o torque e a aceleração contínua, intensificam os sintomas da cinetose, uma condição comum; adaptação dos passageiros e motoristas pode ajudar a amenizar o problema

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Imagem de um BYD
Imagem de um BYD • MAX FELIPE

O dia a dia de muitos brasileiros tem mudado nos últimos anos quando o assunto é carro. Com o crescimento da frota de veículos elétricos – segundo dados da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), 335 mil veículos do tipo circulam pelo país, e quase metade foi emplacada somente nos nove meses deste ano –, a discussão sobre o enjoo nesses automóveis veio à tona, revelando que a cinetose pode ser mais comum do que se pensa.

Tal realidade, no entanto, preocupa Louise Torres toda vez que ela precisa andar em um carro de aplicativo e chega um elétrico. A chef de cozinha cearense conta que sente muito enjoo no banco de trás, "uma sensação de chegar no ponto final e ficar um tempo respirando fundo porque não estou bem".

O desconforto a levou a compartilhar sua experiência na internet, e o vídeo contando o incômodo já soma mais de 630 mil visualizações e centenas de comentários de identificação sobre esse enjoo.

Louise conta que, especialmente depois que se tornou mãe e começou a passar muito mais tempo no banco de trás do que no de motorista de seu carro a combustão, sente um certo mal-estar, que é piorado ainda mais quando se locomove em carros elétricos por viagens de aplicativo.

"De início eu achei que eu estava doida", diz a chef. Segundo ela, após seu vídeo viralizar, começou a se acalmar, já que "muitas pessoas começaram a falar que sentiam também".

A cearense admite que nunca chegou a procurar um médico e que não planeja "mexer nisso". Segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil, se algum dia ela resolver buscar um atendimento, muito provavelmente receberá um diagnóstico de cinetose.

O nome se refere a uma condição que é mais comum do que parece, como mostram os comentários de identificação no vídeo de Louise e como explica Cristiana Pereira, coordenadora do Ambulatório de Vertigem e Desequilíbrio no Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

"O enjoo no carro elétrico pode ser classificado como uma cinetose, e agora com tantos elétricos, isso veio muito à tona. A pessoa muitas vezes talvez não dê esse nome, mas ela chega contando que enjoa, e isso pode ser em um carro, avião, barco... qualquer veículo em movimento".

A cinetose é uma condição causada pelo conflito entre as informações sensoriais que são enviadas ao cérebro pelo labirinto, visão e sensibilidade corporal.

Pereira acrescenta que ela é relativamente comum e passa a ser um problema somente quando é muito acentuada e impossibilita as pessoas de terem uma vida normal, como andar de ônibus, trem ou avião.

Além disso, acontece principalmente com quem tem enxaqueca e durante a infância, quando o corpo e cérebro ainda estão aprendendo a processar os sinais.

A enfermeira Bianca Gomes, de 28 anos, é um caso de cinetose diagnosticada e com enxaqueca. Ela também já compartilhou seus relatos nas redes sociais, destacando que a condição a atinge independente do tipo de veículo.

Moradora de João Pessoa, na Paraíba, Bianca contou à CNN Brasil que desde criança sentia náusea, tontura e suava frio quando andava de ônibus.

"Primeiro vem o enjoo, uma sensação ruim de querer vomitar mas sem vômito, e essa sensação fica até depois que acabam as viagens. Se eu não estiver dirigindo ou no banco ao lado do motorista, eu sempre sinto, especialmente se o carro estiver com as janelas fechadas".

Bianca anda de carro elétrico uma ou duas vezes por semana, e conta que a sensação piora nesse tipo de veículo, o que para Pereira tem explicações na física.

De acordo com ela, que é membro titular da Academia Brasileira de Neurologia e estuda a questão há anos, nos carros elétricos os sintomas são intensificados por uma série de características naturais dos veículos, que não usam gasolina e nem emitem calor e ruído, mas que as pessoas não estão acostumadas ainda.

Para Jelte E. Bos, professor na Faculdade de Ciências do Comportamento e do Movimento da Vrije Universiteit, em Amsterdã, "mais dados seriam interessantes, mas ainda assim, já sabemos que em veículos elétricos isso é intensificado". A primeira razão apontada pelo pesquisador e autor de estudos sobre o tema na TNO, organização holandesa para pesquisa científica aplicada, é o torque dos elétricos.

Em todo motor a combustão, micro explosões são causadas para gerar energia e movimentar o veículo, o que não ocorre nos veículos movidos a energia. Com isso, ao pisar no acelerador a resposta é instantânea, gerando mais aceleração e força gravitacional já em baixas velocidades.

Em segundo lugar, não é necessário uma caixa de câmbio para regular a temperatura e pressão no motor, então a aceleração é contínua, sem qualquer "tranco", como de costume. Com isso em mente, "uma terceira razão é que, em motores de combustão interna, estamos acostumados a ouvir o som do motor antes de realmente sentirmos a aceleração, e isso não acontece em um veículo elétrico".

Bos é autor de uma série de estudos sobre sons preditivos e a redução de cinetose em veículos elétricos e autônomos, e destaca que "atualmente estamos numa fase de transição, sem muita experiência com isso", o que acaba intensificando o problema.

Além disso, a frenagem nos elétricos pode acontecer simplesmente ao tirar o pé do acelerador, e ser mais acentuada ao pisar no freio. Visando maior autonomia, a energia cinética da massa do carro é transformada em energia pelas rodas, que seguram mais forte o carro, na chamada frenagem regenerativa.

Isso pode aumentar a sensação de inércia nos passageiros e consequentemente a sensação de enjoo em quem tem algum grau de cinetose, aponta Bos. Essas características técnicas, no entanto, são ajustáveis e a questão do costume por parte dos motoristas também entra na equação.

Luiz Fernando é gerente de negócios em uma corretora de seguros e motorista de aplicativo há quase dez anos, e conta que alugou um carro elétrico há três meses por necessidade. Após o seu carro a combustão quebrar, um amigo falou sobre alugar um carro elétrico, e após pesquisar sobre a economia com combustível e manutenção decidiu se aventurar, e agora decidiu seguir para a compra.

"Eu tô super adaptado. Para mim eu acho melhor que o carro a combustão, você tira o pé do acelerador e ele segura um pouco também, e se você pega o jeito, nem precisa pisar no freio, só mesmo para entrar numa curva ou algo do tipo".

Desde que fez a mudança, ele conta que frequentemente recebe elogios dos passageiros, e diz que nunca recebeu nenhuma reclamação de enjoo por conta do carro. Com cerca de 16 mil corridas e poucas reclamações, ele conta que tenta "entregar para o outro aquilo que eu entregaria para mim mesmo", e acredita que a forma como dirigi impacte também na cinetose.

Bos destaca que além de ser possível ajustar o nível de frenagem regenerativa e vivermos um momento de adaptação, "há motoristas que não pisam no acelerador constantemente e aceleram mais ou menos, o que é muito nauseante. Outros, por sua vez, aceleram e desaceleram suavemente".

"Há sim uma grande diferença na forma como os motoristas dirigem", destaca o pesquisador. A doutora Pereira destaca que o nosso sistema aprende a lidar com os movimentos, e que o hábito criado pela exposição é o melhor caminho para diminuir os sintomas de quem tem cinetose.

"As pessoas já se acostumaram com o motor a combustão e ainda estão se adaptando ao carro elétrico, ainda novidade", afirma, lembrando que marinheiros não passam mal pois já se habituaram às embarcações.

Louise conta que da última vez que andou em um elétrico se sentiu menos enjoada, e adota algumas medidas para ajudar no desconforto. "Não mexo no celular, tento olhar para frente, já que eu sei que olhar pras laterais me dá mais mal-estar, e tento ficar mais no meio para isso", conta ela.

No caso de Bianca, a enfermeira diz que para diminuir seu mal-estar, escolhe sempre sentar próximo à janela, e mantê-la aberta. Ela conta ainda que toma medicação para enjoo algum tempo antes de viagens longas, com dicas para evitar enjoos.

A doutora Pereira destaca que essas medidas são as principais e mais eficazes recomendações para ajudar no processo de adaptação, e que a medicação é indicada apenas em casos graves.

"Eu recomendaria qualquer tipo de medicação só para aqueles casos em que é muito intenso, que a pessoa está realmente passando muito mal e que isso está limitando muito a vida dela".

Sobre isso, Bos defende que medidas conjuntas são necessárias, como habituação dos passageiros e adaptação e educação dos motoristas, tal qual deve acontecer com os motoristas de ônibus nas cidades.

Ele destaca que isso inclusive é uma promessa de melhora com carros autônomos no futuro e lembra que, hoje, as fabricantes devem pensar no conforto dos passageiros.

"É possível reduzir o enjoo de movimento usando certas tecnologias como os estímulos antecipatórios, por exemplo, sons artificiais e vibrações nos bancos, provavelmente uma tecnologia muito promissora [...] além de recursos visuais e no sistema de navegação".

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