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Insetos de dia, anfíbios à noite: a rotina de uma expedição científica no alto da Amazônia

Descubra protocolos rigorosos de coleta, identificação e preservação que cientistas usam para documentar novas espécies em ambientes extremos da Amazônia.

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Vista aérea de árvores da floresta Amazônica
Insetos de dia, anfíbios à noite: a rotina de uma expedição científica no alto da Amazônia • TV Brasil

Sentada diretamente sobre o chão úmido de uma floresta no topo de um platô amazônico, a entomologista Gabriela Procópio Camacho abre frestas em um tronco caído com a ponta de um canivete. Dentro da madeira em decomposição, uma colônia de cupins se agita sob a luz que atravessa a copa das árvores. Com uma mangueira de borracha adaptada como aspirador, ela captura os insetos um a um, buscando obstinadamente as rainhas da colônia.

Essa dedicação minuciosa não é caso isolado. Desde 24 de agosto, dezesseis cientistas acampados a 1.260 metros de altitude na Serra do Aracá, extremo norte do Amazonas, seguem protocolos científicos rigorosos para documentar a biodiversidade de tepuis — montanhas de topo plano que abrigam espécies completamente diferentes das encontradas na planície amazônica. Os métodos revelam como a ciência descobre, valida e preserva conhecimento sobre a vida em ambientes isolados.

Por que cada grupo de pesquisa trabalha em horários diferentes

A rotina da expedição segue os ciclos biológicos dos organismos estudados, não o relógio humano convencional. Enquanto botânicas trabalham das 7h às 17h procurando plantas com flores e frutos, os ornitólogos despertam às 4h para capturar o momento em que as aves estão mais ativas e famintas.

Os herpetólogos, especialistas em répteis e anfíbios, entram na mata escura logo após o jantar. Anfíbios não toleram altas temperaturas e utilizam a umidade noturna para cantar e disputar território nos riachos. Esse comportamento crepuscular funciona como ajuste ecológico direto — um nicho temporal que as espécies ocupam para evitar competição e predadores diurnos.

A sincronização com os ritmos da natureza não é escolha estética. É condição essencial para encontrar os organismos no momento em que estão visíveis, audíveis ou capturáveis.

O método de coleta das plantas e por que estruturas reprodutivas são essenciais

As botânicas Vania Nobuko Yoshikawa e Jenifer de Carvalho Lopes não chegaram ao platô às cegas. Antes da expedição, estudaram listas históricas de espécies amazônicas e consultaram repositórios digitais como o speciesLink — rede brasileira que integra dados científicos sobre biodiversidade desde 2002.

Em campo, a tomada de decisão é ditada pelo estado das plantas. Para coletas válidas, os espécimes precisam estar com flor ou fruto, porque essas estruturas reprodutivas permitem identificação no nível de gênero e espécie. Sem elas, a classificação taxonômica fica impossibilitada.

De volta ao acampamento no almoço, elas prensam as plantas em folhas de jornal e organizam de três a cinco duplicatas de ramos por indivíduo. As amostras vão para sacos plásticos com álcool para evitar fungos. Paralelamente, extraem pedaços de folhas saudáveis e os colocam em pequenos saquinhos com sílica gel para desidratação rápida e preservação do DNA até o laboratório.

Nos cinco primeiros dias, coletaram mais de 100 espécimes e identificaram populações expressivas de canela-de-ema e orquídeas terrestres. Todo material será tombado no Inpa e disseminado para herbários no Brasil e em outros países, incluindo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Instituto de Biociências da USP e Jardim Botânico do Missouri.

Como funciona a captura e preparação taxonômica de aves

Os ornitólogos Luis Fábio Silveira e Igor Alvarenga despertam na escuridão total para capturar aves ativas no final da noite e registrar o coro da aurora — momento em que os pássaros acordam com fome e ficam mais visíveis.

Carregando binóculos, gravadores de som e espingardas, eles abrem ao amanhecer dezenas de redes de neblina — malhas extremamente finas que funcionam como armadilhas passivas até o fim da manhã. As redes são retiradas antes do meio-dia para evitar que as aves capturadas se machuquem.

Todos os espécimes vão para o acampamento, onde passa a fase crítica: pesagem, medição, retirada de tecidos e preparação taxonômica. Esse processo altamente metódico de processamento, posicionamento e conservação física não tem margem para erros. Segundo Silveira, uma amostra de tecido com número trocado significa que ela foi perdida para sempre.

A primeira semana rendeu surpresas como a presença expressiva de beija-flores devido à abundância de flores no platô. O maior destaque foi o beija-flor Colibri delphinae, do qual coletaram três indivíduos — ave não registrada nas expedições anteriores à Serra do Imeri e ao Pico da Neblina. Em contrapartida, as matas de encosta frustraram expectativas pela escassez surpreendente de aves.

O que é um voucher acústico e por que ele garante confiabilidade

Quando a escuridão cai sobre o platô, os herpetólogos testemunham uma troca de turno acústica na floresta. Muitos sapos cantam escondidos no solo ou no alto das árvores, e descobrir o que produz cada som é desafio complicado pelo fato de os animais silenciarem ao menor sinal de aproximação.

O herpetólogo Taran Grant explica que o desafio não é apenas capturar o áudio, mas flagrar o cantor em ação. É vital registrar exatamente qual indivíduo está cantando, por vários motivos. Primeiro, porque é necessário certificar-se de que determinado canto pertence realmente àquela espécie. Por isso, ele grava o áudio e observa o animal cantando, com o saco vocal inflado.

Esse exemplar físico capturado e associado diretamente à gravação em áudio é denominado voucher. O rigor metodológico é essencial porque o canto varia individualmente conforme a temperatura ambiente e o tamanho do corpo — indivíduos menores emitem frequências mais agudas que os maiores da mesma espécie.

Ao término da primeira fase de exploração, o grupo de herpetologia registrou de oito a nove espécies de anfíbios e de quatro a cinco espécies de lagartos. O grande destaque foi a captura de um pequeno lagarto adaptado ao arenito das áreas abertas, apontado como provável espécie nova para a ciência.

Como pequenos mamíferos são capturados e por que cada detalhe importa

Os mastozoólogos Alexandre Percequillo e Ana Paula Carmignotto iniciam a metódica revisão matinal das armadilhas deixadas em campo na noite anterior. No segundo dia de expedição, constataram a captura de um roedor que parece pertencer ao gênero Zygodontomys — típico de áreas abertas e campinarana, mas que também ocorre na altitude da Serra do Aracá.

Segundo Percequillo, não tinham capturado esse animal nem nas expedições ao Pico da Neblina nem na Serra do Imeri. Ao levar o animal para o laboratório de campo, o líder da expedição Miguel Trefaut Rodrigues celebrou: nunca tinha encontrado esse bicho. Ele ficou impressionado com a aparência física do roedor e com o fato de já ter sido classificado como Akodontini e hoje pertencer à tribo Oryzomyini.

A captura marcou o momento em que a expedição oficialmente saiu do zero no grupo dos pequenos mamíferos. Cada espécime capturado passa por medições precisas, coleta de tecidos para análise genética e preparação taxonômica que permite sua integração ao acervo científico permanente.

Por que coletar mesmo o que não é sua especialidade

A entomologista Gabriela Procópio Camacho é especialista em formigas, mas não hesita em passar horas agachada na terra capturando cupins, sujeitando-se a mordidas de formigas e picadas de moscas-mutucas onipresentes na Serra do Aracá.

Segundo a pesquisadora, essa é oportunidade única de coletar. Por isso, quer amostrar a maior parte dos insetos que conseguir para aproveitar ao máximo a viagem. O material, mesmo que não seja analisado por ela, será destinado ao acervo biológico do Museu de Zoologia da USP para que outros especialistas possam estudá-lo.

Essa abnegação e obsessão em colaborar e não desperdiçar tempo é a tônica da expedição à Serra do Aracá. Considerada o maior esforço de prospecção de biodiversidade já realizado no topo dessas montanhas isoladas, a jornada científica é encarada pelos dezesseis participantes como oportunidade única de coletar o maior número possível de espécimes de fauna e flora, além de amostras que muito provavelmente só existem ali.

Diante do isolamento milenar da região, a expectativa de descrever novas formas de vida permanece alta. Cada protocolo rigoroso, cada hora dedicada à coleta meticulosa e cada espécime preservado adequadamente representam peças essenciais no quebra-cabeça do conhecimento sobre a biodiversidade amazônica.

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