Hantavírus em cruzeiro: há risco de epidemia? Infectologistas explicam
Cruzeiro que navegava pelo oceano Atlântico registrou três mortes após suposto surto de hantavírus

A empresa responsável pelo cruzeiro MV Hondius, que enfrenta possível surto de hantavírus, confirmou nesta segunda-feira (4) que a embarcação passa por "situação médica grave". Três tripulantes morreram e outros três estão doentes.
O médico infectologista e atual presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Adelino Melo Freire Junior, explica que não há risco de uma epidemia associada a esse caso. "Até o momento, não há evidências que indiquem transmissão significativa de pessoa para pessoa nesse contexto, já que essa forma de disseminação é extremamente rara. Portanto, não há risco de epidemia associado a essa situação específica", destaca o profissional.
A embarcação está isolada na costa de Cabo Verde, e os casos estão sendo investigados pela operadora de turismo Oceanwide Expeditions, responsável pelo cruzeiro. "A conduta mais adequada neste momento é aguardar a conclusão das investigações e reforçar as medidas de prevenção, especialmente para pessoas que frequentam ambientes com possível presença de roedores, como o uso de máscaras em locais fechados e empoeirados, além da higienização adequada das mãos", recomenda o infectologista.
O que é o hantavírus?
O hantavírus está associado à síndrome cardiopulmonar, principalmente nas Américas. O infectologista Leandro Curi explica que se trata de "uma infecção viral transmitida principalmente pelo contato com roedores silvestres infectados, especialmente por meio da inalação de partículas presentes em urina, fezes ou saliva desses animais".
Segundo ele, a doença causa sintomas hemorrágicos devido à queda das plaquetas no sangue, "um mecanismo que também pode ser observado em infecções como dengue, malária e febre amarela". No Brasil, "os casos se concentram principalmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, seguidas pelo Sudeste, onde há maior registro da doença, geralmente associada a áreas rurais ou locais com maior exposição a roedores".
A síndrome cardiopulmonar relacionada ao vírus acomete principalmente os pulmões e o sistema cardiovascular. "Trata-se de uma infecção com alta taxa de letalidade, variando entre 30% e 50%, o que significa que pode levar à morte uma parcela significativa dos pacientes infectados", afirma o profissional.
Quanto ao tratamento, o infectologista diz que não há tratamento específico para hantavírus. "O manejo é baseado em medidas de suporte intensivo, especialmente em ambiente hospitalar, com monitoramento rigoroso das funções respiratória e cardiovascular."
Entenda o caso
O cruzeiro MV Hondius navegava pelo oceano Atlântico e teve três mortes confirmadas na noite de domingo (3) pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Por meio de nota, a Oceanwide Expeditions, empresa responsável pela embarcação, informou que o primeiro passageiro morreu em 11 de abril. “A causa da morte não pôde ser determinada a bordo. Em 24 de abril, esse passageiro desembarcou em Santa Helena,ilha britânica], acompanhado de sua esposa”, diz o comunicado.
Após três dias, em 27 de abril, a entidade foi informada de que a esposa do passageiro também havia morrido. "Até o momento, não foi confirmado se essas duas mortes estão relacionadas à atual situação médica registrada a bordo". Ambos eram cidadãos holandeses.
Na mesma data, um passageiro britânico apresentou quadro grave e foi levado à África do Sul por via aérea. O paciente foi diagnosticado com hantavírus. "Essa pessoa está atualmente sendo tratada na unidade de terapia intensiva em Joanesburgo, em estado crítico, porém estável", diz a empresa.
No sábado (2), um passageiro alemão morreu. A causa ainda não foi determinada.
"Além disso, há atualmente dois tripulantes a bordo com sintomas respiratórios agudos, um leve e outro grave. Ambos necessitam de cuidados médicos urgentes. Esses tripulantes são de nacionalidade britânica e holandesa. Até o momento, nenhuma outra pessoa com sintomas foi identificada. O hantavírus não foi confirmado nas duas pessoas que ainda estão a bordo e necessitam de cuidados médicos. Também não foi estabelecido se o vírus está relacionado às três mortes associadas a esta viagem. A causa exata e qualquer possível conexão estão sendo investigadas", informou a operadora de turismo.
Ao todo, são 149 pessoas a bordo, de 23 nacionalidades diferentes. Nenhum dos tripulantes é brasileiro. O desembarque de passageiros, o atendimento médico e a triagem exigem autorização e coordenação das autoridades sanitárias locais.
Formada em Jornalismo pela Puc Minas, Paula Arantes produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil, Mundo, Orações e Entretenimento no portal da Itatiaia. Atualmente, colabora com a editoria Meio Ambiente. Antes, passou pelo jornal Estado de Minas.



