Saída de ex-deputado da PBH expõe pressão em Fuad e divergências no PSD
Osvaldo Lopes não comunicou direção do partido, mas avisou deputado aliado

A renúncia "surpresa" do ex-deputado estadual Osvaldo Lopes do cargo de secretário-adjunto de Meio Ambiente da Prefeitura de Belo Horizonte, anunciada por ele na última sexta-feira (14), aconteceu depois que Lopes soube que deixaria o posto para ser realocado dentro da prefeitura.
Nomeado em abril para o cargo em meio a cobranças do PSD ao prefeito Fuad Noman por mais espaço na gestão municipal, Osvaldo Lopes acabou desagradando vereadores que defendem a pauta animal - mesma área em que ele atuava enquanto vereador e deputado estadual. Por conta nomeação dele, a base do prefeito chegou a perder o vice-líder de governo na Câmara, Wanderley Porto (Patriota), que deixou o posto insatisfeito com o espaço dado ao "rival".
Além de Porto, a presença de Osvaldo Lopes na secretaria irritava os vereadores Janaína Cardoso (União) e Miltinho CGE (PDT), parlamentares que adotaram a pauta animal como principal bandeira de seus mandatos. Com a aproximação da eleição de 2024, a preocupação do trio era de que Lopes teria vantagem junto ao eleitorado por aparecer com frequência em ações de Meio Ambiente e ter o poder da caneta do Executivo, o que facilitaria na construção de apoios eleitorais.
Essa insatisfação gerou um ultimato de grupos políticos ao prefeito e, na semana retrasada, bateu-se o martelo de que Osvaldo Lopes continuaria na prefeitura, mas em outro cargo. A informação de que deixaria a secretaria-adjunta de Meio Ambiente irritou o ex-deputado, que, antes de se rebelar de vez, chegou a tentar apoio para assumir a Fundação de Parques Municipais, mas não teve sucesso.
Interlocutores mais atentos observaram que Osvaldo Lopes não comunicou ao presidente do PSD mineiro, Cássio Soares, sobre a decisão de sair do cargo, mas avisou ao deputado federal Luiz Fernando Faria (PSD-MG), outra forte liderança do partido.
Questionado se teria avisado ao PSD sobre a decisão, Lopes foi contundente. "O 'PSD' é muita gente, e conversei com quem no partido me deu abertura. Mas, sigo em contato com a bancada federal, principalmente", disse.
Sobre a possibilidade de ser retirado da secretaria e colocado em outro posto na prefeitura, Lopes disse que precisaria de liberdade para trabalhar. "Nunca falaram de liberdade de trabalhar, seja na secretaria ou em qualquer outro lugar. Ser funcionário fantasma não me interessa".
Na sexta, ao lado do presidente da Câmara, Gabriel Azevedo (sem partido), Lopes anunciou a renúncia com uma carta aberta em que critica a gestão Fuad.
“Neste momento, sinto o isolamento da máquina e em especial da figura do chefe do Poder Executivo, senhor Fuad Noman, do PSD, que me impediu de exercer a atividade e contribuir para o bom funcionamento dos processos que envolvem o meio ambiente e o bem-estar dos animais. Além de não ter sido acatado, por diversas vezes, o meu pedido de reunião com o Chefe do Poder Executivo, a fim de discutir pautas importantes da causa”, lê-se em trecho da carta enviada por Lopes ao prefeito.
Em outro momento do texto, o ex-adjunto afirma ter sido “excluído” do processo de cadastramento dos cavalos que circulam na cidade. A identificação dos animais está relacionada à implantação da lei que prevê o fim do uso das carroças nas ruas belo-horizontinas.
Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. É colunista da Rádio Itatiaia. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.
