Quem ainda pode mudar de voto? Especialistas analisam indecisos e 3ª via
Especialistas analisam perfil dos eleitores que ainda não definiram o voto e a possível migração de votos da chamada terceira via nos dias finais da campanha

A poucos dias do primeiro turno das eleições de 2026, uma parcela dos eleitores ainda não definiu o voto para a Presidência da República. Pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira (30) apontou que cerca de 18% dos eleitores não conseguem indicar o nome de um candidato, aumento de 10 pontos percentuais em relação ao mesmo período da eleição de 2022.
O perfil desse eleitor e a possibilidade de migração de votos foram discutidos no “O Grande Debate Eleições 2026”, na quarta-feira (30), por Yuri Sanches, head de análise política da AtlasIntel; Cila Schulman, CEO do Instituto Ideia; Marcelo Tokarski, CEO da Nexus; Bruno Soller, analista e sócio do Real Time Big Data; e Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest.
Os especialistas analisaram o comportamento dos indecisos, os candidatos do chamado “segundo pelotão” e os fatores que podem influenciar a decisão de voto nos últimos dias antes da votação.
Número de indecisos deve cair
Guilherme Russo, da Quaest, destacou que o número de indecisos vem diminuindo nas últimas semanas. Segundo ele, a tendência é de que esse grupo fique ainda menor até o fim de semana.
“A expectativa é que, até sábado, até domingo, caia para um patamar muito baixo, porque o eleitor é forçado a decidir”, afirmou.
De acordo com Russo, esse movimento ocorre junto à chamada “desidratação” dos candidatos do segundo pelotão — Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — diante da força de Lula nas pesquisas.
O especialista também afirmou que o eleitor que deixa a decisão para os últimos dias tende a considerar questões práticas do cotidiano.
“Isso tende a estar ligado a questões muito práticas relacionadas ao que eu acho que esses candidatos podem trazer de melhor na minha vida, relacionado a preços dos alimentos, a saúde aqui do posto de saúde do meu bairro”, disse.
Para Russo, parte da responsabilidade pela permanência desse eleitor indeciso é dos próprios candidatos, que não conseguiram conquistá-lo durante a campanha.
Eleitores que podem migrar
Yuri Sanches, da AtlasIntel, avaliou que os eleitores de Ronaldo Caiado e Romeu Zema são os mais disponíveis para uma eventual migração, enquanto a base de Renan Santos teria se mostrado mais estável durante a campanha.
“Um eleitor que, entre as idas e vindas, entre os eventos que a gente viu e que impactaram essa corrida ao longo, desde que a campanha começou, o eleitor do Renan Santos foi aquele que se manteve ali bastante fiel”, explicou.
Segundo Sanches, os eleitores de Caiado e Zema representavam tentativas de terceira via com propostas semelhantes às de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principalmente em temas como anistia aos presos do 8 de janeiro, segurança pública e libertação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Com pouca diferenciação ao longo da campanha, esse eleitorado teria iniciado um movimento de migração em direção a Flávio Bolsonaro.
Já o eleitorado de Augusto Cury foi considerado mais heterogêneo e poderia se dividir entre Lula e Flávio Bolsonaro, por ter reunido diferentes perfis ao longo da campanha.
Perfil do eleitor indeciso
Cila Schulman, do Instituto Ideia, destacou que o grupo de indecisos é formado predominantemente por mulheres da região Sudeste e da classe C, segundo os dados apresentados por ela.
“Quando a gente está falando de indecisos, a gente está falando de mulheres da região Sudeste de classe C majoritariamente”, afirmou.
Schulman descreveu esse eleitor como alguém que pode ter votado em Bolsonaro em eleições anteriores, se desencantado com ele durante a pandemia e, posteriormente, votado em Lula, sem ter as expectativas correspondidas.
“Então, ele não quer voltar nem para um nem para outro”, disse.
Segundo ela, cerca de 3% a 4% do eleitorado com esse perfil será decisivo para o resultado final e representa um grupo difícil de conquistar, especialmente em uma campanha que, na avaliação dela, foi marcada pela ausência de propostas e debates programáticos.
Pablo Marçal e o voto útil
Bruno Soller, do Real Time Big Data, analisou a trajetória de Pablo Marçal (PRTB) e o impacto de sua candidatura sobre a campanha de Flávio Bolsonaro.
Para Soller, Marçal já teria cumprido sua principal função ao entrar em embate direto com Renan Santos em um momento em que o candidato apresentava crescimento.
“Me parece que o Pablo Marçal já deu até a grande contribuição que ele podia dar para a campanha do Flávio Bolsonaro”, avaliou.
Soller afirmou que o público de Marçal, majoritariamente evangélico, de classe C2 e da periferia de São Paulo, já estaria, em grande parte, apoiando Flávio Bolsonaro.
Por isso, a capacidade de transferência de votos de Marçal seria limitada neste momento da campanha.
Segundo turno no horizonte
Marcelo Tokarski, da Nexus, apresentou dados segundo os quais cerca de 60% dos eleitores que apoiam candidatos do segundo pelotão afirmam que manterão o voto até o fim.
Entre os 40% que dizem poder mudar de escolha, não há uma migração concentrada em apenas um dos dois líderes.
“Vai um pouco mais para o Flávio, um pouco menos para o Lula e tem até uma turma que fica dentro da própria terceira via”, explicou.
Tokarski também apontou que a disputa está marcada pela divisão entre lulismo e bolsonarismo. Segundo os dados apresentados por ele, 75% dos eleitores afirmam ter definido o voto há mais de seis meses.
Para o especialista, uma definição ainda no primeiro turno dependeria de uma redução dos votos dos candidatos do segundo pelotão para um nível inferior à diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas.
“Eu não vejo esse movimento, lógico que vai ter voto útil, mas eu não vejo um movimento tão intenso e por um lado só”, concluiu.
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