‘Fui a Brasília, invadi o STF e o Planalto, e Bolsonaro arregou’, conta mineiro preso em 8 de janeiro
Advogado de São João del-Rey faz relato sobre sua participação nos atos antidemocráticos do dia 8 de janeiro

O advogado Marco Túlio Rios Carvalho, de 35 anos, de São João del-Rey, esteve na linha de frente dos atos antidemocráticos do dia 8 de janeiro. Ele invadiu o prédio do Supremo Tribunal Federal (STF) e depois o Palácio do Planalto. Por volta de meia noite voltou para o acampamento montado em frente ao Quartel General do Exército, horas depois foi levado de ônibus para a academia da Polícia Federal, onde recebeu voz de prisão. Marco Túlio ficou preso por 118 dias, deixou o presídio da Papuda e voltou para São João. Atualmente usa uma tornozeleira eletrônica e, um ano após os ataques na Praça dos Três Poderes, tenta publicar um livro contando os detalhes do que viveu naquele dia.
“Ainda têm muitas investigações contra mim. Daqui a pouco me prendem de novo”, conta o advogado mineiro em entrevista à reportagem da Itatiaia por meio de mensagens. “Estou usando tornozeleira. Não vou fazer acordo com a ditadura da toga. Prefiro ficar meses ou anos na cadeia”, diz.
Em seu relato - que mistura aspectos religiosos com sua decisão de participar dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília - Marco Túlio se apresenta ironicamente como ‘líder terrorista do 8 de janeiro’, ‘cristão revolucionário’ e ‘número 8 dos 1.390 réus do 8 e janeiro’.
“Eu gosto quando me chamam de terrorista, de golpista, não tem problema. Eu sou de direita, mas sou do amor, acho que Jesus é o nosso exemplo”, diz.
Em entrevista para a rádio São João del-Rey, afiliada da Itatiaia, o advogado usou uma camisa da Seleção Brasileira e falou sobre sua participação nos atos. “Eu fui preso por 118 dias. Eu não tenho nada de inocente aqui, só para deixar claro, eu fui lá em Brasília com sangue nos olhos mesmo, não tinha essa conversa fiada de fui lá .. não sei o quê … entrei nos prédios porque estavam soltando bombas … não, fui para invadir. Pronto”, admite Marco Túlio.
O mineiro considera que o ex-presidente Jair Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos por ter medo de ser preso pelo STF. “Vou ser bem sincero, para mim o Bolsonaro não foi viajar para os Estados Unidos, para mim ele fugiu. Fugiu porque estava com medo de ser preso. Ele abriu nossos olhos, então tem grande mérito nisso, só que no momento de dar o comando para as Forças Armadas, fazer o que tinha de ser feito, ele arregou”, afirmou.
Questionado se as críticas ao ex-presidente podem gerar indisposições com os antigos aliados bolsonaristas da cidade, Marco Túlio diz que já não liga: “A verdade é que não ligo. Solado que vai para guerra e tem medo de morrer, é covarde”.
Viagem para Brasília
Ele conta como se engajou em um movimento de direita de São João del-Rey, indignados com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2022.
“Na minha cidade, São João del-Rei em Minas Gerais, a manifestação iniciou com bloqueios de estradas, que aconteceram em duas saídas: no caminho para Belo Horizonte e na saída para a BR-040, caminho para Barbacena e Lavras, conhecida como trevo do Elói. Dentro de mim também brotava o sentimento de revolta e indignação de que era preciso fazer algo a respeito. Não dava mais para fechar os olhos para tudo que estava acontecendo. O chamado de Deus veio forte para mim, para que pudéssemos resgatar o que haviam tomado de nós”, conta Marco Túlio em seu relato.
Junto com outros moradores de São João, ele foi de carro para Brasília no dia 31 de dezembro de 2022 e ficou acampado em frente ao quartel até a manhã do dia 9 de janeiro, quando foi preso.
“Saímos de São João del Rei rumo à Brasília às 21 horas, cercado de grande apoio e vibração. Gritos e aplausos. Vitória. Esse era o sentimento único de todos nós. A sensação que tive ao sairmos em viagem para Brasília, sendo ovacionados por toda aquela gente, era como se estivéssemos ali como uma tropa militar que recebe grande apoio da população local ao ir para a guerra”, conta Marco Túlio.
Ele diz que a estrutura do acampamento era precária e sem nenhum tipo de conforto. “A falsa ideia que foi divulgada que o acampamento em Brasília era um paraíso era mentira”, conta. “Fiquei por 4 dias com diarreia, cagando em banheiros químicos muito fedorentos, apenas flexionando as pernas, sem ter onde sentar. Fiquei doente e tive febre. Não estava acostumado a esse nível de degradação”, relata Marco Túlio.
Marcha e invasões
O mineiro conta que no dia 8 de janeiro o acampamento estava lotado e todos os presentes demonstraram intenção de fazer um ato pacífico. “O dia começou com uma assustadora paz entre os manifestantes, apesar de muitos terem chegado sexta e sábado com clima de muita expectativa e euforia. Milhares de pessoas de todo o país. Estávamos prontos para marchar pelo Brasil. Mas ninguém imaginava o que viria pela frente”, afirma.
“O objetivo da maioria era ocupar a Praça dos 3 poderes e seus arredores, sem causar qualquer dano ao patrimônio público, mas como são milhares de pessoas muito revoltadas e indignadas com a corrupção e a fraude, era impossível prever o que poderia acontecer”, continua.
Marco Túlio conta que invadiu o prédio do Supremo Tribunal Federal, onde viu que já havia sido feita uma pixação “Perdeu, Mané”, em referência a uma declaração do ministro Luís Roberto Barroso para uma apoiadora do ex-presidente Bolsonaro.
“Após invadir o STF, subi até o segundo andar, mas não fiquei por lá por muito tempo. Tinham várias pessoas quebrando móveis dali. Havia outro andar acima, mas como estava tudo escuro, parecia uma armadilha. Preferi não ir até lá e saí do prédio”, conta.
Segundo o advogado mineiro, durante os ataques, ele fez quatro transmissões ao vivo no seu instagram: a primeira durante a marcha, depois já com alguns confrontos de manifestantes com policiais e uma última live já no retorno para o acampamento.
“Depois do STF, eu invadi, junto com muitos manifestantes, o Palácio do Planalto, que representava o governo esquerdista (Poder Executivo). Subi a rampa junto com outras centenas de manifestantes. Lá dentro, eu vi um rapaz de camisa do Brasil com a cabeça toda ensanguentada, assim como Jesus sangrava muito na cruz”. diz Marco Túlio.
Prisão no dia 9 de janeiro
Após invadir as sedes do Executivo e do Judiciário, Marco Túlio voltou para o acampamento em frente ao quartel do Exército. “Eram mais 8 quilômetros de caminhada, ou seja, foram 8 km para ir, 8 km para voltar, fora o enorme cansaço físico e mental da batalha heróica. Estávamos exaustos para retornar, mas não dava para ficar ali no meio do caminho. Voltamos nos arrastando”, conta.
“Chegamos antes da meia-noite no acampamento. Fui direto para a tenda de atendimento médico, onde estavam vários dos feridos que chegaram da Praça dos 3 Poderes. Ao chegar nas barracas, nos reencontramos com nossos amigos. Só pensávamos em dormir e descansar. Ou melhor, desmaiar. Estávamos voltando de uma guerra épica”, relata.
No dia seguinte, os integrantes do acampamento foram levado de ônibus para a Academia da Polícia Federal: “A ordem do comando da Polícia Militar no megafone era clara: Se o acampamento não fosse desocupado em 1 hora, todos os manifestantes que estivessem ali seriam presos com o uso da força. Quem quisesse ir embora, não poderia fazê-lo a pé. Precisaria entrar em um dos ônibus, que seria deixado na rodoviária de Brasília, para que pudéssemos retornar, cada um, para a sua cidade de origem. Tudo armação. Da Polícia e do Exército”.
Depois de dois dias retido, no dia 11 de janeiro de 2023, Marco Túlio recebeu voz de prisão. Dias depois foi transferido para o presídio da Papuda, onde ficou preso até o dia 6 de maio. Ele responde a vários inquéritos pelos ataques de 8 de janeiro e admitiu à reportagem da Itatiaia que pode voltar a ser preso a qualquer momento.
Editor de Política. Formado em Comunicação Social pela PUC Minas e em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já escreveu para os jornais Estado de Minas, O Tempo e Folha de S. Paulo.
