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Ornitorrinco possui característica inédita entre mamíferos, segundo estudo

Pesquisa revela estruturas típicas de aves no animal e levanta novas dúvidas sobre sua evolução

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Animal possui melanossomos ocos em sua pelagem, uma estrutura nunca antes registrada em outros mamíferos • TwoWings via Wikimedia Commons

O ornitorrinco, conhecido por sua aparência incomum e mistura de características de diferentes animais, acaba de se tornar ainda mais intrigante para a ciência. Um novo estudo revelou que esse mamífero possui estruturas de melanina que, até então, eram consideradas exclusivas das aves.

Encontrado na costa leste da Austrália e na Tasmânia, o ornitorrinco já é uma exceção na natureza. Ele pertence ao pequeno grupo dos monotremados, os únicos mamíferos que botam ovos, ao lado das equidnas. Além disso, o macho possui um esporão nas patas traseiras capaz de injetar veneno, algo raro entre mamíferos.

Agora, pesquisadores identificaram mais uma característica surpreendente. A descoberta foi publicada recentemente na revista científica Biology Letters e aponta que o animal possui melanossomos ocos em sua pelagem, uma estrutura nunca antes registrada em outros mamíferos.

A melanina é o pigmento responsável pela cor da pele, dos pelos e das penas, além de ajudar na proteção contra radiação ultravioleta e na regulação da temperatura corporal. Dentro das células, ela fica armazenada em pequenas estruturas chamadas melanossomos, cuja forma está diretamente ligada às cores produzidas.

Nos mamíferos, esses melanossomos costumam ser sempre preenchidos. Já nas aves, alguns podem ser ocos ou achatados, o que permite uma maior variedade de cores e até efeitos iridescentes, como os vistos nas penas de pavões.

Ao analisarem dados sobre essas estruturas em diferentes espécies, cientistas se depararam com um resultado inesperado no ornitorrinco. Embora a maioria de seus melanossomos seja esférica, o que indicaria tons mais claros como ruivo ou alaranjado, o animal apresenta pelagem marrom-escura.

Mais surpreendente ainda foi a identificação de melanossomos ocos, semelhantes aos das aves. Segundo a bióloga Jessica Leigh Dobson, da Universidade de Gante, trata-se de um caso único entre os mamíferos analisados até agora.

De acordo com a pesquisadora, esses melanossomos estão distribuídos de forma aleatória no pelo e não produzem efeitos visuais como iridescência. Ainda assim, sua presença levanta novas questões sobre a biologia do animal.

A origem dessas estruturas ainda é desconhecida, mas uma das hipóteses sugere que elas podem estar relacionadas ao passado evolutivo do ornitorrinco. Seus ancestrais possivelmente tinham hábitos aquáticos e escavadores, e os melanossomos ocos poderiam ter ajudado no isolamento térmico.

Essa teoria ganha força ao considerar as equidnas, parentes próximos do ornitorrinco que hoje vivem em ambiente terrestre e não apresentam essa característica. Para os cientistas, a transição de habitat pode ter levado à perda dessas estruturas nas equidnas, enquanto o ornitorrinco, que ainda é semiaquático, as manteve.

Apesar das descobertas, os pesquisadores destacam que ainda são necessários mais estudos para entender completamente a função e a origem desses melanossomos incomuns. O que já se sabe é que o ornitorrinco continua desafiando as explicações tradicionais da biologia e reforçando sua fama como um dos animais mais peculiares do planeta.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.