Chama da gratidão
Dom Walmor reflete sobre a importância da gratidão para combater a violência e o egoísmo

A perda da delicadeza no cotidiano contribui para o enfraquecimento da gratidão, virtude essencial à convivência humana. Quando a gratidão desaparece, crescem a indiferença, o egoísmo e até a violência, pois o ingrato deixa de reconhecer o bem recebido e rompe vínculos fundamentais. Muitas vezes, a mágoa e a revolta impedem pessoas de perceber tudo o que já receberam dos outros. Assim, obscurece-se a memória do bem, endurecem-se os corações e alimentam-se disputas e hostilidades.
Santo Tomás de Aquino ensina que a gratidão não é mera emoção ou etiqueta social, mas exigência da justiça e da ordem moral. Todo benefício recebido gratuitamente gera uma dívida moral, não jurídica ou matemática, mas fundada no reconhecimento e na benevolência. O agradecimento autêntico envolve três atitudes: reconhecer o benefício recebido, agradecer ao benfeitor e retribuir, no momento oportuno, com respeito, generosidade e civilidade.
A ingratidão representa deformação moral. O ser humano vive de dons: a vida, a educação, a amizade, a cultura, a fé e a graça divina. Ser grato é reconhecer que ninguém é autossuficiente. Quando alguém se fecha no orgulho, considerando que tudo lhe é devido, torna-se incapaz de cultivar ternura, amizade e humildade. Mesmo as boas ações podem ser contaminadas pela soberba, comprometendo a credibilidade e a capacidade de amar.
A gratidão a Deus, aos pais, aos mestres e aos benfeitores jamais deve ser perdida. Ela ultrapassa a lógica da troca e fundamenta-se na fraternidade e no amor cristão. Por isso, a ingratidão contradiz a ordem moral e enfraquece o compromisso com o bem comum. Quem cultiva a gratidão desenvolve humildade e reconhece a importância do semelhante em sua existência. Reavivar a chama da gratidão é caminho indispensável para superar inimizades, conter a violência e fortalecer a fraternidade. Reconhecer Deus como fonte de todo dom é condição para restaurar a verdade do amor e da convivência humana.
O Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidiu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e publica semanalmente aos sábados no Portal Itatiaia.
