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Inflação dos alimentos pesa mais sobre produtos frescos

Levantamento indica alta acima da inflação geral e perda de poder de compra de alimentos in natura, enquanto ultraprocessados ficam relativamente mais baratos

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Em 20 anos, alta superou em 62% a inflação oficial
Em 20 anos, alta superou em 62% a inflação oficial • Tânia Rêgo / Agência Brasil

Um estudo divulgado nesta terça-feira (31) pela organização não governamental ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Agência Bori, aponta que a inflação dos alimentos no Brasil tem caráter estrutural e afeta de forma mais intensa os produtos frescos do que os ultraprocessados.

O levantamento foi elaborado pelo economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Segundo o pesquisador, o encarecimento da comida no país não pode ser explicado apenas por fatores sazonais ou conjunturais.

De acordo com o estudo, oscilações temporárias, como a alta do tomate na entressafra, ou eventos pontuais, como variações cambiais, não são suficientes para justificar o comportamento persistente dos preços. “A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários e está associada às características históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro”, afirma o autor.

Alta acima da inflação

Entre junho de 2006 e dezembro de 2025, o custo da alimentação no Brasil subiu 302,6%, enquanto a inflação geral, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi de 186,6%. Isso representa um encarecimento 62% superior ao índice oficial.

No mesmo período, nos Estados Unidos, os preços dos alimentos ficaram cerca de 1,5% acima da inflação geral, evidenciando uma diferença significativa em relação ao cenário brasileiro. O estudo também aponta que, no Brasil, os preços dos alimentos tendem a subir com facilidade em momentos de crise, mas apresentam resistência para recuar posteriormente. Entre os itens que mais encareceram no período estão frutas (516,2%), carnes (483,5%) e tubérculos, raízes e legumes (359,5%).

Alimentos saudáveis mais caros

A pesquisa indica que a perda de poder de compra é mais acentuada nos alimentos in natura. Entre 2006 e 2026, o poder de compra para frutas caiu cerca de 31%, e para hortaliças e verduras, 26,6%. Por outro lado, houve aumento na capacidade de compra de produtos ultraprocessados, como refrigerantes (+23,6%) e embutidos — caso de presunto (+69%) e mortadela (+87,2%).

Segundo o economista, esse movimento está relacionado à menor variação de preços de insumos industriais e à padronização da produção. “Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, são transformados em milhares de produtos distintos por meio de aditivos”, explica. Para o autor, essa dinâmica influencia diretamente os hábitos de consumo, incentivando a substituição de alimentos mais saudáveis por opções menos nutritivas.

Modelo exportador e custos

O estudo aponta ainda que o modelo agroexportador brasileiro contribui para a pressão sobre os preços internos. Com maior retorno no mercado internacional, produtores tendem a priorizar culturas como soja, milho e cana-de-açúcar. Entre 2006 e 2025, as exportações de alimentos saltaram de 24,2 milhões para 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações cresceram pouco, passando de 14,2 milhões para 17,7 milhões de toneladas.

No mesmo período, a área destinada a culturas voltadas ao mercado interno, como arroz, feijão e hortaliças, foi reduzida. Outro fator relevante é o aumento expressivo no custo dos insumos agrícolas. Fertilizantes, por exemplo, tiveram alta de 2.423% entre os triênios 2006-2008 e 2022-2024. Também subiram herbicidas, máquinas e outros equipamentos utilizados na produção.

Segundo o pesquisador, esse cenário reflete a dependência de tecnologias e insumos controlados por grandes empresas internacionais, o que encarece toda a cadeia produtiva.

Concentração e “inflação invisível”

A concentração de mercado também é apontada como elemento de pressão inflacionária. O estudo destaca que poucas empresas dominam segmentos como sementes, pesticidas e alimentos industrializados. Além disso, o autor chama atenção para a chamada “inflação invisível”, quando produtos mantêm o preço, mas perdem qualidade por substituição de ingredientes mais caros por outros mais baratos.

Possíveis soluções

Entre as medidas sugeridas para conter a alta dos alimentos estão o fortalecimento da produção local, o reequilíbrio entre exportação e abastecimento interno, a ampliação do acesso à terra e o incentivo à produção voltada ao mercado doméstico. Para o economista, o preço dos alimentos vai além de uma questão econômica. “Expressa escolhas políticas, distributivas e civilizatórias sobre o modelo de sociedade que se pretende construir”, conclui.

* Com informações de Agência Brasil

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