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Após terremotos, venezuelanos vivem dilema entre reconstruir a vida ou deixar o país

Com mais de 5 mil mortos após os terremotos na Venezuela, população relata incerteza sobre o futuro; mais de 5 mil pessoas já morreram

Por e 
Reyna Escalona, profissional da saúde
Reyna Escalona, profissional da saúde • Itatiaia

Três semanas após os terremotos que devastaram parte da Venezuela, os reflexos da tragédia vão além dos números de mortos, feridos e desabrigados. Em meio ao desafio da reconstrução, muitos venezuelanos se veem diante de uma pergunta difícil: ficar ou buscar uma nova vida fora do país.

O número de mortos chegou a 5.069, segundo atualização divulgada pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, na última sexta-feira (17). O total de feridos permanece em 16.740, enquanto 17.907 pessoas seguem desabrigadas. De acordo com o governo venezuelano, mais de 850 edifícios foram danificados e 190 desabaram completamente.

Os terremotos atingiram Caracas e, principalmente, o estado de La Guaira, onde famílias passaram a viver em acampamentos improvisados em estádios, praças e calçadas. Equipes de resgate locais e estrangeiras continuam trabalhando na busca por corpos sob os escombros.

Incerteza sobre o futuro

Entre os atingidos está a profissional da área da saúde Reyna Escalona, de 63 anos, que teve a casa destruída em La Guaira. Mãe de três filhos, ela já convive com a distância de dois deles, que vivem na Colômbia e no Panamá.

Em entrevista à Itatiaia, Reyna afirmou que ainda não consegue imaginar como será o futuro da família. "Eu já não sei nem o que pensar já, de verdade, porque é triste pensar até nisso agora. Futuro para as crianças, para os meus filhos que não estão aqui, estão fora do país", disse.

Apesar das dificuldades, ela afirma que os filhos ainda cogitam retornar à Venezuela. "Eles estão se preparando mais para montar seu negócio aqui na Venezuela. Então, não sei o que vai acontecer. Não sei, não quero pensar muitas coisas negativas, sabe?", completou.

Reyna Escalona, profissional da saúde • Itatiaia
Reyna Escalona, profissional da saúde • Itatiaia

A ambulante Nora Hernández, de 53 anos, também vê a possibilidade de migração rondar sua família. O filho único, de 18 anos, estuda e pretende construir carreira no país, mas considera buscar oportunidades em outro lugar caso não encontre perspectivas. "Ele está estudando e a ideia, logicamente, é exercer a profissão aqui no país. Mas se ele não vir futuro, ele tem que buscar o seu futuro", afirmou.

Como mãe, ela admite a dificuldade de lidar com essa possibilidade. "A gente nunca se prepara para ver os filhos partirem. Mas é preciso fazer isso, porque os filhos são do mundo. A gente dá a vida a eles, mas são eles que decidem como vivê-la", declarou.

Nora Ernandez, vendedora ambulante • Itatiaia
Nora Ernandez, vendedora ambulante • Itatiaia

Entre partir e permanecer

A experiência da venezuelana Ivanna Cordido, de 34 anos, ilustra os desafios enfrentados por quem decide deixar o país. Ela passou um ano em Cartagena, na Colômbia, mas retornou à Venezuela após enfrentar episódios de xenofobia.

"Em um tempo, fui embora e voltei, porque simplesmente é o lugar onde quero estar. Mas às vezes acontecem essas coisas tão fortes, e eu entendo alguém que queira ir embora, e não julgo porque o que queremos é tranquilidade, é segurança", relatou.

Segundo ela, o irmão vive atualmente em Charlotte, nos Estados Unidos, onde também enfrenta dificuldades relacionadas à condição de imigrante latino.

Ivanna Cordido, de 34 anos • Itatiaia
Ivanna Cordido, de 34 anos • Itatiaia

Já a estudante Andrea Canônico, de 23 anos, tem uma visão diferente. Ela passou dois dias soterrada antes de ser resgatada após os terremotos, mas garante que não pretende deixar a Venezuela.

"Eu não me vejo, de verdade não me vejo vivendo em outro país. Eu amo o meu país, amo a minha terrinha. Não descarto que seja a passeio, adoro viajar, isso sim, mas de verdade, definitivo, não me vejo fora da Venezuela, me vejo aqui", afirmou.

Andrea Canônico em conversa com a Itatiaia • Itatiaia
Andrea Canônico em conversa com a Itatiaia • Itatiaia

Reconstrução e perspectivas

Em entrevista exclusiva à Itatiaia, a embaixadora do Brasil na Venezuela, Glivânia Maria de Oliveira, que ocupa o cargo desde fevereiro de 2024, avalia que ainda é cedo para afirmar que a tragédia provocará uma nova onda migratória, inclusive em direção ao Brasil."Eu sei que é uma situação  difícil aqui no país, mas eu sei também que há, enfim, há perspectivas", afirmou.

A diplomata destacou ainda os impactos das sanções internacionais sobre a economia venezuelana e a necessidade de recursos para a recuperação do país.

"A Venezuela é um país duramente golpeado por sanções internacionais, com recursos retidos. O que eu vejo é o governo fazendo um esforço e um apelo à comunidade internacional para que esses recursos possam ser liberados, porque o país precisa dos seus recursos e de um espaço que permita uma reconstrução", pontuou.

Segundo a embaixadora, a recuperação da Venezuela dependerá de condições que permitam a retomada da infraestrutura e da economia. Ela ressaltou ainda que o Brasil mantém cooperação humanitária com o país, desde que haja solicitação formal das autoridades venezuelanas.

Passada a fase mais crítica da emergência, a Venezuela enfrenta agora o desafio de reconstruir cidades, recuperar estradas e restabelecer serviços essenciais.

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Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2024), mesma instituição onde diplomou-se jornalista (2013). Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades.

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André Viana é jornalista, formado pela PUC-MG. Já trabalhou como redator e revisor de textos, produtor de pautas e conteúdos para rádio e TV, social media, além de uma temporada no marketing.

 

 

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