Comentarista mostra preocupação com João Fonseca: 'Não posso fingir que acho normal'
Fernando Meligeni, ex-tenista, comenta a decisão de João Fonseca não atuar mais em 2026

Neste sábado (17), João Fonseca anunciou que não disputará mais torneios em 2027 por "não estar nas condições ideais" para entrar em quadra. O ex-tenista e comentarista Fernando Meligeni mostrou preocupação com o cenário de pressão vivido pelo jovem brasileiro.
"O comunicado de João deixa margem para especulações. É físico ou mental? É grave ou preventivo? Ele vai jogar a exibição contra Alcaraz, mas não o circuito? Afinal, qual é o verdadeiro problema? Como analista e torcedor, não posso fingir que acho isso normal. Preocupa-me. Como ex-atleta, entendo que há coisas que não são ditas. E, claramente, decidiram não contar tudo", inicia Meligeni.
"Uma verdade e uma pergunta precisam ser colocadas. O hype fez mal a João. Ele já parecia mais pesado, sério e assustado. Talvez ainda não tenha conseguido lidar com esse moedor de cérebro que é ser tratado como o salvador da pátria”, segue o ex-tenista.
A temporada 2026 foi marcada por uma série de lesões do principal tenista brasileiro. Ele sentiu um incômodo no abdômen e abandonou o Masters 1000 de Cincinnati e ficou de fora do US Open, último Grand Slam da temporada. Ele também teve lesões na lombar, no punho direito e no ombro.
Em setembro, após ajudar o Brasil a conquistar uma vaga na fase qualificatória da Copa Davis de 2027 ao derrotar a Suíça, João Fonseca afirmou que não estava 100% nem fisicamente e nem mentalmente em um ano difícil e cansativo, mas que estava "criando casca".
Confira, na íntegra, a publicação de Fernando Meligeni:
"O tênis acordou com a notícia de que João não vai jogar mais este ano.
Em tempos em que a informação é mais acessível, mas nem sempre transparente, o medo da repercussão dita o que se escreve e o que se cala.
A culpa é do atleta? Do time? Talvez precisemos ampliar o olhar e entender que a pressão que colocamos sobre eles deixa pouco espaço para a verdade e pouca coragem para dizer claramente o que está acontecendo.
O comunicado de João deixa margem para especulações. É físico ou mental? É grave ou preventivo? Ele vai jogar a exibição contra Alcaraz, mas não o circuito? Afinal, qual é o verdadeiro problema?
Como analista e torcedor, não posso fingir que acho isso normal. Preocupa-me. Como ex-atleta, entendo que há coisas que não são ditas. E, claramente, decidiram não contar tudo.
Uma verdade e uma pergunta precisam ser colocadas. O hype fez mal a João. Ele já parecia mais pesado, sério e assustado. Talvez ainda não tenha conseguido lidar com esse moedor de cérebro que é ser tratado como o “salvador da pátria”.
Aos que gostaram de atacar, julgar, desdenhar e massacrar um jovem, só digo uma coisa: vocês conseguiram. Parabéns!
Talvez a sinceridade tenha custado caro. Ao dizer que queria ser número 1 do mundo, João criou uma expectativa enorme. Na vida, todos temos responsabilidade: ele, o time, o esporte e os haters. Mas não cansamos de errar. Fazemos isso com nossos filhos, pressionando-os e transferindo nossas frustrações. Fazemos com nossos ídolos e com jovens em formação. Vivemos de comparações e, muitas vezes, destilamos nossas frustrações e nosso ódio nos outros.
Agora, é torcer para que ele se recupere física e mentalmente. A parte física não me preocupa tanto. A mental, no fundo, também não. Nunca achei que a caminhada seria fácil, como muitos parecem acreditar. Nunca o comparei aos outros. João tem seu tempo.
Que ele se encontre, descanse e volte forte. Quero vê-lo sorrindo, leve e curtindo o circuito. Os resultados também são consequência de como ele vive fora das quadras.
Mas há uma pergunta que ele precisa fazer a si mesmo: quanto está disposto a pagar para se tornar quem sonhou ser?
Força, João!"
Chefe de reportagem e ex-correspondente da Itatiaia no Rio de Janeiro. Apaixonado por esportes, pela arquibancada e contra torcida única.



