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Teto de gastos e punições: saiba como funciona o fair play financeiro no Brasil

Desde 1º de janeiro de 2026, órgão independente criado pela CBF fiscaliza contas dos clubes das Séries A e B

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Bola do Campeonato Brasileiro 2026
Bola do Campeonato Brasileiro 2026 • Letícia Martins/EC Bahia

Desde 1º de janeiro de 2026, a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, órgão independente criado pela CBF, passou a fiscalizar as contas dos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro. Em entrevista exclusiva à Itatiaia, Caio Cordeiro de Resende, presidente da agência, detalhou as regras do fair play financeiro que prometem mudar o futebol brasileiro.

O fair play financeiro nada mais é que um sistema de regulação financeira dos clubes de futebol. Em 26 de novembro de 2025, foi publicado o regulamento e a agência foi criada. Logo no primeiro dia deste ano, os clubes de futebol passaram a ter que seguir uma série de regras de gestão, governança e sustentabilidade.

O regulamento é grande, complexo e traz inúmeras regras. Algumas delas já estão valendo, outras estão em período de transição. Estão previstas novas normas para valer a partir do ano que vem e outras valerão a partir de 2028.

Como qualquer regulamento novo, existe um período em que os clubes vão estudar e entender o regulamento. Por isso, a agência realiza workshops com os clubes das Séries A e B para tirar dúvidas.

Uma das regras que já está em vigor é a de controle dos pagamentos em atraso. Qualquer jogador contratado na janela de transferências deste ano já está submetido ao regulamento de fair play e à regra de controle de atraso.

“Essa regra diz que, uma vez que você assume uma obrigação, você não pode atrasar. O clube tem que honrar com suas obrigações. Se um clube contratou um jogador na janela de janeiro e tem uma parcela vencendo em março, se ele não pagar, ele já está sujeito às sanções do regulamento do fair play”, explica Caio.

Uma das grandes novidades do regulamento é que a agência passou a controlar e monitorar todas as transações feitas no futebol brasileiro. Quando um clube contrata um jogador, antes de poder colocá-lo em campo, é preciso cadastrá-lo no sistema da ARNSF todas as informações referentes à transação, como forma de pagamento, quantas parcelas e o valor delas.

“Vimos que os clubes gastaram 25% menos em relação à janela anterior. Acreditamos que isso é fruto do trabalho do fair play, fruto da nova regra que vem para mudar um cenário que era comum no futebol basileiro. Infelizmente, naturalizamos a questão de um clube contratar um jogador, não pagar, contratar outro e não pagar, contratar um terceiro e não pagar. A agência vem para mudar um pouco esse cenário”, declara Resende.

Um dos principais pilares do fair play financeiro no Brasil é que os clubes terão que passar a cumprir suas obrigações perante outros clubes e atletas. Dívidas trabalhistas também estão sendo monitoradas pela agência, assim como os débitos com o poder público, como dívidas previdenciárias e tributárias, que podem levar a uma sanção a partir de agora, caso o clube não as cumpra.

Punições

Existem dois conjuntos de sanções no regulamento: as destinadas aos clubes e outra para os dirigentes. Para as agremiações, são sete punições previstas, que começam desde a advertência e vão até multa, retenção de receita, transfer ban, dedução de pontos, rebaixamento e cassação de licença do clube. Já dirigentes podem ser responsabilizados caso haja má prática de gestão ou enviar informações falsas à agência ou se recuse a cumprir uma decisão da agência. As punições para as pessoas físicas são: advertência, multa, suspensão do exercício de funções no futebol até o banimento do futebol.

Teto de gastos

O regulamento conta com dois pilares para tratar do teto de gastos. O primeiro se chama “Equilíbrio”, que significa que o clube não pode gastar mais do que arrecada. Porém, há exceções, por exemplo, quando o dono aporta dinheiro no clube.

O documento também diz que o aporte tem que ser feito na forma de aumento do patrimônio líquido do clube. Esse é um conceito contábil, mas que quer dizer simplesmente: o dinheiro tem que entrar no clube, ele não pode vir na forma de dívida.

O segundo critério é o controle do custo de elenco, que diz que o clube não pode gastar mais de 70% do orçamento com salários e contratações do elenco profissional. Então, a partir de agora, existe um teto no futebol brasileiro.

“Se o clube, por exemplo, arrecada R$ 100 milhões, ele pode gastar no máximo R$ 70 milhões com o seu elenco profissional. Isso porque sabemos que a maior fonte de desequilíbrio dos clubes é quando o clube investe além das suas capacidades na formação do seu elenco. Contrata jogadores muito caros, assume uma folha salarial muito acima da sua capacidade”, explica o presidente da agência.

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Rômulo Giacomin é repórter multimídia da Itatiaia. Formado pela UFOP, tem experiência como repórter de cidades da Região dos Inconfidentes, e, na cobertura esportiva, passou por Esporte News Mundo, Estado de Minas, Premier League Brasil e Trivela.