FMF condena ato misógino contra árbitra no Dia Internacional da Mulher

Árbitra mineira Giulia Sampaio Piazzi foi alvo de xingamentos machistas pelo goleiro Allan Carlos, do Monte Azul

Bandeira da Federação Mineira de Futebol (FMF)

A Federação Mineira de Futebol (FMF) emitiu uma nota de repúdio às ofensas misóginas sofridas pela árbitra mineira Giulia Sampaio Piazzi, neste domingo (8) - Dia Internacional da Mulher.

Na nota divulgada, a entidade afirmou que o futebol mineiro é um lugar para pessoas de todos os gêneros, sejam jogando ou trabalhando. Leia a nota da FMF completa ao final da matéria.

“A FMF deixa claro: não há espaço no futebol mineiro para qualquer forma de preconceito, discriminação ou violência de gênero. O futebol é um ambiente de todos e para todos — e a presença de mulheres em campo, seja como atletas, árbitras, dirigentes ou qualquer outra função, é um direito inegociável que esta Federação defende com firmeza”, escreveu a Federação no comunicado.

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Entenda o caso

Giulia foi árbitra assistente do jogo entre Monte Azul e Univila, pela primeira fase do Campeonato Amador SFAC Série A, no domingo (8). Aos 45 minutos do segundo tempo, a bandeirinha foi xingada com insultos machistas pelo goleiro Allan Carlos, do Monte Azul.

Giullia marcou um impedimento na jogada do clube mandante e invalidou o que seria o gol de empate do time. Após a marcação, Allan teria proferido mensagens como: ‘Você é uma safada’, ‘Tinha era que estar em casa lavando vasilha’ e ‘Vagabunda’.

Segundo a súmula da partida, o jogador ainda insinuou que mulheres não deveriam trabalhar no futebol.

“O jogador do Bragantino tinha razão quando falou que mulher não tem que estar no futebol, é essa desgraça aí!”, relatou Giulia no documento.

O goleiro citou o caso do zagueiro Gustavo Marques, do RB Bragantino. No mês passado, após a derrota da equipe de Bragança Paulista para o São Paulo, nas quartas de final do Campeonato Paulista, o defensor insinuou que a culpa da derrota seria da arbitragem de Daiane Caroline Muniz dos Santos.

“[Jogar] contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians, e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho. Eu acho que ela não foi honesta pelo que ela fez”, disse Gustavo em entrevista pós-jogo.

Leia o relato da árbitra Giulia Sampaio Piazzi na na súmula do jogo entre Monte Azul e Univila:

Aos 45 minutos do segundo tempo, após marcação de impedimento em um gol da equipe do Monte Azul, o goleiro da equipe, sr. Allan Carlos da Costa, nº 1, dirigiu-se a mim e, aos gritos e com o dedo em riste, proferiu as seguintes palavras, de maneira agressiva e grosseira: ‘VOCÊ É UMA SAFADA! DE ONDE VOCÊ TIROU IMPEDIMENTO NESSE LANCE? VOCÊ TÁ AÍ DORMINDO, TINHA ERA QUE ESTAR EM CASA LAVANDO VASILHA. O JOGADOR DO BRAGANTINO TINHA RAZÃO QUANDO FALOU QUE MULHER NÃO TEM QUE ESTAR NO FUTEBOL, É ESSA DESGRAÇA AÍ! VAI TOMAR NO CU, VAGABUNDA!” O jogador precisou ser contido pelos atletas adversários e pelo Árbitro, Mateus Araújo, para que não se aproximasse mais e me atingisse. Também foi necessário que o Assistente 1, Anderson Renato, entrasse no campo para intervir, retirando os atletas de perto. Após a expulsão, o goleiro se posicionou atrás de mim no alambrado e repetiu os dizeres misóginos, sendo apoiado por vários de seus torcedores: “VOCÊ TINHA QUE ESTAR EM CASA, VAI PRA CASA LAVAR VASILHA, DESGRAÇADA!’ Diante da situação, me senti intimidada, ameaçada e ofendida em minha honra.

Ressalto que a comissão técnica do próprio Monte Azul me deu total apoio, pediu desculpas em nome do clube e reforçou a necessidade de relatar o episódio, por não concordarem com a atitude do goleiro e suas falas preconceituosas e ofensivas, destacando que a postura do atleta é inaceitável.

Nota de repúdio da FMF:

“A Federação Mineira de Futebol (FMF) vem a público manifestar seu mais veemente repúdio às declarações proferidas pelo goleiro Allan Carlos da Costa, da equipe Monte Azul, durante a partida realizada no dia 08 de março de 2026 — Dia Internacional da Mulher —, contra o Univila Esporte Clube.

Segundo relatado pela árbitra responsável pela partida em sua súmula oficial, o atleta dirigiu-se a ela de forma agressiva e grosseira, proferindo ofensas de cunho misógino e ameaçador, com expressões que atentam diretamente contra a dignidade, a honra e o exercício profissional da agente de arbitragem. A conduta foi presenciada por outros atletas, pela equipe de arbitragem e por torcedores presentes no local.

A FMF deixa claro: não há espaço no futebol mineiro para qualquer forma de preconceito, discriminação ou violência de gênero. O futebol é um ambiente de todos e para todos — e a presença de mulheres em campo, seja como atletas, árbitras, dirigentes ou qualquer outra função, é um direito inegociável que esta Federação defende com firmeza.

O caso será encaminhado imediatamente ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) para as devidas apurações e aplicação das sanções cabíveis previstas no Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD).

A FMF reitera seu compromisso intransigente com a igualdade de gênero, com a proteção das mulheres no esporte e com a construção de um ambiente saudável, justo e respeitoso em todas as competições que organiza e regulamenta. Atitudes como a relatada na súmula são inaceitáveis e não serão toleradas.

Por fim, a FMF manifesta sua integral solidariedade à árbitra Giulia Sampaio Piazzi. Sua coragem ao registrar os fatos na súmula — cumprindo com rigor e dignidade o seu dever profissional — é um exemplo para todo o futebol mineiro. Giulia representa o presente e o futuro do esporte que amamos, e esta Federação estará sempre ao seu lado na defesa do seu direito de arbitrar com respeito, segurança e liberdade. Que este episódio lamentável sirva não para intimidá-la, mas para reforçar ainda mais a certeza de que o seu lugar é em campo.

Giovanna Rafaela Castro é jornalista em formação e integra a equipe do portal Itatiaia Esporte

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