América: Salum detalha negociações por venda da SAF e explica impasse com investidor

Dirigente concedeu entrevista coletiva nesta quinta-feira (12) no CT Lanna Drumond e abriu o jogo sobre tratativas com investidor externo

Marcus Salum, coordenador do grupo de gestão do América

Marcus Salum, coordenador do grupo de gestão do América, concedeu entrevista coletiva no CT Lanna Drumond nesta quinta-feira (12) e detalhou as negociações pela venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) alviverde. O ex-presidente do Coelho também explicou o impasse com investidor externo.

O dirigente iniciou com uma explicação sobre o organograma do clube em relação à negociação da SAF.

“Eu sou responsável pela venda da SAF, mas não sou dono da SAF, não tenho cargo para isso. O América tem um Conselho de Administração, tem um Conselho Consultivo, tem um Conselho Deliberativo e tem uma Assembleia Geral - são essas pessoas que decidem, não é o (Marcus) Salum”, disse.

À frente, Salum revelou que o América recebeu um contato de Vinícius Diniz, que estava interessado em fazer uma proposta pela SAF do Coelho. Diniz já participou da administração do Athletic, pelo Grupo FutBraz, e também da SAF do Santa Cruz.

“O Vinícius Diniz, que é conhecido no mercado, procurou o José Flávio, que é presidente do Conselho (Deliberativo), e o Délcio Tolentino, para fazer uma proposta para o América. Fizemos um grupo e começamos a conversar com este grupo, que é a GPA, e começamos a negociar”, revelou Salum.

Adiante, o dirigente expôs mais detalhes sobre a negociação e foi direto ao destacar que o Memorando de Entendimento (MoU) apresentado pelo investidor externo não agradava ao América.

“A negociação comercial andou, e eu confesso que não era a negociação dos meus sonhos, mas eu concordei com a negociação. Fiz uma viagem, quando eu voltei, tinha um documento chamado de MoU (Memorando de Entendimento) pronto para ser analisado, que é o Memorando de Entendimento. Ao tomar conhecimento de um documento que não foi feito pelo jurídico do América e que li as condições do documento, eu procurei o José Flávio e o Délcio e falei: ‘Esse documento não tem a mínima condição de ser assinado pelo América”, iniciou.

“Qualquer associado do América que ler este documento fala: "É loucura assinar este documento. Vamos negociar este documento’. Não conseguimos. Conversei com o rapaz da GPA, conversei com o Vinícius. O documento era inviável. Ele foi enviado ao Conselho Consultivo, que tomou a mesma decisão: ‘Não dá para assinar este documento”, concluiu.

Salum explicou que a decisão em não assinar o MoU também passou pelo Conselho Consultivo do América e ressaltou que chegou a contatar o investidor para avisá-lo sobre a impossibilidade de firmar o documento.

“Qual foi a decisão do Conselho Consultivo? Vamos procurar a empresa e discutir o documento junto com nosso jurídico. Aí (o documento) foi para a reunião do Conselho Consultivo, e os conselheiros decidiram que não dava para assinar da forma que estava”, explicou Salum.

“Então, narrativas, têm muitas. Não tem grupo, não tem vaidade interna. Não tem narrativa. Não dava para assinar do jeito que estava. Eu cheguei a ligar para ele (investidor) e falei: ‘Este documento não dá para assinar. Temos que negociar o documento’. Levaram (o documento) para o Conselho Consultivo e falaram a mesma coisa”, finalizou.

O que tinha no documento que não agradou ao América?

Na sequência, Salum abriu o jogo sobre o impasse do América com a proposta apresentada pelo interessado em adquirir a SAF do clube. O dirigente pontuou fatores que dificultaram as negociações em outras oportunidades e afirmou que os envolvidos nas tratativas pelo lado alviverde não conheciam o investidor.

“Eu sempre tive muita dificuldade para concretizar a venda da SAF, porque no América, eu tinha uma barreira do Conselho (Deliberativo) que não poderia entrar patrimônio (do clube). Se eu tivesse essa possibilidade lá atrás, eu já teria fechado (a venda da SAF). E nesta negociação, entrou patrimônio. E não foi apenas um, foram dois”, começou Salum.

“O documento, nós não conhecemos o investidor. Tem um senhor que se chama Elias Weber, que é a pessoa da GPA, cujo o capital social se não me engano é de R$ 159 mil. Estamos falando de R$ 200 milhões (de investimento). Que é gestor de fundos, que, segundo eles, iriam investir no América”, acrescentou.

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Em outro momento, o gestor revelou que o investidor teria o interesse em buscar recursos oriundos de terceiros. Salum também apontou cláusulas que seriam impeditivas para o América no mercado - algo que não agradou membros da cúpula alviverde na negociação.

“O que o América queria: uma declaração dos fundos que, caso a due dilligence desse certo, eles estivessem dispostos a investir no América. Então, eu estou assinando um documento para uma pessoa que não vai investir, é uma pessoa que vai vender o América. Eu quero assinar com a pessoa que vai investir. Eu não sei quem é o investidor. Ele afirma que vai levar para os fundos e que os fundos vão investir. Então, me manda uma declaração dos fundos autorizando ele a negociar. Isso, eu pedi. Eu acho que estou no meu papel. Eu tenho responsabilidade aqui. E não fui eu quem vetou, foi o Conselho Consultivo, foi o Conselho de Administração. Eu faço parte do processo”, afirmou Salum.

“O segundo ponto, que é o pior de todos: vi em um grupo que eram só 30 dias para avaliar o documento e depois de 90 dias o dinheiro estaria na conta. Se alguém fosse colocar R$ 187 milhões aqui imediatamente eu seria contra? Eu ou o primeiro a estar a favor. Estou lutando para pagar as contas. Tem dinheiro meu lá emprestado, tem dinheiro do Alencar, tem dinheiro até do Baltazar”, continuou.

“A cláusula é a seguinte: você tem 15 dias para entregar os documentos para um possível investidor, porque não tem investidor ainda. Eu conheço o Elias (Weber), que é, por sinal, muito educado, bacana, reuni com ele várias vezes, e eles têm que dar aceite (na proposta). Depois, são 45 dias de due dilligence e mais 90 dias para decidir se vão investir”, concluiu.

Segundo o dirigente, o clube não poderia movimentar ativos no mercado. Além disso, houve outro embaraço na proposta apresentada pelo investidor externo.

“Depois de 150 dias, com todos os ativos do América parados, eu não posso vender jogador, não posso vender patrimônio, não posso fazer negociação, não pode fazer nada, ele vai decidir se vai investir. Sem data para pôr o dinheiro e sem falar que vai pôr à vista - isso é o que está escrito no documento. Aí você conversa com ele e ele fala: ‘Eu tenho o dinheiro, vou pôr à vista’. Então escreve, não está escrito”, pontuou.

“Como que eu vou ficar 150 dias sem vender jogador, sem fazer operação de crédito com a quantidade de contas que temos que pagar? E depois ele fala assim: ‘Se você descumprir, você tem que me pagar R$ 5 milhões para sair dele’. Eu nunca vi isso na minha vida. Isso não é normal, está errado o documento”, acrescentou o dirigente.

Investimento no futebol e impasse

O ex-presidente do Coelho expôs que não havia na proposta apresentada um “projeto esportivo” e sim um “projeto imobiliário”.

“A negociação comercial 80/20, incluído o CT (Lanna Drumond), operação em Santa Luzia, operação no Independência, R$ 187 milhões para quitar a dívida, investimento de R$ 800 milhões em dez anos, fluxo descontado da receita, contra a minha vontade, porque eu queria um mínimo anual (de investimento), e eles não colocaram. Eu não vi nenhum projeto esportivo, eu vi um projeto imobiliário”, afirmou Salum.

“Agora, tem a cereja do bolo: eu (investidor) posso alienar e vender o CT (Lanna), desde que eu faça outro em outro lugar - sem a autorização do América. Ele (investidor) só tem que falar que tem que ser um bom CT. Como eu vou assinar um documento autorizando ele a vender o CT dizendo que vai fazer outro? Isso é fora do normal”, disse.

Carta recebida pelo América e fim das negociações

Por fim, o dirigente contou como foi o fim das negociações com o fundo de investimentos. Nessa quarta-feira (11), o clube recebeu um e-mail no qual foi comunicado do encerramento das tratativas.

No e-mail, um representante da GPA Capital AI (assessoria de investimento do BTG Pactual), também subiu o tom em protesto pela forma como a negociação acabou sendo conduzida.

“A negociação, do jeito que foi feita, se ela vai para o papel do jeito que foi feita, nós íamos levar para a votação. O papel veio feito pelo advogado dele, tinha que mudar o papel. Tinha, porque a partir do momento que ele falou que não quer mais, eu não quero também. Já que ele não quer, eu não quero mais. Ele (Weber) que mandou a carta dizendo que não quer. A decisão da reunião do Conselho Consultivo era para conversar para mudar o MoU, não era para desfazer o negócio. E ele mandou uma carta dizendo que não quer mais o negócio, e pronto”, iniciou.

“O América está no mercado, estamos trabalhando, vamos vender ou parte, ou tudo. Temos um projeto de sócio-minoritário. O América é muito maior que um negócio desses. Eles vendem para a torcida que vão colocar dinheiro aqui e vai chegar um monte de craque. Isto é mentira, isto não é verdade”, continuou.

“Ainda tem mais. Ele pode vender o MoU, sem a autorização do América, e ele pode diluir, depois de dez anos, caso ele invista, de 20% para 10% (o percentual do América na SAF) - caso ele precise investir depois de dez anos. Tem uma outra cláusula, que chama drag along, na qual ele pode vender o clube para qualquer um sem a autorização do América. Só isso que eu já falei mostra que este documento não poderia ser assinado”, finalizou Salum.

Jornalista formado pelo Centro Universitário UNA. Acumula passagens pela Web Rádio Neves FM e Portal Esporte News Mundo, como setorista do América, além de possuir experiência em coberturas in-loco e podcast. Apaixonado por automobilismo e esportes americanos.
Fabrício Calazans se formou em jornalismo no UniBH. Ingressou na Itatiaia como estagiário em 2010 e passou por edição, reportagem, produção e apresentação. No “ar”, iniciou cobrindo a Copa Itatiaia. Foi também setorista da Federação Mineira de Futebol, apresentador do Apito Final e plantão nas Jornadas Esportivas. Desde janeiro de 2024 faz a cobertura do América. Tem no currículo participações em eventos nacionais e internacionais de futebol e esportes olímpicos.

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