Família denuncia assédio contra menino em escolinha do Atlético-GO, e clube se pronuncia

Em vídeos publicados nas redes sociais, madrasta aponta negligência do clube goiano após a comunicação do crime

Camila Marques, madrasta de um jovem atleta que denunciou um caso de assédio em torneio de base no interior de São Paulo

A família de um adolescente de 13 anos denunciou um caso de assédio sofrido por ele enquanto representava o Atlético-GO na 4ª Copa Sul-Americana de Futebol Infantil 2026, realizada entre 11 a 17 de janeiro, em Coronel Macedo, no interior de São Paulo. Por meio das redes sociais, Camila Marques, madrasta do atleta, apontou negligência do clube goiano no caso.

Também nas redes, o Dragão se pronunciou e repudiou o caso, além de afirmar que prestou apoio à família. Contudo, alegou que os crimes ocorreram num contexto em que o jovem atleta jogava por uma escolinha franqueada do Atlético-GO, e não no clube de maneira oficial.

Após a nota oficial Atlético-GO, Camila voltou a se pronunciar. Ela nega que o Dragão tenha dado apoio ao garoto e aos familiares. Ela ainda fez cobranças por atitudes enérgicas no sentido de identificar e punir os envolvidos.

Entenda o que ocorreu

Camila Marques afirma que seu enteado, de 13 anos, deixou o Rio de Janeiro para participar de um campeonato no Interior de São Paulo representando as cores do Atlético-GO. Ele foi para o local com dois outros jovens, um treinador e uma cuidadora. A família arcou com as despesas da viagem.

A madrasta alega que, no alojamento, eles tiveram uma confusão na primeira noite. Ela diz que um motorista do clube entrou de madrugada no local, fumando, gritando e abordando agressivamente uma colaboradora responsável pelos atletas, que acabou expulsa do local após o clube alegar que ela estava alcoolizada.

“‘Eu disse: ‘Filho, vocês não querem ir para o hotel? É melhor vocês todos irem para o hotel’. E ele falou: ‘Mãe, se a gente for para o hotel, a gente vai sair [do campeonato]’. Eles tinham feito uma viagem de 24 horas para participar desse campeonato. Lá eles ficaram”, contou.

Camila detalha que, para evitar a saída do campeonato, os atletas foram levados a um segundo “alojamento” inadequado, um salão paroquial sem estrutura.

Para ela, esse seria um indício do descaso do Atlético-GO. Um suposto diretor do clube, que se identificou como Wagner, foi apontado como o interlocutor entre a família e a agremiação durante todo o caso.

O assédio

Neste novo dormitório, o garoto teria percebido um comportamento estranho do cozinheiro das refeições dos jogadores.

Em uma das noites, o atleta foi abordado ao ir até o banheiro. O cozinheiro teria seguido o adolescente até o local e ficado na porta, fazendo comentários e perguntas suspeitas. Camila destaca que o enteado gravou o áudio da conversa.

Meu filho corre no banheiro para conseguir fechar a cabine com medo. Esse homem entra no banheiro, fica do lado de fora da cabine e começa a conversar com o meu filho. Ele começa a falar que morou 14 anos aqui no Rio de Janeiro, cidade onde meu filho mora, que namorava um traficante muito conhecido aqui no complexo do Alemão, um traficante perigoso”, detalhou.

Após o retorno ao Rio, o garoto contou o ocorrido à família. A madrasta aponta que, depois do episódio, o adolescente foi ameaçado por um dirigente (Wagner) para ficar em silêncio. Segundo ela, houve ainda tentativas do clube de descredibilizar o relato, deboches, contradições sobre cargos dos envolvidos e ausência de providências, inclusive por parte da organização do campeonato.

“Ele me diz que logo após ele ter sido expulso, envergonhado, escorraçado, o Wagner chegou para ele e disse: ‘Fica quietinho com o que aconteceu lá, porque se você contar para alguém, você vai ver comigo’. Ele contou do Wagner: ‘Vai ver o que vou fazer com você’. E aí ele contou. Ele contou para mim, ele contou para o pai, ele contou para mãe, ele contou para a psicóloga, ele contou para a família e agora eu estou aqui contando para o mundo. O que que meu filho vai ver com você agora que ele contou, que você mandou ele calar a boca dele?”, disse Camila, indignada.

O caso foi registrado na delegacia e será levado à Justiça. A madrasta diz ter áudios, vídeos, prints e testemunhos. Além disso, ela alega que decidiu tornar o relato público diante da gravidade dos fatos e da tentativa de silenciamento.

Pronunciamento do Atlético-GO

Depois do caso vir à tona, o Atlético-GO se pronunciou oficialmente. Por meio de nota oficial, veiculada nessa segunda-feira (26), o clube repudia o que ocorreu e reitera que buscará apurar e responsabilizar os envolvidos. Veja, abaixo, a nota na íntegra.

O Atlético Clube Goianiense vem a público manifestar-se sobre o vídeo e os relatos que circulam nas redes sociais envolvendo um atleta menor de idade, residente no Rio de Janeiro, que participou recentemente de um torneio no interior de São Paulo.

Diante da gravidade das denúncias apresentadas, o Clube julga necessário esclarecer os fatos e reiterar seu compromisso com a proteção integral de crianças e adolescentes:

Posicionamento Institucional: O Atlético Goianiense repudia, com a máxima veemência, quaisquer atitudes de cunho homofóbico, racista, machista ou xenofóbico, e condena abominavelmente qualquer forma de assédio moral ou sexual contra crianças e adolescentes. Tais comportamentos são inadmissíveis e não representam, em hipótese alguma, os princípios que regem este Clube.

Da Responsabilidade pela Delegação: O Atlético Goianiense esclarece que o convite para o atleta disputar a referida competição partiu de umas das suas escolinhas franqueadas, sendo que o responsável legal por esta unidade estava presente no local e acompanhando a delegação. Embora o Clube não possua ingerência administrativa direta sobre a gestão cotidiana das unidades franqueadas, inclusive participação em torneios, exigimos destas parceiras o mais alto padrão de cuidado, segurança e respeito no trato com menores de idade, condizente com a história e os valores da nossa instituição.

Do Acolhimento à Família: Ao tomar conhecimento das denúncias narradas pela responsável pelo menor, que envolvem relatos de assédio, expulsão de alojamento e condutas inapropriadas por parte de terceiros, o Atlético Goianiense agiu prontamente. O Clube designou-o seu Vice-Presidente Executivo, bem como toda a estrutura do seu Departamento de Psicologia, para atuar na apuração dos fatos, acolher a família e prestar todo o suporte necessário neste momento delicado.

Compromisso com a Justiça: É importante ressaltar que os fatos relatados ocorreram fora das dependências do Atlético Goianiense, especificamente em um alojamento disponibilizado pela organização do torneio no interior do Estado de São Paulo. No entanto, isso não exime o nosso compromisso com a verdade. O Clube assegura que não poupará esforços para buscar o total esclarecimento do ocorrido e auxiliará as autoridades competentes na responsabilização criminal e civil de qualquer pessoa, seja ela ligada a uma franquia, à organização do evento ou terceiros, que tenha causado danos emocionais, físicos ou morais ao menor e sua família.

O Atlético Goianiense reafirma sua solidariedade ao atleta e seus familiares e continuará acompanhando o caso com o rigor que a situação exige.

Atlético Clube Goianiense”

Leia também

Resposta da família

Logo após a divulgação da nota do clube, Camila publicou dois vídeos para rebater o que o Atlético-GO alegou.

Segundo a madrasta, não houve um processo de acolhimento familiar, conforme descrito na nota do clube.

“Eles disseram que foi toda uma equipe. Disseram que acolheram a gente, que teve psicólogo. Mentira, não teve, não teve nenhum contato com psicólogo. Ainda bem que meu filho tem uma psicóloga e depois desse acontecido a gente colocou mais uma psicóloga”, disse.

Além disso, ela cobra ações efetivas do clube, como a identificação do assediador, demissão dos funcionários envolvidos e a responsabilização dos envolvidos.

“Nós vamos deixar bem claro o que nós como familiares da vítima queremos. Nós queremos que o Wagner e o motorista sejam demitidos e banidos definitivamente do clube e que isso seja comprovado do clube ou qualquer escolinha ou qualquer empresa ligada ao clube”, destacou.

Queremos também que vocês auxiliem a polícia a encontrar o abusador, que até hoje não foi auxiliado. Vocês sabiam onde ele estava, sabiam quem era o organizador do evento, tinham contato e não fizeram nada para ajudar. Queremos inclusive que seja responsabilizado quem organizou o campeonato, porque quem levou o nosso filho até lá não foi o organizador. Então vocês precisam responsabilizar quem colocou esse cozinheiro lá”, finalizou.

Nesse novo vídeo, ela traz vídeos e trechos de conversas com profissionais do Atlético-GO. Além disso, utiliza registros do torneio para embasar a ligação do clube goiano com a competição.

Igor Varejano é jornalista formado pela UFOP. Tem experiência em esportes e cidades no rádio e em portais. Colaborou com Agência Primaz, Jornal Geraes e Rádio Real. Atualmente é repórter do Itatiaia Esporte.

Ouvindo...