UEFA, Concacaf e AFC voltam a pressionar Fifa em carta aberta: 'Não é sobre dinheiro'
Comunicado foi divulgado nas primeiras horas desta segunda-feira (10)

Um novo movimentou voltou a colocar pressão sob Gianni Infantino, presidente da Fifa. AFC, Concacaf e UEFA, entidades continentais do futebol na Ásia, América do Norte, Central e Caribe, e Europa, respectivamente, publicaram novo comunicado conjunto criticando o mandatário da Fifa.
As falas seguem na esteira dos últimos acontecimentos no mundo do futebol. Após a tentativa frustrada da venda bilionário de ativos do futebol, as confederações passaram a pressionar o mandatário máximo da Fifa.
"Não se trata de dinheiro", diz parte do comunicado. "As Confederações já haviam solicitado a distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA para fortalecer ainda mais o investimento no desenvolvimento das Associações Membro", segue o trecho.
Novas críticas
Outro ponto da carta faz novas críticas à postura da Fifa. Segundo o comunicado, a Fifa errou em realizar uma reunião com algumas lideranças em Rabat, no Marrocos.
O mais correto, segundo as três entidades, era a reunião em Zurique, sede da entidade máxima do futebol. Outro ponto trazido é a postura da Fifa com "falta de transparência" na avaliação dos erros nas atitudes.
Há silêncio onde deveria haver prestação de contas; distanciamento onde deveria haver transparência.
"Não houve o reconhecimento de que a proposta em si era intrinsecamente equivocada. Continua a não haver o reconhecimento de que tentar vender uma participação na Copa do Mundo da FIFA foi uma grave falha de julgamento — não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental de confiança com as próprias instituições que a FIFA existe para servir", diz.
O que diz a Fifa
A Fifa emitiu um comunicado na última quarta-feira (5) após a reunião de emergência realizada no Marrocos. A entidade admitiu que cometeu erros e pediu desculpas.
Apesar disso, a Fifa reforçou que não vai tolerar mais “ataques” à sua integridade e que vai tomar medidas para “proteger” sua reputação. A proposta de venda já foi retirada de pauta.
Outros apoios
A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) tem adotado postura diferente. A entidade vem reforçando o apoio à Fifa tanto nos bastidores quanto em entrevistas públicas. O presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, já ressaltou, em mais de uma vez, que está 'ao lado' de Infantino.
Outra confederação que segue ao lado da Fifa é a africana. A CAF A CAF prestou apoio à Fifa em carta aberta publicada há três dias.
Carta na íntegra da UEFA, Concacaf e AFC
Prezada família do futebol,
O futebol é a maior paixão compartilhada do mundo. Ele não pertence a nenhum indivíduo nem a nenhuma instituição.
Ele pertence aos jogadores, aos torcedores, aos clubes, às Associações Membro e a todas as instituições encarregadas de proteger o seu futuro.
É com esse espírito que, na qualidade de Confederações que representam os nossos membros, nos manifestamos coletivamente hoje.
O crescimento na última década foi real. No entanto, esse progresso nunca foi obra de um único indivíduo. Foi fruto do trabalho da FIFA, das Confederações, das Associações Membro e das milhares de pessoas que dedicam suas vidas a este esporte.
A expansão dos torneios, a atribuição das sedes das Copas do Mundo da FIFA de 2030 e 2034, a distribuição de recursos às associações: todas essas foram conquistas compartilhadas, acordadas em conjunto e concretizadas em conjunto.
Não se trata de dinheiro. As Confederações já haviam solicitado a distribuição responsável das vastas reservas existentes da FIFA para fortalecer ainda mais o investimento no desenvolvimento das Associações Membro.
Também não se trata de nenhuma Associação Membro perder o apoio que conquistou, apesar do alarmismo dirigido aos nossos membros para sugerir o contrário. Tampouco se trata de rever a expansão de competições, as vagas para a Copa do Mundo ou quaisquer outras decisões tomadas coletivamente. Essas decisões foram tomadas em conjunto e devem ser mantidas.
Trata-se de algo mais fundamental: a integridade do esporte e a integridade daqueles eleitos para liderá-lo.
A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter — ou exigir deter — o poder. É um dever de servir à família do futebol que confia essa responsabilidade.
Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou a autoridade, esse dever é abandonado.
A recente carta da FIFA aos seus vice-presidentes e às 211 Associações Membro reconhece que houve erros no processo. O documento trata o caso como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de julgamento. Uma proposta apresentada em um cronograma apertado, sem consulta significativa e forçada a cumprir um prazo antes que as Associações Membro pudessem analisar adequadamente seus termos, não é fruto de um descuido — é fruto de uma estratégia destinada a limitar o escrutínio.
Não houve o reconhecimento de que a proposta em si era intrinsecamente equivocada. Continua a não haver o reconhecimento de que tentar vender uma participação na Copa do Mundo da FIFA foi uma grave falha de julgamento — não apenas um deslize processual, mas uma quebra fundamental de confiança com as próprias instituições que a FIFA existe para servir.
A FIFA também se comprometeu a apresentar um relatório completo sobre esses eventos ao Conselho da FIFA, falhando mais uma vez em reconhecer que uma governança adequada, diante de tamanha falta de bom senso, exigiria que tal análise fosse conduzida por uma terceira parte totalmente independente — e não pela própria FIFA, por sua equipe ou por qualquer parte interessada no futebol. A administração da FIFA não deve desempenhar qualquer papel na condução dessa análise.
Conforme comunicado anteriormente, todos os documentos e registros relevantes devem ser preservados em conformidade com as orientações da UEFA sobre a preservação de documentos.
A própria carta da FIFA confirma que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião de liderança no Marrocos. Nenhum membro do Conselho da FIFA ou das Associações Membro foi convidado a participar. Apenas o comitê de gestão, composto por executivos contratados pela FIFA, estava presente.
Essa reunião recente — na qual um grupo restrito de membros do comitê de gestão da FIFA (e não o comitê em sua totalidade) foi convocado para o exterior, em vez de a liderança ir a Zurique para tratar diretamente com o coração da FIFA, sua equipe — apenas reforça essas preocupações e representa a continuidade do mesmo padrão de conduta que nos trouxe a este momento. Não é a conduta de um guardião do esporte, mas de alguém que acredita que o esporte deve prestar contas a ele.
Há silêncio onde deveria haver prestação de contas; distanciamento onde deveria haver transparência.
Essas não são as qualidades que o futebol merece em sua liderança. É por isso que adotamos esta postura: não de forma leviana nem isolada, mas em conjunto e por dever ao esporte que servimos.
A força do futebol sempre residiu em sua unidade. Exigimos que essa unidade seja honrada agora, em prol de uma liderança que sirva ao futebol, em vez de tentar comandá-lo.
Atenciosamente,
SALMAN BIN IBRAHIM AL KHALIFA (Presidente da AFC)
VICTOR MONTAGLIANI (Presidente da Concacaf)
ALEKSANDER ČEFERIN (Presidente da UEFA)
DATUK SERI WINDSOR JOHN (Secretário Geral da AFC)
PHILIPPE MOGGIO (Secretário Geral da Concacaf)
THEODORE THEODORIDIS (Secretário Geral da UEFA)
Leonardo Parrela é chefe de reportagem do portal Itatiaia Esporte. É formado em Jornalismo pela PUC Minas. Antes da Itatiaia, colaborou com ge.globo, UOL Esporte e Hoje Em Dia. Tem experiência em diversas coberturas como Copa do Mundo, Olimpíada e grandes eventos.



