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Copa do Mundo: craque chileno foi o primeiro na história a tomar um cartão vermelho

Carlos Caszely tomou o primeiro cartão vermelho da história

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Carlos Caszely foi o primeiro jogador a receber um cartão vermelho em Copas do Mundo
Carlos Caszely foi o primeiro jogador a receber um cartão vermelho em Copas do Mundo • Divulgação/ANFP

O cartão vermelho é um dos símbolos mais fortes do futebol. Ele representa a máxima punição dentro de campo e, muitas vezes, muda o rumo de uma partida. Mas nem sempre foi assim.

Durante as primeiras edições da Copa do Mundo, árbitros não utilizavam cartões físicos para advertir ou expulsar jogadores. As punições eram comunicadas apenas de forma verbal, o que frequentemente gerava confusão, discussões e episódios de tensão.

Foi justamente esse cenário que levou à criação dos cartões e, ironicamente, o primeiro cartão vermelho da história das Copas só seria aplicado quatro anos depois de sua adoção oficial, para o meia Carlos Caszely, o único chileno da história a ser artilheiro da Libertadores. A seguir, a Itatiaia esmiuça esta história.

Como surgiram os cartões nas Copas do Mundo

A origem dos cartões está diretamente ligada à Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra.

Nas quartas de final daquele Mundial, Inglaterra e Argentina protagonizaram um dos jogos mais tensos da história do torneio. O clima no estádio de Wembley era hostil, com discussões constantes e decisões polêmicas da arbitragem.

Durante a partida, o capitão argentino Antonio Rattín foi expulso pelo árbitro alemão Rudolf Kreitlein. O problema é que a decisão foi comunicada apenas verbalmente (em alemão).

Sem compreender o motivo da expulsão, Rattín se recusou a deixar o campo, alegando não entender a decisão. A confusão paralisou o jogo por vários minutos e escancarou um problema grave: não havia um padrão universal para comunicar punições disciplinares.

Cada árbitro utilizava seu próprio idioma e gestos, o que gerava interpretações equivocadas entre jogadores, comissões técnicas, torcedores e dirigentes.

A ideia que mudou o futebol

Após o episódio, a Fifa passou a discutir uma solução definitiva.

O responsável pela arbitragem da entidade na época, o inglês Ken Aston, teve a ideia durante um momento cotidiano: ao observar um semáforo de trânsito.

A lógica era simples e universal:

  • amarelo significaria atenção e advertência;
  • vermelho indicaria parada imediata e expulsão.

O objetivo era criar um sistema visual que pudesse ser compreendido em qualquer lugar do mundo, independentemente do idioma.

A proposta foi aprovada e os cartões coloridos passaram a integrar oficialmente as regras do futebol.

O primeiro cartão vermelho da história das Copas

O marco histórico ocorreu no dia 14 de junho de 1974, durante a partida entre Alemanha Ocidental e Chile, válida pela abertura do Grupo 1 da Copa do Mundo.

A Alemanha venceu o confronto por 1 a 0, mas o jogo ficou eternizado por um episódio disciplinar inédito: aos 22 minutos do primeiro tempo, o meia chileno Carlos Caszely cometeu uma falta dura sobre o zagueiro Berti Vogts.

O árbitro da partida, o alemão Kurt Tschenscher, não hesitou: mostrou o cartão vermelho direto.

Assim, Carlos Caszely se tornou o primeiro jogador da história a ser expulso com cartão vermelho em uma Copa do Mundo.

Quem foi Carlos Caszely?

Carlos Caszely é considerado o jogador mais popular e querido da história do Colo-Colo, principal clube do Chile, em que foi campeão nacional em 1970, 1972, 1979, 1981 e 1983.

Caszely era autêntico, sem “papas na língua”, e dono de muita habilidade em espaços curtos, característica que lhe rendeu o apelido de “O Rei do Metro Quadrado”.

Em 1973,  levou o Colo Colo ao vice-campeonato da Copa Libertadores (primeira final de um time chileno na história, perdida para o Independiente da Argentina) e o craque tornou-se o primeiro, e até hoje único, jogador chileno a ser artilheiro do torneio.

Muito em razão da personalidade forte, com apenas 21 anos, Caszely foi nomeado capitão da seleção chilena, pelo técnico Luis Álamos. Em “La Roja”, o meia jogou 49 partidas, com 29 gols marcados.

Jogou ainda pelo o Levante, da Espanha, time em que marcou 15 gols em 24 partidas, e depois atuou pelo Espanyol, de Barcelona, clube pelo qual permaneceu durante quatro de seus cinco anos na Espanha.

Copas do Mundo disputadas por Caszely

Caszely disputou duas Copas do Mundo, em 1974 e 1982.

Em 1974, contra os anfitriões, entrou definitivamente para a história ao receber o primeiro cartão vermelho da história das Copas do Mundo.

Na Espanha, em 1982, voltou a disputar o Mundial, atuando como titular em dois jogos da fase de grupos. Contra os austríacos, desperdiçou um pênalti, em uma campanha que culminou na eliminação precoce do Chile ainda na primeira fase.

Copa do Mundo de 1974

Na Alemanha, foi titular em dois jogos:

  • Chile 0 x 1 Alemanha Ocidental
  • Chile 0 x 0 Austrália

Copa do Mundo de 1982

  • Chile 0 x 1 Áustria
  • Chile 2 x 3 Argélia

Coragem extracampo: meia se opôs à ditadura chilena

O ano de 1973 também marcou profundamente a vida de Carlos Caszely por razões que extrapolavam o futebol. Naquele período, o Chile vivia o golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet, que derrubou o presidente democraticamente eleito Salvador Allende.

Enquanto muitos atletas se mantiveram em silêncio, Caszely foi um dos raríssimos jogadores chilenos a se posicionar publicamente contra a ditadura.

Em um ato de enorme coragem, revelou diante das câmeras da televisão chilena que sua própria mãe havia sido sequestrada e torturada por agentes do regime.

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Repórter em formação com experiência em coberturas locais e interestaduais, com atuação em diferentes frentes do jornalismo. Apaixonado por esportes, especialmente futebol, acompanha o cenário nacional e internacional, com foco em contexto, informação e curiosidades do jogo. Acumula passagem por No Ataque e Estado de Minas.