Quando se trata de Copa do Mundo, comumente as arquibancadas se transformam em um mosaico de cores. O encontro de diferentes nações quase sempre proporciona diferentes espetáculos de bandeiras, camisas, pinturas e símbolos que representam as idiossincrasias de cada país.
No caso das seleções africanas, um detalhe chama atenção: o verde, o amarelo e o vermelho aparecem repetidamente, dando a impressão de que algumas bandeiras são quase “idênticas”.
Na Copa do Mundo de 2026, nove países africanos estarão representados. Entre eles, alguns carregam diretamente essa herança cromática.
A explicação passa pela história da Etiópia e por uma das batalhas mais simbólicas do continente, conforme a Itatiaia explica a seguir.
Países africanos na Copa de 2026
Os países abaixo representarão a África no Mundial de 2026.
- Marrocos
- Tunísia
- Egito
- Argélia
- Gana
- Cabo Verde
- África do Sul
- Costa do Marfim
- Senegal
Partilha da África e resistência etíope
No final do século XIX, a África foi praticamente dividida entre potências europeias. A Conferência de Berlim, em 1885, formalizou a chamada Partilha da África, distribuindo territórios entre britânicos, franceses, portugueses, alemães, belgas e italianos, que já haviam conquistado e repartido entre si 90% da África.
A Etiópia foi uma das raríssimas nações que resistiram à tentativa de colonização europeia, mais precisamente da Itália.
Os italianos tentaram transformar o país em protetorado (quando um Estado mais “forte” assume a defesa e, muitas vezes, a política externa de um Estado ou território mais fraco) após o controverso Tratado de Wichale, assinado em 1889, interpretado de forma diversa entre as nações: enquanto os etíopes viam o acordo como diplomático, os italianos o entendiam como submissão.
A tensão culminou na Guerra Ítalo-Etíope, encerrada em 1896 com a histórica Batalha de Adwa, que teve um impactante resultado: vitória do exército etíope diante das tropas italianas, que obrigou a Itália a reconhecer formalmente a independência do país africano.
As cores que viraram símbolo continental
Após a vitória, o imperador Menelik II consolidou o uso da bandeira verde, amarela e vermelha, cores que ganharam significado político e identitário relacionado ao pan-africanismo, movimento que promove a solidariedade, unidade e libertação dos povos africanos contra o colonialismo, racismo e segregação:
- Verde: a terra fértil, a natureza e a esperança
- Amarelo: as riquezas minerais e o ouro africano
- Vermelho: o sangue derramado na luta contra a colonização
Quando os movimentos de independência ganharam força no século XX, vários países recém-libertos adotaram essa combinação como homenagem direta à Etiópia e ao simbolismo da resistência.
Entre os 54 países africanos, ao menos 13 países utilizam oficialmente essa paleta: Benin, Burkina Faso, Camarões, Congo, Etiópia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Mali, Mauritânia, São Tomé e Príncipe, Senegal e Togo.
Não se trata de coincidência estética, mas de identidade política e memória histórica entre países africanos
Quem carrega essa herança na Copa de 2026?
Entre os nove classificados africanos, dois representam de forma plena essa tradição:
- Gana
- Senegal
Ambos utilizam claramente o verde, amarelo e vermelho como expressão do ideal pan-africano inspirado pela Etiópia.
Uniforme ganês na Copa de 2022, com detalhes em verde, amarelo e vermelho
Quando entram em campo, carregam não apenas cores nacionais, mas um legado histórico que remonta ao século XIX.
Sadio Mané em partida do Senegal, usando uniforme verde, amarelo e vermelho
Cabo Verde: tradição, ruptura e debate
O caso de Cabo Verde, estreante em Copas, acrescenta nuance à discussão.
Após a independência, o país adotou uma bandeira verde, vermelha e amarela, alinhada ao simbolismo pan-africano e ao partido que liderou a luta de libertação.
Bandeira usada por Cabo Verde entre os anos de 1975 e 1992
Em 1991, no entanto, com a reforma constitucional, e o fim do regime de partido único, novos símbolos nacionais foram criados. A nova bandeira abandonou as cores tradicionais e adotou um design azul com estrelas.
Bandeira adotada por Cabo Verde desde 1992
A mudança gerou críticas. Parte da população argumentou que o novo modelo enfraquecia a identidade africana e representava um afastamento das cores históricas do continente, de forma que surgiram até mesmo acusações de “antiafricanismo” por parte dos cabo-verdianos.
O episódio mostrou o peso simbólico que essas cores têm no imaginário africano.
África do Sul e Costa do Marfim: conexões parciais
África do Sul e Costa do Marfim são duas das seleções que representarão o continente africano na Copa de 2026 não utilizam as três cores supracitadas, mas se conectam parcialmente aos ideais do pan-africanismo a partir de seus símbolos identitários.
A África do Sul apresenta uma bandeira única, adotada em 1994, após o fim do apartheid. O desenho em forma de “Y” simboliza a convergência de povos e reúne seis cores, incluindo verde, amarelo e vermelho.
Não é uma bandeira pan-africana clássica, mas dialoga com a tradição ao incorporar parte dessas cores.
Já a Costa do Marfim utiliza o verde em sua bandeira, também em valorização às riquezas naturais do país, ainda que sem ligação direta ligada ao simbolismo etíope, aludido anteriormente.
Uniforme de Costa do Marfim tem detalhes em verde, em alusão à riqueza vegetal do país
África Setentrional: outra matriz histórica
Outros quatro dos africanos classificados vêm da chamada “África do Norte” ou Setentrional:
- Marrocos
- Tunísia
- Egito
- Argélia
Esses países possuem forte identidade árabe e islâmica, com diferenças acentuadas em relação às nações da África Ocidental.
Nestes casos, as bandeiras seguem outra tradição histórica, ligada ao pan-arabismo, e não à inspiração etíope, haja vista que o continente africano não é homogêneo e reúne matrizes culturais distintas, refletidas inclusive nas bandeiras.
Representatividade para além do campo
Quando Gana e Senegal entrarem em campo em 2026, as cores verde, amarela e vermelha estarão presentes não apenas como elementos visuais, mas como símbolos de resistência histórica.
A Etiópia, ao derrotar uma potência europeia em 1896, tornou-se referência para gerações futuras.
Hoje, nas arquibancadas da Copa do Mundo, as três cores seguem representando mais que seleções de futebol, mas capítulos diferentes de uma mesma história de luta e afirmação africana, a partir de bandeiras “iguais” com enorme simbolismo histórico.