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Astro da Costa do Marfim escreve emocionante carta à irmã falecida e faz promessa

Jogador de 19 anos foi o destaque da vitória por 1 a 0 contra o Equador, na 1ª rodada da Copa do Mundo

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Yan Diomandé, principal jogador da Costa do Marfim • Divulgação/ Federação Costa do Marfim

Principal esperança da Costa do Marfim, Yan Diomandé ecreveu uma emocionante carta à irmã, Roxane Diomandé, falecida aos 15 anos em 2025. O texto, que é uma mensagem nostálgica, impactante e com promessas á memória da pessoa que dividiu com o jogador os sonhos, foi publicada pela The Players Tribune nesta quarta-feira (17). A matéira é entitulada "Querida Roxane".

Hoje, aos 19 anos, ele veste a camisa do RB Leipizig, e disputa da Bundesliga, uma das principais ligas do mundo. Contudo, teve que sair de uma vida de escassez do país africano e ascender por meio do futebol. Em seu texto, Diomandé destaca que só conseguiu fazer isso graças ao incentivo e apoio de Roxane.

A carta tem um forte teor emocional, de quem ainda lida com o luto da perda de uma pessoa especial.

Isso foi na época em que eu ainda tinha emoções. Agora, não sinto nada. É como se eu nem fosse humano. Desde que você morreu, estou completamente vazio.

Yan Diomandé para a irmã Roxane

No texto, Diomandé se lembra de todo o caminho antes de se tornar um jogador profissional. Nesse percusso dividiu os medos, aspirações, decepções e glórias com a irmã, três anos mais nova.

Além da nostalgia e do luto, a carta também conta com momentos de irrverência, como quando Diomandé se irritou ao ser comparado com Roberto Carlos.

Lembra quando os adultos me viram jogando futebol na terra e me apelidaram de "Roberto Carlos" por causa da força dos meus chutes? E lembra como eu ficava secretamente bravo com isso, porque o CR7 era meu ídolo?

Yan Diomandé para a irmã Roxane
Yan Diomandé, foi o melhor em campo na vitória da Costa do Marfim por 1 a 0 sobre o Equador • Divulgação/ Federação Costa do Marfim
Yan Diomandé, foi o melhor em campo na vitória da Costa do Marfim por 1 a 0 sobre o Equador • Divulgação/ Federação Costa do Marfim

Veja a carta completa de Yan Diomandé a Roxane

Cara Roxane,

Lembra quando alguém me comprou uma camisa falsificada do United e eu escrevi "Ronaldo 7" nas costas com caneta preta?

Não sabíamos o que era rico ou pobre. Só sabíamos o que era felicidade.

Lembra de quando 25 pessoas dormiam numa casa em Abidjan? Minha mãe queria assistir às novelas dela. Todo mundo queria ver filmes. Lembra de como eu sempre fingia que estava dormindo e depois ia para a sala de TV depois da meia-noite? Eu ligava a TV bem baixinho. Tipo, só duas barrinhas de volume. Eu assistia futebol no escuro e sonhava.

Lembra quando os adultos me viram jogando futebol na terra e me apelidaram de "Roberto Carlos" por causa da força dos meus chutes? E lembra como eu ficava secretamente bravo com isso, porque o CR7 era meu ídolo?

Lembra quando fui jogar futebol tão longe de casa? Eu tinha 9 anos. Era no Inter Foot Sud Comoé, bem perto da fronteira com Gana. Só um garotinho sozinho. Não sei se já te contei essa história, mas eu e as outras crianças íamos até a vila roubar batatas porque estávamos morrendo de fome. Fizemos um "assalto a banco". Duas crianças distraíram o dono da loja e outras 18 saíram correndo com duas batatas. Elas nem eram boas. Mas o sabor era incrível . Hahaha. Ainda é a minha comida favorita. Batatas cozidas com um pouco de azeite. Me traz boas lembranças.

Lembra quando ganhei minhas primeiras chuteiras de verdade e dormia com elas? Quando criança, eu sempre jogava com aquelas sandálias de plástico brancas. Mesmo quando volto para casa, ainda jogo com elas. É a nossa tradição.

Lembra quando eu voltava para casa e você dizia para os meus amigos da vizinhança: “Por que você parou de treinar? O Yan não vai te comprar carros. Você tem que continuar trabalhando.”

Você tinha 10 anos e já era meu agente.

Lembra de quando a gente ficava sentado sonhando em se mudar para a França? De como a gente ia fazer compras, alugar nosso próprio apartamento, e eu ia ser um jogador de futebol rico, com carros e uma casa enorme, e você não ia ter que se preocupar com nada . Você era quem sempre acreditava que eu podia ser o próximo Cristiano, enquanto todo mundo ria.

Lembra quando me mudei para os Estados Unidos para o ensino médio, aos 15 anos, e sentia tanta saudade de casa? Fiquei meses sem entender nada do que as pessoas diziam. Me colocaram ao lado de um garoto francês, e ele tentava traduzir tudo o que a professora falava. Lembra quando te liguei e disse: "Você não vai acreditar, os alunos daqui discutem com os professores"?

Lá em casa, você sabe que nem ousaríamos piscar para os nossos mais velhos.

Lembra quando eu não conseguia acreditar que as crianças estavam fumando depois da escola?

Você costumava dizer que parecia que eu estava em um programa de TV americano.

Lembra quando me levaram para um teste no Bournemouth? No Chelsea, Rangers, Olympiacos, Crystal Palace? Eze e Olise até vieram falar comigo depois de um treino e disseram: "Ei, garoto, você é muito bom."

Mas mesmo assim eles não me contrataram.

Nem mesmo os times B da MLS me queriam. Eu nem sabia por quê. Nunca me deram uma razão. Os adultos cuidavam de tudo. Eles simplesmente continuavam me levando para viajar pela Europa, e todos continuavam dizendo não .

Meu visto expirou. Meu sonho acabou. Eles me mandaram de volta para a África, e nós choramos juntos.

Você foi quem nunca deixou de acreditar. Algumas semanas depois, assinei com o Leganés e choramos lágrimas diferentes.

Isso foi na época em que eu ainda tinha emoções. Agora, não sinto nada. É como se eu nem fosse humano. Desde que você morreu, estou completamente vazio.

Acho que nem derramei uma lágrima no dia em que me disseram que você tinha partido. Eu estava em choque.

Foi algumas semanas depois da minha estreia pelo Leganés. Quem estreia aos 18 anos contra o Real Madrid? Foi surreal. Um sonho.

E então foi um pesadelo. Alguém não parava de me ligar de casa. Eu estava irritado. Não entendia por que continuavam me ligando.

Eu peguei a encomenda e eles nem sequer a amoleceram. Você sabe como é lá em casa. Sem emoção nenhuma. Só...

“Sua irmã se foi.”

"O que?"

“Ela morreu.”

"O que você está falando?"

“Alguém colocou alguma coisa na bebida dela em uma festa, e ela nunca mais acordou. Ela se foi.”

Você tinha 15 anos.

15.

Nunca obtive nenhuma resposta. Não sei se quero saber porquê. Talvez tenha sido ciúme. Talvez seja apenas algo que acontece no nosso país. Talvez eu pudesse ter te protegido. Não sei.

Eu tento confiar no plano de Deus. É tudo o que posso fazer. Não tento esquecer, porque sei que não vou esquecer. Tudo o que posso fazer é usar a dor para trabalhar mais e realizar tudo o que sonhamos.

Escrevi isto porque não consigo falar sobre isso. Escrevi isto porque quero que você saiba que vou garantir que você continue vivendo. Vou garantir que todos saibam o seu nome. O mundo inteiro.

Tudo o que eu faço em um campo de futebol, é por vocês.

Tanta coisa aconteceu desde a última vez que nos vimos... Você nem acreditaria. Nem eu sei se consigo acreditar.

Sabe o que é louco? Depois da minha estreia contra o Real Madrid, eu troquei de camisa com o Mbappé. Lembra quando a gente assistia ele na TV e dizia: “Mbappé? É, ele é bom. Mas meu irmão é melhor.”

Eu estava errado em uma coisa. Eu não quero ser rico. Vejo o que isso faz com as pessoas, até mesmo com a família. Quando eu estava no Leganés, tudo o que eu ganhava, eu mandava para casa. Chegou a um ponto em que eu nem queria mais dinheiro. Era só um fardo. Eles nunca paravam de pedir. Acho que pensavam que eu já era milionário. Eu nem tinha apartamento. Morava no centro de treinamento, num quarto sem TV. Só futebol e dormir, futebol e dormir.

Eu não queria uma casa grande. Eu não queria carros. Eu só queria me dedicar totalmente ao futebol. Tudo para mostrar ao mundo que minha irmã estava certa…

Ah ... você vai achar isso engraçado.

Quando me transferi para o RB Leipzig, eu estava sempre atrasado. Bem, não exatamente atrasado. Mas eu estava sempre na hora, o que na Alemanha significa estar muito atrasado.

Então você já sabe o que eu fiz em seguida. Comecei a chegar 90 minutos antes de tudo. Eu chegava tão cedo o tempo todo que os caras começaram a me chamar de "O Alemão".

Eu sempre tenho que exagerar em tudo. Não tenho a menor paciência. Você sempre dizia isso.

O campo é o único lugar onde ainda me sinto em casa. É o lugar onde me sinto calmo e posso falar com você. Eu só queria que você ainda estivesse aqui para que eu pudesse te dizer... Nós conseguimos.

Tudo o que você disse se tornou realidade.

Amanhã vamos para a Copa do Mundo. É sério. Seu irmão vai jogar pela Costa do Marfim, como o Drogba, o Yaya e o Gervinho.

Eu nem encaro isso como um jogo. Encaro como um palco. Esta é a minha chance de mostrar ao mundo inteiro o que você viu em mim. Cada vez que eu marcar um gol, vou garantir que todos saibam o seu nome. Vou garantir que não se esqueçam de você.

Você sempre disse que eu podia ser melhor que o Cristiano. Se eu o vir lá, mando um abraço para ele por você.

Vou fazer exatamente o que você previu, eu juro. Antes mesmo de eu ter chuteiras de verdade, você já dizia para todo mundo: "Meu irmão vai ser o melhor do mundo."

Vou provar que você estava certo, ou morrerei tentando.

Seu irmão,

Yan

 

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Igor Varejano é jornalista formado pela UFOP. Tem experiência em esportes e cidades no rádio e em portais. Colaborou com Agência Primaz, Jornal Geraes e Rádio Real. Atualmente é repórter do Itatiaia Esporte.

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