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Proximidade da morte levou Rita Lee a escrever uma nova autobiografia 

Livro está previsto para ser lançado no próximo dia 22 de maio, em que se comemora Santa Rita de Cássia, inspiração da cantora

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Rita Lee durante o lançamento de sua primeira autobiografia, na cidade de São Paulo, em 2016
Rita Lee durante o lançamento de sua primeira autobiografia, na cidade de São Paulo, em 2016 • Globo Livros/Divulgação

“Pra que sofrer com despedida?/ Se quem parte não leva/ Nem o sol, nem as trevas/ E quem fica não se esquece/ Tudo o que sonhou, eu sei…”. Os versos integram “Cartão Postal”, blues de Rita Lee e Paulo Coelho, lançado pela cantora em 1975, no disco que abriu alas para sua carreira-solo recheada de sucessos.

Ao lado de faixas como “Ovelha Negra”, “Agora Só Falta Você”, “Luz Del Fuego”, “Fruto Proibido”, “Esse Tal de Roque Enrow”, e outros potenciais hits, a canção passou em brancas nuvens. Até que foi redescoberta por Cazuza em 1989, na iminência da morte, gravada no álbum “Burguesia”. Gal Costa também voltou a ela, já em 2017, com o espetáculo “Estratosférica”. 


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As reflexões existenciais de Rita misturam misticismo e desapego, com uma dose equilibrada de humor, ainda que sutilmente. “Tudo é tão simples que cabe num cartão postal/ E se a história de amor não acaba tão mal/ O adeus traz a esperança escondida/ Pra quê sofrer com despedida?/ Se só vai quem chegou/ E quem foi vai partir/ Você chora, se lamenta, depois vai dormir”.

Quando lançou essa música, Rita vivia o auge de seus 27 anos e, portanto, tinha poucos motivos concretos para pensar na morte, embora a idade tenha vitimado uma trinca de seus ídolos, formada por Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix, e se tornado uma sombra folclórica. 

Já quando anunciou a publicação de sua segunda autobiografia, batizada matreiramente de “Rita Lee: Outra Autobiografia” (a primeira se chamou “Uma Autobiografia”), o cenário era diferente. Anunciada para o próximo dia 22 de maio, data em que se celebra Santa Rita de Cássia (pseudo-homenageada na música “Santa Rita de Sampa”, lançada pela ruiva em 1997), a biografia aborda os últimos três anos da vida de Rita: do isolamento imposto pela pandemia de Covid-19 ao diagnóstico de câncer de pulmão que terminou por encerrar sua trajetória no planeta Terra neste ainda tão presente e próximo 9 de maio de 2023. 


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Na foto da capa, clicada por Guilherme Samora, Rita não deixou de praticar sua arte. Ela pintava e bordava com a realidade brasileira, colorindo-a com tonalidades mais expressivas e fortes, e foi exatamente o que realizou na imagem que ilustra sua derradeira obra.

Ali, ela surge num cachecol, enrolada em uma manta, com uma espécie de turbante sobre a cabeça que não exibia mais os afamados cabelos ruivos, em razão do tratamento de quimioterapia a que o câncer a submeteu.

A primeira impressão é de uma senhora frágil, à beira da morte, mas ela rapidamente se desfaz quando encaramos seus olhos vívidos como os de uma gata pronta para o bote, num verde irreal e fantástico. “Alguém quando parte é porque outro alguém vai chegar/ Num raio de lua, na esquina, no vento ou no mar/ Pra quê querer ensinar a vida? Pra quê sofrer?”, cantava Rita Lee há quase meio século. E ainda canta.