Primeiro Oscar da história teve ingressos a 5 dólares e 15 minutos de duração
No dia 16 de maio de 1929, cerimônia concedeu troféu honorário a Charlie Chaplin pelo filme 'O Circo' e consagrou o mudo 'Asas'

O coração da bela Sylvia está em disputa. Dois pilotos voam pelos ares enquanto pretendem conquistá-la. Com ingressos a 5 dólares (hoje equivalente a US$ 68,91) e 15 minutos de duração (inimaginável para a geração TikTok), o primeiro Oscar da história premiou “Asas”, o único filme mudo a faturar a mais cobiçada categoria da premiação, até a consagração de “O Artista”, em 2012. Não foi exatamente por um motivo nobre que o Oscar nasceu, em 1929, alçando à glória produções dos dois anos anteriores, previamente anunciadas três meses antes.
Criador da epopeia, o folclórico produtor Louis B. Mayer, fundador da MGM em sua versão primária, declarou, sem meias-palavras: “Descobri que a melhor maneira de lidar com cineastas era entregando medalhas para todos eles. Se eu lhes desse taças e prêmios, eles se matariam para produzir o que eu queria. Então, eu criei o Oscar”.
Além do elogio à vaidade, e do caráter um tanto frívolo dos cineastas, fica claro que, desde os primórdios, habitualmente cercado de misticismo e muito distante da simplicidade de uma manjedoura, o Oscar era, acima de tudo, uma estratégia comercial, alicerçada no berço do capitalismo.
Apesar das mudanças, principalmente temporais e de preço, o glamour da ocasião nunca deixou a cena. É próprio da engrenagem capitalista acelerar o tempo e reciclar os produtos. Se o que rende hoje ainda vale amanhã, o consumo estanca.
Charlie Chaplin, acusado de comunista por J. Edgar Hoover, agente do FBI que protagonizou uma cruzada contra os artistas em solo norte-americano, levou, em 1929, um Oscar honorário por seu notável filme “O Circo”, inicialmente indicado a melhor roteiro e melhor ator, mas, na sequência, relegado a essa categoria de consolação.
Exilado de seu país desde 1952 por iniciativa do mesmo Hoover, que caçou o seu passaporte quando ele viajou para divulgar “Luzes da Ribalta” no Reino Unido, Chaplin só voltou aos Estados Unidos uma única vez, justamente para ser agraciado com seu segundo Oscar honorário, em 1972, quando foi alvo da maior ovação da história da premiação, colocando a turba de pé por mais tempo do que toda a cerimônia de 1929.
As limusines que conduziram as estrelas ao tapete vermelho do Hollywood Roosevelt Hotel naquela empertigada noite nova-iorquina do fim da década de 1920 desapareceram, junto com os fãs que acenavam com lenços e se debatiam entre tapas e lágrimas para tocar nos astros. Também não há registros, com exceção de raríssimas fotos, desse primeiro Oscar, o único sem transmissão por rádio ou televisão. Mas os filmes de Chaplin, perenes como uma lembrança que supera a lógica do calendário, mantêm o seu rastilho aceso com um brilho intenso e raro.
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