Marco Nanini se pronuncia após ser vaiado durante peça de teatro no RS
Caso envolve uma intérprete de Libras durante uma apresentação da peça Fim de Partida, no Theatro Simões Lopes, em Porto Alegre

O ator Marco Nanini, de 78 anos, se pronunciou na tarde desta quarta-feira (21) sobre uma situação envolvendo uma intérprete de Libras durante uma apresentação da peça Fim de Partida, no Theatro Simões Lopes, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no último domingo (18). O artista foi vaiado após, segundo espectadores, pedir que a profissional fosse retirada do palco.
De acordo com relatos publicados nas redes sociais, a apresentação foi interrompida após Nanini alegar que a iluminação sobre a intérprete estaria atrapalhando sua atuação e pedir à produção que ela fosse retirada. O espetáculo foi retomado sem o recurso de acessibilidade para pessoas surdas, o que provocou protestos de parte da plateia.
Em nota, o ator reforçou que houve um problema técnico. “Sobre a sessão de Fim de Partida do último domingo, em Porto Alegre: a produção do espetáculo e a Fundação Theatro São Pedro já reconheceram a falha técnica que comprometeu a continuidade da apresentação com o recurso de acessibilidade anunciado. Neste momento, venho fazer o mesmo”, iniciou.
“Em todas as temporadas de Fim de Partida, sempre tivemos o cuidado de posicionar os intérpretes de Libras de forma a garantir visibilidade plena, preservando a integridade da obra”, destacou. “Fim de Partida é um espetáculo muito delicado tecnicamente. A peça acontece dentro de uma pequena caixa cênica, com uma iluminação extremamente minuciosa, feita de um jogo permanente de luz e sombra. Cada detalhe importa para o que acontece em cena”, explicou.
O texto afirmou que a posição da intérprete começou a projetar sombras no cenário. “Isso interferiu na iluminação e na minha visão em cena. Chegou um momento em que eu realmente não conseguia continuar. Por isso, a cena precisou ser interrompida”, acrescentou.
Nanini afirmou que, após o ocorrido, a produção sugeriu que a intérprete ficasse em outro local do palco, mas não houve acordo e, por isso, ela foi retirada. O ator pediu desculpas ao público surdo e aos demais espectadores.
“Essa situação acabou passando a impressão de que nós estávamos excluindo a intérprete e o público surdo. Quero deixar muito claro que essa nunca foi nossa intenção. Reconheço que, naquele momento, a situação poderia ter sido conduzida de forma mais sensível e empática, e peço desculpas ao público surdo e a todos os presentes”, acrescentou.
“Acessibilidade não é detalhe de produção, é parte do espetáculo. A Pequena Central se compromete a empregar mais rigor em seus ensaios técnicos prévios, com nossa equipe e a equipe de Libras, em toda sessão acessível, e assumo o compromisso de levar essa pauta à classe teatral, para que o erro desta produção se converta em acerto de muitas outras”, concluiu.
Marco Nanini foi vaiado
Vídeos que repercutiram nas redes sociais mostram algumas pessoas deixando a sala após o ocorrido, enquanto outras proferem xingamentos como “horroroso” e “desgraçado”. Após a retirada da intérprete, a peça continuou e, ao final, Nanini agradeceu a presença do público. “Pisar nesse palco é um momento muito especial”, disse o ator.
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Produtora se manifesta
A Pequena Central de Produções Artísticas, responsável pela montagem, se pronunciou nesta segunda-feira (19). A empresa explicou que houve um problema de compatibilidade entre a posição da intérprete e a iluminação do espetáculo. Por isso, a sessão foi interrompida para que a equipe tentasse encontrar uma solução.
“Não foi possível resolver o problema naquele momento, e a apresentação foi retomada sem interpretação em Libras, comprometendo o acesso do público surdo ao espetáculo. Reconhecemos que a produção falhou ao não verificar e garantir previamente as condições técnicas necessárias à realização da sessão com interpretação em Libras neste teatro. Assumimos inteira responsabilidade por essa falha e por suas consequências”, destacou.
A produtora também pediu desculpas ao público, especialmente às pessoas prejudicadas pela falta de acessibilidade.
“Pedimos sinceras desculpas, especialmente ao público surdo prejudicado, às intérpretes e às demais pessoas envolvidas. A acessibilidade integra nosso compromisso com o público e precisa ser assegurada também no planejamento e na execução de cada apresentação”, afirmou.
Fundação se pronuncia
A Fundação Theatro São Pedro, responsável pelo espaço cultural, também lamentou o ocorrido. Em nota, a instituição informou que sua equipe atuou na mediação entre os envolvidos e buscou alternativas técnicas para permitir a continuidade do espetáculo com as condições adequadas de acessibilidade.
“A equipe da Fundação atuou diretamente na mediação entre os envolvidos, buscando alternativas técnicas que permitissem a continuidade do espetáculo e a manutenção das condições adequadas de acessibilidade. Apesar das possibilidades avaliadas e dos esforços empreendidos, não foi possível encontrar uma solução que contemplasse todas as necessidades envolvidas naquele momento, e a peça voltou a ser apresentada sem a interpretação de Libras”, informou.
A fundação também reforçou seu compromisso com a acessibilidade e lamentou os prejuízos causados às pessoas surdas que estavam na plateia.
"A Fundação lamenta muito o ocorrido, especialmente os prejuízos causados à comunidade surda presente. O compromisso com acessibilidade é um dos pilares da instituição, que entende que cultura se faz com o acesso e o respeito a todos os públicos”, concluiu.
Fim de Partida é um clássico do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, com direção de Rodrigo Portella. Além de Marco Nanini, o elenco conta com Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França.
A apresentação de domingo foi a segunda do grupo na capital gaúcha. A primeira ocorreu no último sábado (17), sem intercorrências.
André Viana é jornalista, formado pela PUC-MG. Já trabalhou como redator e revisor de textos, produtor de pautas e conteúdos para rádio e TV, social media, além de uma temporada no marketing.



