Livros: 'Lia', de Caetano Galindo, conta história em fragmentos como um álbum de retratos
Tradutor lança romance que reflete sobre a passagem do tempo a partir do encontro com outras pessoas

Dos fios soltos molda-se uma história. Aos poucos, conhecemos o desenho como em um álbum de retratos. E quem surge é Lia, protagonista do primeiro romance de Caetano Galindo.
O premiado tradutor de James Joyce, David Foster Wallace e Ian McEwan lança nesta semana “Lia” (Companhia das Letras, 230 páginas, R$ 69,90), romance divido em quase cem capítulos breves que podem ser lidos em qualquer ordem.
Os capítulos são quase contos que evocam detalhes da vida de Lia entre a infância e a vida adulta. Ficamos sabendo de sua vida por momentos que os outros viram: colegas de escola, o porteiro da casa do amante. Lia precisa estar calma para fazer o bebê parar de chorar, se encanta com a cortina do banheiro, acolhe um pássaro morto, apaga o quadro a giz, prende a respiração na piscina, precisa arrumar os dentes, lidar com doenças e perdas, se encanta com um poema.
Em entrevista à Itatiaia, Caetano Galindo explica que o romance tomou dois anos de escrita ao ritmo de um capítulo por semana. “Surgiu com esse projeto de ser um aglomerado de capítulos não-relacionados sobre uma mesma pessoa”, define. A ideia, no entanto, o acompanha há muito tempo. “Ela se chamava Lia. Anos antes de começar a escrever, essa ideia rondava minha cabeça, e isso seria feito a partir desses instantâneos isolados”, aponta.
Galindo se propõe a mostrar como, em cada fase da vida, a passagem do tempo é relativa: “a velocidade, agora, começa a chamar mais atenção que o caminho”, surpreende-se o narrador a certa altura.
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Quem é Caetano Galindo
O escritor Caetano Galindo nasceu em Curitiba (PR) em 1973. É professor e tradutor de obras premiadas e de rara complexidade como “Ulisses”, de James Joyce, e “Graça Infinita”, de David Foster Wallace. Publicou o livro de contos “Sobre os canibais” (2019) e também “Latim em pó” (2023), uma elogiada história sobre o surgimento da língua portuguesa.
À Itatiaia, Galindo sublinha uma ideia essencial de “Latim em pó”: mais do que de regras, a língua é feita dos usos que o povo consagra.
“(As regras) tentam determinar como o idioma deve ser usado em circunstâncias formais e criam mecanismos de exclusão: quem conhece e quem não conhece. Mas quem determina o que vai acontecer com a língua é o uso criativo. Que vem dos lugares desfavorecidos da sociedade. Quem tem motivo para inovar não é quem está no domínio da situação, é quem quer reverter”, lembra. “Quem domina quer usar isso como marca de exclusão, quem está fora tem interesse de alterar a norma. É isso a dinâmica permanente de mudança”, define o escritor curitibano.
Lia
Caetano Galindo
Companhia das Letras
230 páginas
R$ 69,90 (site da editora)
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Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia desde 2022. Mestrando em Comunicação Social na UFMG, fez pós-graduação na Escola do Legislativo da ALMG e jornalismo na Fumec. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo



