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Flávia Coelho estreia a exposição 'Primavera' e reflete sobre a memória

Formada em Artes Plásticas pela Escola Guignard, ela apresenta pinturas, fotografias, desenhos e instalações a partir desta quinta

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Flávia Coelho estreia a sua primeira exposição com 'Primavera', que traz pinturas, fotografias, colagens e vídeos
Flávia Coelho estreia a sua primeira exposição com 'Primavera', que traz pinturas, fotografias, colagens e vídeos • Lucas Galeno/Divulgação

Uma sombra escura no sol de meio-dia, de repente, se expande. Num rasante, desce às funduras da terra e crava o bico numa carniça rodeada de moscas. Os urubus, cuja origem do nome em tupi-guarani significa “ave preta”, enfrentam um asco generalizado e costumam estar associados ao mau agouro. Não para Flávia Coelho, que reteve as imagens dessa ave sem canto em sua meninice.

“Veio de memórias de infância, de momentos em família, das viagens ao campo nas férias, onde eu observava avidamente esses pássaros voando”. Essa lembrança gerou a pintura “Voo de Urubu”, que integra a sua primeira exposição, com um nome que, à primeira vista, nos leva para a contramão: “Primavera”.

“O ‘Voo de Urubu’ fala exatamente do que está representado na tela. Torna evidente o que motivou a criação. Ele vem influenciado por esse movimento de retorno ao essencial que todos vivenciamos durante a pandemia, onde a introspecção nos levou a pensar sobre nossa vida, e sobre o que é importante”, reflete. 

Mas Flávia nem sempre opta pelo óbvio. Um exemplo é ‘Não Imagine O Que É’, outra tela de sua exposição, nascida de “uma tentativa de não condicionar o olhar”. “A interdição de nomear algo impõe que a busca de padrões na imagem seja interrompida. Eu queria que o observador não procurasse padrões, mas se concentrasse em outros elementos da imagem, como a textura ou a cor. A abstração se impõe sobre a figuração, e eu tentei reforçar isso com o título”, explica. 

Florescer. Formada em Artes Plásticas pela renomada Escola Guignard, Flávia participou de mostras coletivas e realizou performances nas “Quartas de Improviso”, dedicadas ao experimentalismo. A pandemia, que, como todo o mundo, obrigou-a a modificar seus hábitos, inseriu uma nova perspectiva e remodelou o fluxo de sua vida. 

“Foi um momento de resguardo e recolhimento que não foi exatamente novo. Eu já tinha passado por um isolamento pessoal por razões de saúde. A pandemia me impactou no sentido de que eu não queria mais me isolar, principalmente dos amigos, mas foi uma imposição externa que impossibilitou o encontro com as pessoas. Eu tinha uma vida social muito ativa e foi difícil o isolamento”, admite. 

No entanto, apesar das mudanças, o momento não se configurou limitante, pelo contrário. Flávia se valeu da experiência para abrir as asas, como os urubus que ela admirava na infância. “Aproveitei o período da pandemia para produzir. Durante o isolamento, me apoiei na arte para superar essa falta que o convívio social trouxe. Houve um rompimento com um mundo e a solução foi uma imersão na arte, e, agora, venho florir novamente para o mundo com esta exposição, marcando esse reencontro”. 

Tempo. Flávia acredita que os últimos dois anos “deixam claro que novas escolhas precisavam ser feitas, e isso foi, em grande parte, provocado pela introspecção trazida pela Covid”, reflete. Na opinião da artista, “a memória desempenha um papel essencial nesse contexto, mostrando como as formas de viver nos trouxeram aonde estamos”. 

Em comunicado divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) nesta quarta (17), a entidade afirmou que o aquecimento global deve atingir níveis recordes nos próximos cinco anos, provocando desastres climáticos, uma potencial extinção de espécies e dificultando inexoravelmente a vida humana no planeta Terra. Catástrofes recentes devem servir de alerta. 

Estudos científicos apontam que a ganância de multinacionais está no cerne da destruição do planeta, por meio de crimes ambientais como o desmatamento e a mineração. “A memória é crucial nesse processo de autoconhecimento e aprendizado. Minha arte é o meu olhar, uma junção entre arte e vida”, sublinha.

Transformações no mundo específico da arte, cotidianamente submetida aos critérios do mercado, também estão na ordem do dia. “Vivemos em um mundo do audiovisual há mais de um século, e, nos últimos anos, esse processo de valorização das mídias se acentuou. Seria utópico imaginar que o artista possa se eximir de participar desse movimento de aceleração, porém o que ele traz é um olhar crítico. Dessa forma, o artista contribui com a fabricação de imagens de uma forma um pouco diferente”, sustenta. 

Liberta. Flávia resume seu olhar com uma defesa da liberdade e da diversidade, em contraponto ao primado da uniformidade sugerido pelo mercantilismo. “A produção do artista visa despertar no outro a consciência de que outras formas de enxergar são possíveis. Em consequência, o artista propõe maneiras alternativas de interpretação da realidade”, atesta. 

A corrida desenfreada por visualizações que entopem as plataformas digitais tampouco a seduz. A pretensa concretude numérica interessa menos à artista do que a ampla subjetividade de cores, texturas e formas. 

“Com relação a um número de visualizações que determinaria a importância de algo ou alguém nas redes sociais, essa é uma meia verdade. O número de visualizações nem sempre está relacionado com uma influência exercida sobre quem as vê”, finaliza, deixando uma nova impressão sobre o voo do urubu.

Serviço.

O quê. Exposição 'Primavera', de Flávia Coelho

Quando. Desta quinta (18) a 24 de junho, de segunda a sexta, das 10h às 18h; sábado das 10h às 14h

Onde. Galeria de Arte Manoel Macedo (rua Lima Duarte, 158, Carlos Prates)

Quanto. Gratuita