Erotomania borderline: entenda diagnóstico de Brigitte, personagem de Tatá Werneck
Personagem de Tatá Werneck em 'Quem Ama Cuida' descobrirá diagnóstico de transtorno nos próximos capítulos

Cenas de Brigitte, personagem de Tatá Werneck em "Quem Ama Cuida", têm viralizado nas redes sociais. Na trama, ela cria uma paixão obsessiva por seus parceiros, sendo capaz de cometer atos considerados criminosos. Apesar de Brigitte ainda não ter recebido o diagnóstico médico na novela, a atriz revelou em comentários que ela possui erotomania borderline.
Juliana Pereira, psicóloga especializada em psicologia clínica e dependência emocional, explica sobre o transtorno: "Antes de tudo, é importante esclarecer que 'erotomania borderline' não é um diagnóstico formal reconhecido pelos principais manuais diagnósticos, como o DSM-5 ou a CID. O que geralmente acontece é a associação entre a erotomania, um transtorno delirante em que a pessoa acredita, sem evidências concretas, que alguém está apaixonado por ela, e características presentes no Transtorno de Personalidade Borderline."
"Pessoas com traços borderline costumam apresentar grande sensibilidade ao abandonamento, instabilidade emocional e dificuldades nos relacionamentos afetivos. Em alguns casos, podem desenvolver interpretações distorcidas sobre a intensidade ou reciprocidade de um vínculo. Os sinais de alerta incluem uma convicção persistente de que existe um relacionamento amoroso ou interesse romântico por parte de outra pessoa, mesmo diante de negativas claras ou da ausência de contato significativo. Também podem ocorrer comportamentos de busca constante por contato, idealização intensa e dificuldade em aceitar a realidade da relação", pontua a psicóloga.
Tratamento
Conforme Juliana Pereira, o tratamento para pessoas diagnosticadas com erotomania borderline depende da origem e das características do quadro. "Quando existem crenças delirantes estruturadas, a avaliação psiquiátrica é fundamental e pode haver indicação de medicamentos específicos", diz.
"Já do ponto de vista psicológico, a psicoterapia tem um papel muito importante no desenvolvimento do autoconhecimento, na regulação emocional, no fortalecimento da autoestima e na construção de relações mais saudáveis. Nos casos em que há características associadas ao Transtorno de Personalidade Borderline, abordagens baseadas em evidências, como a Terapia Comportamental Dialética (DBT), costumam apresentar bons resultados. O tratamento também ajuda a pessoa a diferenciar percepções, expectativas e fantasias daquilo que efetivamente acontece nas relações", destaca.
Sem acompanhamento adequado, o quadro do paciente pode se agravar. "Quando existem características borderline associadas, a ausência de tratamento pode contribuir para um aumento do sofrimento emocional, da impulsividade, da instabilidade nos relacionamentos e dos sentimentos de rejeição e abandono. Com o passar do tempo, as dificuldades afetivas e interpessoais podem se intensificar, gerando conflitos frequentes e afastamento de amigos, familiares e parceiros. Não é raro que essas pessoas passem a ser vistas como 'difíceis de conviver', o que favorece o isolamento social e reforça ainda mais a sensação de solidão e incompreensão."
"Em situações mais graves, o sofrimento emocional pode atingir níveis muito elevados. Sentimentos intensos de abandono, rejeição, desesperança e desregulação emocional podem aumentar o risco de comportamentos autodestrutivos e de crises emocionais importantes. Por isso, a identificação precoce e o tratamento adequado são fundamentais. O objetivo não é apenas reduzir sintomas, mas oferecer recursos para que a pessoa desenvolva formas mais saudáveis de lidar com suas emoções, seus relacionamentos e sua própria autoestima", completa.
Pacientes podem enfrentar dificuldades em criar vínculos
A especialista ressalta, ainda, que um paciente que não recebe o tratamento adequado pode enfrentar sofrimento mental constante. "Quando uma pessoa apresenta crenças distorcidas sobre um relacionamento ou uma dificuldade importante em lidar com rejeição e abandono, os vínculos tendem a ficar bastante desgastados. Muitas vezes, ela interpreta sinais de forma equivocada, insiste em contatos que não são correspondidos e encontra dificuldade para aceitar limites e negativas. Um dos aspectos que mais prejudicam os relacionamentos é justamente a baixa tolerância à frustração. Ouvir um 'não', perceber que o sentimento não é recíproco ou enfrentar um afastamento pode desencadear sofrimento intenso."
"Em alguns casos, especialmente quando há impulsividade associada, podem surgir reações desproporcionais, como crises de raiva, comportamentos controladores, perseguição, ameaças ou atitudes agressivas. Em situações mais graves, pode haver inclusive episódios de violência física. É importante destacar que isso não acontece com todos os pacientes, mas o risco existe quando o sofrimento emocional é intenso e não há tratamento adequado", afirma.
"Para familiares, amigos e parceiros, a convivência pode ser bastante desafiadora. Muitas pessoas relatam sentir-se pressionadas, culpadas ou responsáveis pelo bem-estar emocional do paciente. Com o tempo, isso pode gerar desgaste, afastamento e ruptura de vínculos. Por isso, o acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico é fundamental não apenas para reduzir sintomas, mas também para ajudar a pessoa a construir relações mais saudáveis, respeitando os limites e a autonomia dos outros", acrescenta.
Representação na TV
Erotomania borderline é o mesmo diagnóstico recebido por Martha em Bebê Rena, produção baseada em fatos reais disponível na Netflix. Para a especialista, as representações na televisão e no streaming possuem "um papel muito importante na conscientização sobre saúde mental, desde que sejam construídas com responsabilidade".
"Produções como 'Bebê Rena' despertaram discussões relevantes sobre obsessão, limites relacionais e sofrimento psíquico. O risco surge quando personagens são retratados apenas como caricaturas ou quando comportamentos complexos são reduzidos a estereótipos que reforçam preconceitos. Quando a narrativa mostra a condição de forma humanizada, contextualizando o sofrimento e a necessidade de tratamento, ela pode contribuir para que mais pessoas reconheçam sinais de alerta e busquem ajuda. O desafio é equilibrar o interesse dramático da história com informações que não reforcem estigmas sobre transtornos mentais", destaca.
Por fim, a psicóloga recomenda: "É importante evitar diagnósticos precipitados baseados apenas em comportamentos observados em redes sociais, séries ou reportagens. Muitas vezes, atitudes como insistência afetiva, dificuldade em aceitar o fim de um relacionamento ou idealização amorosa podem ter origens muito diferentes e não significam necessariamente a presença de um transtorno mental. O diagnóstico exige avaliação cuidadosa, feita por profissionais qualificados."
"Além disso, é fundamental lembrar que por trás de qualquer transtorno existe uma pessoa que está sofrendo. É importante destacar a necessidade de um diagnóstico realizado de forma séria, criteriosa e profissional. Muitas vezes, familiares e pessoas próximas interpretam determinados comportamentos como birra, teimosia, manipulação ou falta de vontade de mudar. Quando existe uma avaliação adequada, fica mais fácil compreender que estamos falando de um quadro de adoecimento psíquico que necessita de acolhimento, acompanhamento e tratamento especializado. Esse entendimento costuma reduzir julgamentos e ajudar a família a se tornar uma aliada importante no processo terapêutico", segue.
"Mas talvez a mensagem mais importante seja esta: o diagnóstico não define a vida de ninguém. Ele não determina quem a pessoa é, nem limita seu futuro. O diagnóstico é apenas uma ferramenta que ajuda a compreender o sofrimento, orientar o tratamento adequado e abrir caminhos para uma vida com mais qualidade, autonomia e bem-estar. Quanto mais falarmos sobre saúde mental com responsabilidade e sem estigmas, maiores serão as chances de promover cuidado, inclusão e recuperação", conclui.
Patrícia Marques é jornalista e especialista em publicidade e marketing. Já atuou com cobertura de reality shows no ‶NaTelinha” e na agência de notícias da Associação Mineira de Rádio e Televisão (Amirt). Atualmente, cobre a editoria de entretenimento na Itatiaia.



