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Erika Ribeiro se apresenta no Clube de Jazz com música russa e Hermeto 

Pianista é uma das mais premiadas da nova geração e procura dar uma interpretação 'exótica' para peças já consagradas 

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Erika Ribeiro interpreta o repertório de Ígor Stravinski, Sofia Gubaidulina e Hermeto Pascoal no show que leva ao palco do Clube de Jazz
Erika Ribeiro interpreta o repertório de Ígor Stravinski, Sofia Gubaidulina e Hermeto Pascoal no show que leva ao palco do Clube de Jazz • João Atala/Divulgação

O som pode ser uma abstração como uma imagem que, neste caso, nos traz ao dourado-e-azul. Na extinta União Soviética, sua música foi chamada de “irresponsável”, até que um professor a encorajou a seguir no “caminho errado”. Estamos falando de três mulheres distintas, que se encontram no álbum que Erika Ribeiro, aquela que está mais próxima de nós, apresenta nesta quinta (18), em Belo Horizonte, no charmoso Clube de Jazz, dentro do projeto “Noites Rocinante”. 

A imagem que ilustra o álbum é da artista plástica japonesa Tomie Ohtake (1913-2015), que fez a vida em São Paulo. Já a “irresponsável” compositora russa Sofia Gubaidulina, atualmente com 91 anos, divide o repertório de 23 faixas com o compatriota Ígor Stravinsky e o brasileiríssimo Hermeto Pascoal, conhecido pela inquietude e criatividade, habituée em tirar som dos mais inusitados instrumentos, como, por exemplo, um cofrinho em formato de porco. 

Erika está em casa. Ela própria gosta de se referir à sua maneira de interpretação como “exótica”. “Acho que, quando menciono a palavra ‘exótica’, no fundo estou querendo afirmar minha identidade. Em muitos momentos, não me sinto inserida como uma típica pianista clássica, e isso vem ficando mais forte com o tempo. Apesar de minha formação, me sinto meio estrangeira, especialmente por me interessar por repertórios menos contemplados, como o da música brasileira instrumental, por exemplo, que mexe muito comigo, e traz um sentido maior à música que busco fazer”. 

Estilo. Ao contrário do que Gubaidulina teve que enfrentar em determinado momento da carreira, num cenário em que o machismo vigorava com um orgulho indisfarçável,  a ousadia de Erika tem sido premiada. Vencedora do III Concurso Nelson Freire, que leva o nome do consagrado pianista mineiro, falecido em 2021, ela agrega ao currículo uma indicação ao Grammy Latino na categoria “melhor álbum de música clássica”. 

“Neste disco, embora eu já tivesse uma conexão profunda com a música de Stravinsky, o primordial foram processos que eu queria investigar ao piano. Eu tinha essa vontade de fazer transcrições autorais, e aí fui trocando essas figurinhas com o Sylvio Fraga e o Bernardo Ramos, produtores do disco. Fomos pesquisando juntos, e chegamos a esse repertório de canções do Stravinsky”, conta. 


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Aliado ao desejo de mergulhar na obra do vanguardista compositor de “A Sagração da Primavera”, balé recebido com vaias em sua primeira apresentação pública, estava a vontade de trazer à tona a iconoclastia do alagoano Hermeto, “que representaria um olhar da música brasileira à Rússia, além de uma sonoridade que muito me instiga e interessa”. Da compositora russa que enveredou por uma afinação alternativa em pleno regime soviético, ela elogia “um humor e uma leveza essenciais ao álbum”. 

Memória. Doutora em Música pela UNIRIO, Erika foi introduzida ao piano pela mãe. As horas se estendiam como um gato que acaba de acordar ou uma madame deitada numa espreguiçadeira. O tempo assumia a perspectiva do cineasta russo Andrei Tarkovsky: expandido, interminável. Aos seis anos de idade, Erika permanecia durante horas tentando tocar o primeiro movimento da famosa sonata conhecida popularmente como “Ao Luar”, de Beethoven. 

Suas mãos de criança, ainda muito pequenas, eram incapazes de alcançar os intervalos das teclas. Mas, ali, ela já driblava a realidade através da arte. “Colocava um pedal a mais para segurar uma ou outra nota, usava a outra mão, etc.”, enumera, como se a experiência da descoberta coubesse em números. “O som, e, especialmente a expressão, já estavam em minha imaginação, e eu dava o meu jeito”, confessa, levando-nos ao azul-dourado de uma música ilimitada. 

Serviço 

O quê. “Noites Rocinante”, com a pianista Érika Ribeiro 

Quando. Nesta quinta (18), às 20h (abertura da casa às 19h) 

Onde. Clube de Jazz (rua Antônio de Albuquerque, 47, Funcionários) 

Quanto. De R$20 a R$40 pelo site www.clubedejazzdocafe.com