Itatiaia

10 anos sem Waldir Silva: mestre do choro mineiro compôs com Zé Ramalho

Conhecido como 'Rei do Cavaquinho', ele ganhou um tributo com Acir Antão, Giselle Couto, Pereira da Viola, Carla Villa, entre outros

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Waldir Silva conheceu o sucesso ao ter choro elogiado pelo então Presidente Juscelino Kubitschek
Waldir Silva conheceu o sucesso ao ter choro elogiado pelo então Presidente Juscelino Kubitschek • Arquivo pessoal/Divulgação

Waldir Silva nasceu em Bom Despacho, no dia 28 de maio de 1931, e morreu no dia 1º de setembro de 2013, aos 82 anos. Compositor e mestre do cavaquinho, ele conheceu o primeiro sucesso na década de 1950, quando o então Presidente da República Juscelino Kubitschek elogiou publicamente o choro “Telegrama Musical”, escrito em forma de código Morse, o que o levou a compor a trilha da primeira versão da novela “Pecado Capital”, da Rede Globo.

Waldir até chegou a ensaiar uma carreira no Rio de Janeiro, onde conheceu e se tornou parceiro de Zé Ramalho, mas optou por se fixar em Belo Horizonte. Waldir Silva também ficou conhecido por participar e compor a música-tema do projeto “Minas ao Luar”, que percorria as cidades do interior com um repertório de choro e seresta.

Depois de gravar discos instrumentais de choro e bolero, Waldir Silva foi homenageado em 2016, com o disco “Waldir Silva em Letra & Música”, quando suas melodias ganharam letra. “Uma Saudade: Ao Meu Xará” é uma homenagem de Waldir Silva a Waldir Azevedo, outro craque do cavaquinho, que ganhou a interpretação da cantora Natália Sandim. Já Acir Antão deu voz a “Quatro Cordas Que Choram”, com a cantora Lucinha Bosco. 

 “Minas ao Luar” (choro-valsa, 2012) – Waldir Silva, Raphael Vidigal e André Figueiredo

Choro lento, ao ritmo de uma valsa, “Minas ao Luar” foi composta pelo cavaquinhista mineiro Waldir Silva na década de 1970 para servir de prefixo musical ao evento que levava apresentações pelo interior de Minas.

Waldir não só participou da primeira edição do projeto de serenatas como dividiu o palco com ninguém menos do que Juscelino Kubistchek, figura ilustre da política brasileira, que ocupou o cargo de presidente do país.

Muitos anos depois, o instrumentista apresentou suas composições autorais para que o jornalista Raphael Vidigal colocasse letras, fato que aconteceu em 2012. Um ano depois, o músico faleceria, mas a iniciativa que começou ali culminaria com o lançamento do disco “Waldir Silva em Letra & Música”, em 2016. Na canção, composta com André Figueiredo, cidades mineiras são citadas nominalmente.

“Paraibeiro” (choro-baião, 2016) – Zé Ramalho, Waldir Silva e Raphael Vidigal

Mineiro de Bom Despacho, o cavaquinhista Waldir Silva gravou, em 1981, o disco “Cavaquinho Camarada Nº 3”, que trouxe uma participação mais do que especial. Além de interpretar “Pelo Vinho e Pelo Pão”, Waldir registrou uma versão para “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil, declamada por Zé Ramalho. Os dois se conheceram nos estúdios da CBS, no Rio, onde ambos eram contratados.

A amizade resultou em “Paraibeiro”, parceria instrumental cujo título brincava com o fato de um ser paraibano e o outro mineiro. Com letra de Raphael Vidigal, a música foi gravada no disco “Waldir Silva em Letra & Música”, de 2016, pela cantora mineira Luana Aires, com o acompanhamento da banda Toca de Tatu, arranjos de Lucas Telles e a direção musical de Geraldo Vianna. 

Lembranças

Conheci Waldir Silva no programa “A Hora do Coroa”, transmitido aos domingos de manhã na rádio Itatiaia, sob o comando de Acir Antão. Estava in loco no estúdio, e o admirei pessoalmente. Como de costume carregava ao colo o inseparável cavaquinho. Poucos segundos de atenção foram suficientes para perceber o laço de afeto e necessidade a unir o homem ao instrumento.

Mal me dei conta que sempre o ouvia no momento exato do sol de quase meio-dia obrigar o relógio a marcar as onze badaladas e “Zíngara”, uma canção-rumba de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano lançada por Gastão Formenti, aparecer deslumbrante na execução do mestre. Não a toa serve de prefixo musical do atrativo há mais de quatro décadas.

O nosso próximo encontro seria ainda mais decisivo na relação a se estabelecer dali por diante. Ouvindo no rádio o mesmo programa no qual o acompanhei de perto não consegui negligenciar a história sobre uma melodia carente de letra após a morte do jornalista incumbido de tal tarefa. O locutor, ainda por cima, convocava os aspirantes ao gesto. Ao que me candidatei.

Então a tarefa árdua tornou-se gratificante ao tomar corpo na voz de Lígia Jacques, a cantar os versos propostos por mim para o chorinho “Duas Lágrimas”, em espetáculo no Conservatório da Universidade Federal de Minas Gerais, através do projeto “Pizindin – Choro no Palco”, com a produção de Lilian Macedo e o acompanhamento de diversos compadres.

Encontros

Não muito depois, em outro show no mesmo local, Waldir me encomendou a feitura de mais duas letras, para as melodias de “Veludo”, dedicada ao amigo acordeonista, e outra em louvor ao ídolo Waldir Azevedo, intitulada espertamente por ele de “Uma Saudade (Ao Meu Xará)”.

Ao contrário da outra letra, estas exigiram um tempo maior para o nascimento, e chamei para participar comigo do processo o meu chapa André Figueiredo, cuja contribuição injetou musicalidade e precisão aos temas. Então embalamos e passamos nós a requisitar melodias ao mestre. Ao final de seis meses tínhamos prontas quinze letras colocadas sobre chorinhos, valsas, mambos, samba, baião e um dobrado de Waldir Silva.

O projeto cresceu e requisitou a presença de músicos talentosos e aclamados no cenário brasileiro, sem nunca receber uma negativa, pelo contrário. Lucas Telles prontificou-se a conceber os arranjos e tocar com a tua banda, “Toca de Tatu”, formada ainda por Luísa Mitre, Lucas Ladeia e Abel Borges.

Os cantores Mauro Zockratto, Lígia Jacques, Carla Villar, Giselle Couto, Pereira da Viola, Ladston Nascimento, Natália Sandim, Violeta Lara, Luana Aires, Lucinha Bosco, Ana Cristina e Acir Antão, além do produtor musical Geraldo Vianna e de Ricardo Cheib, engenheiro de som do estúdio Bemol, compraram de imediato a idéia de dar a luz ao ambicioso e sentimental “Waldir Silva em Música & Letra”. A notícia foi levada ao mestre que, com o hábito dos gênios da raça, sentiu-se humilde e lisonjeado.

Homenagem

Nada além do mínimo para quem tanto deu à música de Bom Despacho, Pitangui, Belo Horizonte e todo o mundo onde ressoou tua obra de qualidade técnica e sentimento raro. Numa das idas à tua casa, quando a intimidade já nos permitia tais contatos, mostrei-lhe uma a uma as letras, ao que se emocionou e apontou melhoras a serem postas em prática, como a diminuição do andamento para o “choro cantado”.

De outra, estava empenhado em gravar as marchinhas para um trabalho a ser lançado na internet, e me mostrou ao cavaquinho, em uma sessão particular e especial, algumas delas. Evidentemente não pude disfarçar a alegria do privilégio, e o cumprimentei seguidas vezes como um ousado tiete.

Da última vez que nos falamos, pelo telefone, era para estender o convite, feito por Lucas Telles, para cantar uma música do projeto à sua escolha. Waldir rejeitou, disse que preferia ficar “apenas admirando os cantores de verdade”, e tocando com muito agrado o amado cavaco.

Ainda deu tempo de Waldir ouvir a execução da música “Veludo”, com letra, cantada por Mauro Zockratto e o acompanhamento dos violões de Lucas Telles, registrada no estúdio Bemol, numa homenagem prestada na data de seu último aniversário, justamente onde o conheci, no programa “A Hora do Coroa”.

Ele se emocionou e agradeceu. No dia seguinte, me ligou para agradecer de novo. Infelizmente não pôde ver a conclusão do trabalho. Mas há de ver ainda. Lá de cima, a bordo de seu cavaquinho. Quem agradece sou eu. Obrigado, Waldir Silva!

Ouça a playlist completa: