Devagar, devagarinho, Martinho da Vila chega aos 85 anos cheio de samba
Cantor e compositor carioca criou estilo único, influenciado pelo partido-alto, e eternizou hits como 'Casa de Bamba' e 'Disritmia'

Devagar, devagarinho, Martinho da Vila chegou aos 85 anos, com músicas que misturam malícia, dor-de-cotovelo, crítica social e muito ritmo. Aliás, não é nenhum exagero dizer que o ritmo é a principal característica da música de Martinho da Vila.
Com um andamento muito particular, ele criou um estilo fortemente influenciado pelo partido-alto, mas que em sua maneira mansa de cantar e interpretar ganhou uma forma nova, que as pessoas logo identificam como sendo de Martinho da Vila.
Nascido no pequeno município de Duas Barras, no interior do Estado do Rio, ele mudou-se para a capital com apenas quatro anos de idade. Foi no bairro de Vila Isabel que Martinho recebeu o apelido pelo qual ficaria conhecido durante toda a vida, aliado à paixão pela escola de samba e pelo legado de Noel Rosa, outro morador célebre da Vila cantada em verso e prosa na música brasileira.
Em 1967, Martinho da Vila participou do 3º Festival Internacional da Canção, com “Menina Moça”. A música já apresentava a facilidade de Martinho em abordar temas batidos com uma simplicidade de impressionar, e que escondia uma grande sofisticação, na mesma linhagem de Dorival Caymmi.
Um ano depois, Martinho voltou ao festival e, dessa vez, arrebatou o público com a música “Casa de Bamba”. Se a canção fez sucesso no palco, o mesmo não se pode dizer da casa de Martinho, que confessou, aos risos, que sua mãe não gostou dos versos que diziam que na sua família todos bebiam.
Na esteira do sucesso de “Casa de Bamba”, Martinho da Vila lançou o primeiro disco, em 1969, e aproveitou para dar baixa nos serviços de escrevente e contador, dedicando-se exclusivamente à música. Seu olhar social aguçado apareceu em “O Pequeno Burguês”, crítica de costumes que não perdoava nossa histórica desigualdade, sem perder de vista o bom-humor.
Também tocaram sem parar nas rádios a irresistível “Quem É do Mar Não Enjoa”, que se valia de ditados populares, e a filosófica “Pra Quê Dinheiro”, que questionava o apego da humanidade aos bens-materiais, ao mesmo tempo em que narrava uma paquera com o acento suburbano típico de Martinho da Vila.
Daí pra frente, Martinho se tornou um dos mais expressivos sambistas da música brasileira, praticamente um emblema da cultura nacional, colecionado sucessos do porte de “Canta, Canta, Minha Gente”, “Disritmia”, “Madalena do Jucu”, “Ex-Amor”, e muitas outras, dando interpretação definitiva para “Mulheres”, de Toninho Geraes, e cantando com desenvoltura assuntos e situações que, para muitos compositores, seriam complexos demais.
É com simplicidade e no ritmo devagar de seu passo cheio de samba que Martinho da Vila chega aos 85 anos ecoando música. A sua simples fala e o seu sorriso já são a expressão mais verdadeira de um Brasil profundo.
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