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Cazuza nasceu há 65 anos e provocou o Brasil com canto exagerado e crítico 

Letrista afiado, o músico morreu em 1990, aos 32 anos, e foi o primeiro artista brasileira a se declarar soropositivo à imprensa 

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Rebelde, irreverente, debochado e imprevisível, Cazuza começou a carreira em 1982, ao ser apresentado pelo cantor Leo Jaime ao grupo Barão Vermelho
Rebelde, irreverente, debochado e imprevisível, Cazuza começou a carreira em 1982, ao ser apresentado pelo cantor Leo Jaime ao grupo Barão Vermelho • Sociedade Viva Cazuza/Divulgação

No dicionário, o nome se refere a uma vespa solitária de ferroada dolorosa. Já no Nordeste significa moleque. Cazuza ganhou o apelido de seus pais ainda antes de nascer, quando estava na barriga de sua mãe, Lucinha. O pai, o produtor musical João Araújo, filho de nordestinos, tratou de anunciar ao mundo que ele teria um Cazuza logo que sua esposa engravidou.

Nascido há 65 anos, Cazuza foi batizado Agenor de Miranda Araújo Neto, homenagem ao avô, e só aceitou o nome pomposo ao descobrir que era o mesmo de Cartola, um de seus ídolos na música, e de quem regravou “O Mundo É Um Moinho”.

Rebelde, irreverente, debochado e imprevisível, Cazuza começou a carreira em 1982, ao ser apresentado pelo cantor Leo Jaime ao grupo Barão Vermelho, que procurava um vocalista. Letrista afiado, Cazuza rapidamente caiu no gosto dos futuros companheiros de banda, auxiliado por sua voz rascante e pelo estilo de interpretar que provocava reações em cima do palco.

Logo no primeiro álbum, eles chamaram a atenção de Caetano Veloso com a música “Todo Amor Que Houver Nessa Vida”, que daria início à frutífera parceria entre Cazuza e Roberto Frejat. Juntos, eles escreveriam clássicos do rock brasileiro, como “Pro Dia Nascer Feliz”, “Beth Balanço”, “Maior Abandonado”, “Por Que a Gente É Assim?”, e tantos outros.

Em 1985, após uma saída ruidosa, Cazuza partiu em carreira-solo. O disco de estreia revelou um dos grandes hits do cantor, e que serviu como epíteto ao longo da carreira. “Exagerado”, parceria com Leoni e Ezequiel Neves, subiu ao topo das paradas de rádio com o relato de um romance que não tinha limites.

No mesmo álbum, Cazuza deu vazão a seu lado mais doce, ainda na seara do romantismo, com a balada “Codinome Beija-Flor”, que novamente trazia a assinatura do guru e amigo Ezequiel Neves e de Reinaldo Arias. A canção aproximava Cazuza da MPB, seu berço original, trazendo à tona as influências de Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues e Nora Ney, ícones da dor de cotovelo.

Diagnosticado com AIDS, Cazuza mudou a rota de suas composições, passando a falar mais sobre o Brasil e refletindo as crises de seu tempo. O ápice desse posicionamento aconteceu com o LP “Ideologia”, lançado em 1988, e que, além da faixa-título, apresentava ao país músicas da potência de “Brasil” e “Blues da Piedade”.

O repertório rendeu o show “O Tempo Não Para”, transformado em CD ao vivo. A canção que batiza o trabalho é uma parceria com Arnaldo Brandão, que sintetiza as angústias sociais e existenciais de Cazuza, em versos que se colaram ao imaginário popular, como “a tua piscina está cheia de ratos/suas ideias não correspondem aos fatos”. Em 1989, Cazuza se tornou o primeiro artista brasileiro a declarar-se soropositivo publicamente.

Com um legado de coragem e de belas canções, o poeta exagerado do rock brasileiro morreu em 1990, aos 32 anos, depois de enfrentar com altivez a batalha pela vida. Sua mãe, Lucinha Araújo, fundou a Sociedade Viva Cazuza para tratar de crianças com AIDS. A música de Cazuza segue revelando as dores e os amores de um país conturbado. Afinal, o tempo não para.


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