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Cantora quase deu à luz no palco em evento para promover maternidade  

Lana Bittencourt, que morreu nesta segunda (28), aos 91 anos, se apresentou com ambulância no programa de Flávio Cavalcanti 

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Lana Bittencourt, que morreu nesta segunda (28), aos 91 anos, lançou sucessos cantando em diversas línguas na música brasileira
Lana Bittencourt, que morreu nesta segunda  • Museu da Imagem e do Som/Divulgação

Lana Bittencourt, que morreu nesta segunda (28), aos 91 anos, sabia que estava prestes a parir sua primeira filha quando se apresentou no programa de Flávio Cavalcanti, na TV Tupi, entoando “Ave Maria”, e foi justamente por isso que ela encarou o auditório. A seu lado, estava posicionada uma ambulância, no palco, pronta para levá-la ao hospital à primeira contração. 

Tudo era parte de uma ação publicitária para promover a maternidade Pro Matre, e, naquela ocasião, a sua voz era mero detalhe. O interesse da plateia era presenciar o drama. Angela Ro Ro conta que acontecia algo semelhante em suas apresentações na década de 1990, quando ela lutava contra o alcoolismo: as pessoas iam aos shows para conferir se ela morreria, ali, na hora, diante de seus olhos. 

O episódio é ilustrativo do tipo de programação de massa que a televisão brasileira se acostumou a veicular. Lana tinha tendência para a dramatização, na linhagem da música popular brasileira que encontra suas origens no samba-canção e no bolero importado do México na década de 1950, quando a cantora nascida em São Paulo com o nome de Irlan Figueiredo Passos começou a cantar. 

A opção pelo artístico Lana Bittencourt era justamente a busca por uma personagem. A mulher passional, dilacerada pelo amor que, na vida real, ela talvez nunca tenha sofrido com a intensidade teatral que carregava para o imaginário, com tintas avermelhadas. No palco,  Lana se transfigurava, amparada pela potência da voz, capaz de alcançar tons e atingir notas que deixavam o público boquiaberto. 

O excesso sempre foi a escola de Lana, que não pecava por comedimento. Embora militar, o pai era compositor e poeta nas horas vagas, o que destravou a entrada de Lana no mundo artístico, uma exceção naquele período, quando mulheres da música eram abertamente comparadas a cortesãs. 

Sua voz potente começou a ser ouvida em grande escala por meio de alto-falantes espalhados em cidades do interior do Nordeste, cantando um jingle composto pelo pai. Logo, foi convidada por rádios de Fortaleza e do Recife. No Rio de Janeiro, assumiu um posto de destaque na boate do Copacabana Palace, e viu as cortinas abrirem-se para sua ascensão triunfal. 

Conseguiu gravar o seu primeiro disco em 1954, e, na sequência, assinou um contrato com a Columbia, interessada em sua capacidade de interpretar diversos idiomas, herança de sua criação em uma família financeiramente abastada. O que rendeu a ela o epíteto “A Internacional”, conferido pelo radialista César de Alencar, versado em criar esse tipo de apelido para os astros que anunciava em sua programação radiofônica. 

Lana comprovou a polivalência cantando de mambos, salsas e rumbas cubanas a ágeis e leves rocks norte-americanos, com parada obrigatória no romantismo de Édith Piaf, de quem regravou a demolidora “Hino ao Amor”, no idioma original, em um francês digno duma parisiense de berço. 

Outro achado de sua trajetória foi o baião “Zezé”, de Humberto Teixeira (histórico parceiro de Luiz Gonzaga) e Caribé da Rocha, colocando à prova todo o seu conhecimento em línguas estrangeiras, que se sucediam na letra com graça infalível. “Little Darlin'” a alçou ao topo da indústria fonográfica, com suas 700 mil cópias vendidas, em 1957. 

Porém, à alta da maré, sobreveio a ressaca. Por mais que tenha aparecido em filmes de Mazzaropi, como “Chofer de Praça”, “Jeca Tatu” e “As Aventuras de Pedro Malasartes”, Lana acabou paulatinamente tendo seu espaço reduzido no show biz. 

Ainda assim, apresentou o programa de rádio “Audição de Lana”, dedicou álbum a Luiz Antonio e Tom Jobim, de quem eternizou uma versão para “Se Todos Fossem Iguais a Você”, parceria com Vinicius de Moraes e suprassumo do romantismo, fonte da qual a artista sempre bebeu e nunca se deu por saciada. 

Depois de um período longe dos holofotes para se dedicar à família, Lana retornou na década de 1970, lançou música de Angela Ro Ro e nunca pareceu ter se preocupado demasiadamente com o sucesso. Para ela, bastavam os aplausos acalorados do séquito de adoradores que a acompanhavam em pequenos shows, gritando a cada agudo da cantora das paixões ardorosas.