Biblioteca Pública leva leitura às comunidades e encontra raridade de Drummond
Vespasiano, Sabará e o bairro Jardim Vitória, em BH, serão contempladas com ônibus da biblioteca móvel a partir de julho

A caixa fechada foi recebida com ansiedade. Guardava uma relíquia improvável. O garrancho tinha valor histórico. Logo nas primeiras páginas, a singela dedicatória: “Ao caro Gastão Cruls, com um abraço de seu amigo e leitor”.
E, no parágrafo abaixo, a assinatura: Carlos Drummond. Com local e data: Rio de Janeiro, 1948. Gastão Cruls, vencedor do Prêmio Literário Luiza Cláudio de Souza, em 1956, autor de “A Amazônia Misteriosa” (1925), considerada sua obra-prima, morreu uma década mais tarde, aos 71 anos.
O livro que Drummond lhe entregou, intitulado “Poesia Até Agora”, e que acaba de ser redescoberto pela Biblioteca Pública de Minas Gerais, continha as seis primeiras publicações do itabirano, pela ordem: “Alguma Poesia” (1930), “Brejo das Almas” (1934), “Sentimento do Mundo” (1940), “José” (1942), “A Rosa do Povo” (1945) e “Novos Poemas” (1948). A capa é assinada pelo artista plástico Santa Rosa, um dos mais prodigiosos no ofício.
“É uma obra rara, não há outro exemplar com essa dedicatória do Drummond, e é a primeira edição. O livro está no original, precisa passar por um processo de conservação, mas é o original”, reforça Meire Vieira, coordenadora das Coleções Especiais da Biblioteca Pública.
Biblioteca móvel
Não é a única novidade que o conjunto projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), localizado na Praça da Liberdade, tem a apresentar. Na frente do prédio, os escritores Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino estão imóveis, eternizados como estátuas. A intenção do Núcleo de Extensão e Ação Regionalizada, coordenado pela gerente Gildete Veloso, vai na direção contrária.
A biblioteca móvel, iniciativa que leva, literalmente - com o perdão do pleonasmo -, a literatura para regiões periféricas da cidade, contava apenas com um veículo de 1991. Agora, por meio de uma emenda parlamentar que proporcionou a captação do projeto, foi adquirido um ônibus que será adaptado para o princípio da instituição.
“Estamos com um novo veículo para atender comunidades vulneráveis, locais onde não existe nenhum equipamento cultural, biblioteca, nada”, afirma Gildete, feliz com a chance de transformar essa realidade.
Atualmente, cinco regiões são contempladas. A elas, serão acrescidas, pelo menos, outras três, em Vespasiano, Sabará, e no bairro Jardim Vitória, em Belo Horizonte. Há ainda a possibilidade de se alcançar as cidades de Brumadinho e Betim.
Leitura nas comunidades
“Esse serviço é uma extensão da Biblioteca Pública. A gente chega com o veículo ao local, apoiados por uma iniciativa da comunidade, como posto de saúde, igreja, escola. E, quinzenalmente, passamos para visitar o mesmo ponto de parada, fazendo a circulação do acervo de livros, um acervo totalmente renovado que o projeto também contemplou, e realizamos o desenvolvimento de atividades de leitura, fomentando a leitura literária”, expõe Gildete.
Outro ponto que vale ser destacado é a continuidade da missão. “Os leitores pegam os livros e os devolvem na próxima ida do veículo à comunidade, no período de 9h da manhã até 12h30. Não é um carro que apenas passa pela comunidade, ele retorna quinzenalmente e cria esse vínculo”, constata.
O ônibus recém adquirido está na fase de envelopamento para que ganhe as características de uma biblioteca móvel. A expectativa é que ele esteja circulando a partir de julho. A Biblioteca Pública alimenta o desejo de se abrir cada vez mais para o povo, sem distinção, ampliando o leque de diversidade e honrando seu nome.
Setor Braille
Nesse sentido, Gildete aponta o papel fundamental do setor Braille, que, segundo ela, sofreu uma queda expressiva de público após a pandemia de Covid-19. “Muitas pessoas com deficiência visual desconhecem que há um lugar com acervo todo em braille e audiolivros à disposição de todos”, informa.
Trabalhadores voluntários compostos de professores, advogados e juízes auxiliam estudantes com deficiência visual a se prepararem para concursos públicos com uma leitura em viva-voz no espaço, interferindo na inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. “É importante convocar as pessoas com deficiência visual a se apropriarem desse espaço”, conclui Gildete.
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