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Real 30 anos: a saga da moeda que acabou com inflação de 13.342.346.717.671% (13 trilhões) no Brasil

Moeda brasileira completa 30 anos nesta segunda-feira (1º) como marco da estabilização econômica

Por e 
Apenas no primeiro semestre daquele ano, a inflação totalizou 757%, média de 43% ao mês.
Real foi lançado em 1º de julho de 1994 e combateu a hiperinflação no Brasil • foto

Três carretas repletas de dinheiro chegam ao Centro de Belo Horizonte escoltadas por viaturas e helicópteros e estacionam perto da igreja São José, entre Tamoios e Tupis. O quarteirão, sempre tumultuado por carros, ônibus e pedestres, para por alguns minutos sob os olhares de expectativa. A agência do Banco do Brasil na rua Rio de Janeiro recebia o primeiro carregamento de real, a nova moeda que prometia vencer a hiperinflação - a taxa fechara o ano de 1993 em corrosivos 2.500%.

Há exatos 30 anos, em 1º de julho de 1994, nascia o Real, a moeda que enfim estabilizaria a economia brasileira após a herança da ditadura militar e de planos fracassados dos governos Sarney e Collor. Os brasileiros que trocariam cruzeiros por aqueles reais nunca mais veriam os preços subindo 80% em apenas um mês.

Assista aqui:

"O Centro de BH parou no dia que chegou a primeira remessa para atender o Banco do Brasil, que era um dos pontos de distribuição para as outras agências. Se fosse hoje em dia, um PIX resolveria parte do problema". A descrição é do bancário Antônio César Costa, de 66 anos. Funcionário do Banco Mercantil há mais de quatro décadas, Antônio recorda os olhares de desconfiança e ansiedade das pessoas prestes a receber a nova moeda.


homem de camisa verde em escritório com paredes azuis e brancas O confisco da poupança em 1990, decretado pelo governo de Fernando Collor de Mello, provocou a falência de milhares de famílias e destruiu suas diminutas economias. Os seguidos congelamentos de preços ajudaram a destruir o valor de cruzados, cruzados novos e cruzeiros - sim, o Brasil trocou de moeda três vezes entre 1986 e 1993.

Moedas do Brasil:

  • 1942 a 1967: Cruzeiro
  • 1967 a 1970: Cruzeiro Novo
  • 1970 a 1986: Cruzeiro
  • 1986 a 1989: Cruzado
  • 1989 a 1990: Cruzado Novo
  • 1990 a 1993: Cruzeiro
  • agosto de 1993 a junho de 1994: Cruzeiro Real
  • 1º de julho de 1994: Real

“Era um período que ninguém tinha noção de valor. Você saia de casa para comprar uma camisa, um sapato ou um mantimento e não tinha noção de quanto ia pagar e se estava caro ou barato. Os preços giravam muito rápido, era uma velocidade assustadora", recorda-se o bancário. "Hoje a gente tem uma taxa de juros de 10% ao ano, e naquela época vivia com taxa de 6.000%, 7000% ao ano”, compara.

Inflação acumulada

O efeito foi imediato: se em junho de 1994 a inflação foi de 47,73%, em julho, com o real, o índice desabou para 6,84%. Para se ter uma ideia, de dezembro de 1979 até o lançamento do Real, a inflação brasileira acumulada chegou a impressionantes 13 trilhões porcento (13.342.346.717.671,70%!), segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Como comparação, a inflação do ano de 2023 todo foi de 4,6%.

Remarcação de preços

Entre os anos 1980 e 90, ficaram famosas as maquininhas de remarcar preços nos supermercados. Funcionava assim: com a inflação fora de controle, um produto começava o dia custando determinada quantia. Na hora do almoço, quem comprasse já pagava um valor maior, e quem deixasse para o fim da tarde só levava o produto se gastasse mais ainda.

"Era terrível. Foi um período em que todos acumulavam produtos. Você recebia o salário, corria para o supermercado e comprava tudo para o mês, porque seu salário perdia valor", recorda.

"Era uma loucura trabalhar em banco. Toda vez que entrava um plano econômico era exaustivo, a gente ficava até tarde da noite. O Plano Real provocou uma mudança radical, foi a salvação do Brasil. Porque a inflação era galopante", afirma Odilon. Estocar produtos chegava a ser estratégia de investimento, já que nos dias seguintes era certo que o preço daquele item dispararia. Com isso, as prateleiras se esvaziavam rapidamente. "O lucro era certo. Muitas vezes era até difícil conseguir produtos, porque quem tinha dinheiro estocava (itens de consumo)".


O bancário Antônio César Costa lembra do fracasso dos planos Cruzado, Bresser e Verão, que congelaram preços e chegaram a funcionar nos primeiros dias. Semanas depois, no entanto, a falta de produtos e o descontrole das contas públicas levava novamente a inflação às alturas. Com o confisco da poupança no Plano Collor, a situação se agravou. No Plano Real, ele notou um otimismo generalizado. "A gente tinha uma esperança muito grande naquele governo e a estratégia de implementação do Plano Real não foi imposta, como o Plano Collor, que de um dia para o outro confiscou tudo. No Plano Real houve uma preparação da sociedade, foram explicando as medidas, a URV, até chegar à estabilidade esperada", conta.

Overnight

Outra forma de evitar a corrosão do dinheiro era o chamado overnight, operação financeira de curtíssimo prazo que se tornou símbolo dos tempos hiperinflacionários. Funcionava assim: o correntista precisava ir ao banco diariamente e comprar títulos públicos pelo prazo de uma noite. No dia seguinte, vendia o título para impedir que o dinheiro parado perdesse valor. Segundo o Banco Central, em 1990 pouco mais de 10% da população brasileira tinha conta bancária (16,7 milhões de correntistas em uma população de 146 milhões). Atualmente, 86% dos brasileiros acima de 15 anos possuem conta em banco.

Professor emérito da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, ex-reitor da Universidade e ex-ministro da Ciência e Tecnologia, o economista Clélio Campolina explica como os pobres eram mais impactados pela hiperinflação.

Isso aumentou muito a concentração de renda no Brasil, e até hoje o país tributa muito mal, porque tributa o consumo e não renda e patrimônio, como os países desenvolvidos

clélio campolina, ex-reitor da ufmg

Em 1º de julho de 1994, quando o Plano Real foi lançado:

  • O salário-mínimo era de R$ 70;
  • Com uma nota de R$ 1, que até já saiu de circulação, era possível comprar dez pãezinhos de sal;
  • O quilo do açúcar era vendido por R$ 0,68;
  • O quilo do arroz era encontrado por R$ 0,82;
  • O litro da gasolina custava R$ 0,55;
  • A garrafa de 600 ml cerveja saía por R$ 1,16
  • Um Big Mac com Coca-Cola no McDonald’s saía por R$ 3,22: eram R$ 2,42 do lanche e R$ 0,80 da bebida.
  • Com a paridade com a moeda americana, R$ 1 real valia U$ 1 dólar entre 1994 e 1998; em outubro de 94, a moeda americana chegou a custar R$ 0,82

O nascimento do Real

O Plano Real foi concebido por economistas da PUC Rio a partir de teorias econômicas desenvolvidas nos anos 1980. André Lara Resende, Persio Arida, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan, Francisco Lopes e Winston Fritsch são considerados os pais da moeda que estabilizou o Brasil. Convocados por Fernando Henrique Cardoso, quarto ministro da Fazenda do governo Itamar Franco (1992-94), desenvolveram um plano de estabilização da economia que tinha como âncora a previsibilidade e a transparência na comunicação com o público. Nada de congelamento de preços, confisco de preços ou outras medidas que provocassem dúvidas e solavancos.

O real foi desenvolvido em três fases:

  • A primeira, lançada em 1993, se chamava PAI, ou Plano de Ação Imediata, e funcionou como um ajuste fiscal para reorganizar as contas públicas. Previa corte de gastos, aumento de impostos, desvinculação de receitas e privatização de empresas públicas.
  • A segunda foi a adoção de uma moeda 'virtual', a URV (Unidade Real de Valor). A partir de março de 1994, o brasileiros conviveram com duas moedas para estabilizar a economia: na prática, a moeda era o cruzeiro real, ressuscitado no governo Collor cortando três zeros dos cruzeiros; URV era uma unidade de conversão. Como os preços expressos em URV mantinham um valor constante, isso permitiu o alinhamento de preços, a melhora das expectativas e o controle da inflação.
  • Enfim, em 1º de julho de 1994, a URV foi transformada em real. No primeiro dia, um real valia uma URV, ou CR$ 2.750. Também foi estabelecido um teto para a taxa de câmbio.

Fernando Henrique Cardoso, que já havia sido substituído no Ministério da Fazenda por Rubens Ricupero, se candidatou à Presidência pelo PSDB. Com a popularidade alavancada pelo real, FHC disputou com Lula (PT) e foi eleito presidente com 54% dos votos. A estabilidade monetária rendeu votos e garantiu o primeiro mandato ao tucano.

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Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia desde 2022. Mestrando em Comunicação Social na UFMG, fez pós-graduação na Escola do Legislativo da ALMG e jornalismo na Fumec. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo

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Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está na editoria de cidades.