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Infraestrutura de saneamento ainda é desafio no Brasil

Problema afeta desenvolvimento infantil, mercado imobiliário e planejamento urbano

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Saneamento básico
Infraestrutura precária de saneamento agrava impactos sociais, ambientais e econômicos nas cidades • Freepik

A falta de infraestrutura de saneamento básico impacta diversas áreas da vida, indo além da saúde. O problema também gera prejuízos econômicos, ao aumentar os custos do sistema público com o tratamento de doenças relacionadas, e provoca danos ambientais, como a contaminação de rios e o descarte irregular de resíduos. No setor imobiliário, contribui para a desvalorização de imóveis e pode encarecer novas construções.

Presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto destaca que a ausência de saneamento afeta diretamente a renda da população. Segundo ela, a diferença média de rendimento entre quem tem acesso aos serviços e quem não tem chega a cerca de mil reais. “Se pensarmos em um trabalhador informal, como uma diarista, caso fique doente, não poderá trabalhar. Como recebe por diária, deixa de ganhar”, explica.

Ela também ressalta os impactos ao longo da vida. Crianças com acesso à água tratada, coleta e tratamento de esgoto tendem a ter melhor desenvolvimento, desempenho escolar e, no futuro, maior renda. Um estudo da entidade aponta que, ao longo de 35 anos de vida profissional, pessoas com acesso pleno ao saneamento podem ganhar, em média, 46% a mais do que aquelas que não tiveram esse acesso.

Luana Pretto, presidente do Instituto Trata Brasil • Anderson Porto
Luana Pretto, presidente do Instituto Trata Brasil • Anderson Porto

Problemas imobiliários

Na Vila do Índio, em Belo Horizonte, um córrego tem provocado a remoção de dezenas de famílias devido a alagamentos em períodos de chuva. Os dejetos da região são despejados no local sem tratamento adequado, agravando a situação.

O pedreiro Geraldo Gonçalves, proprietário de um imóvel próximo ao esgoto, relata forte desvalorização. Ele tenta vender a casa há anos, mas não consegue obter o valor que considera justo. “O imóvel vale entre R$ 150 mil e R$ 200 mil, mas as ofertas ficam entre R$ 70 mil e R$ 80 mil”, afirma.

Vice-presidente da área de loteadoras da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato da Habitação de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), Adriano Manetta explica que o saneamento está diretamente ligado ao valor dos imóveis. “Uma casa com acesso à coleta de esgoto e água tratada certamente vale mais do que outra localizada em área sem esses serviços”, diz.

Adriano Manetta , vice-presidente da área de loteadoras da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato da Habitação de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG) • Tadeu Scafuto
Adriano Manetta , vice-presidente da área de loteadoras da Câmara do Mercado Imobiliário e Sindicato da Habitação de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG) • Tadeu Scafuto

A falta de infraestrutura também afeta o setor da construção civil. Pela legislação, novos empreendimentos habitacionais devem contar com saneamento básico. Quando isso não ocorre, cabe ao construtor investir em redes e estruturas, o que eleva o custo das obras e, consequentemente, dos imóveis. Diante disso, muitas empresas priorizam áreas já atendidas, o que pode agravar o déficit habitacional em regiões carentes.

Presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais, Raphael Lafetá afirma que a ausência de condições adequadas desestimula novos projetos. “Se não há um ambiente favorável, seja por falta de infraestrutura ou por entraves legais, o empreendedor não investe. Sem oferta de moradia formal, a população acaba ocupando áreas de forma desordenada, sem saneamento, e o problema se perpetua”, afirma.

Raphael Lafetá, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais • Tadeu Scafuto
Raphael Lafetá, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais • Tadeu Scafuto

Para Luana Pretto, é fundamental priorizar o saneamento básico como política pública estruturante. “Ao longo de muitos anos, esse tema não foi tratado como prioridade. Muitas vezes, gestores evitam investir por se tratar de obras que não são visíveis, mas que são essenciais”, conclui.

Confira a reportagem completa:

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Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.