Falta de patrocínio força cancelamento da 6ª Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte
Apesar de aprovado na Lei Rouanet e na lei municipal de incentivo, festival previsto para outubro não conseguiu captar recursos; decisão afeta também o laboratório audiovisual SemanaLab

A 6ª edição da Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte não será realizada em 2026. A organização anunciou o cancelamento do evento motivada pela falta de captação de patrocínio direto junto a empresas. Consolidado no calendário cultural da capital mineira e no circuito audiovisual afro-diaspórico, o festival estava previsto para ocorrer em outubro e contaria com a exibição de filmes nacionais e internacionais, além de cursos e oficinas.
Mesmo aprovado em mecanismos como a Lei Rouanet e a Lei Municipal de Incentivo à Cultura de BH, o projeto não obteve aporte financeiro do setor privado a tempo de viabilizar a estrutura do evento. Com o cancelamento, a mostra Cine Escrituras Pretas — que já havia recebido cerca de 300 inscrições de cineastas negros — e a 3ª edição do laboratório de formação SemanaLab foram suspensas.
A idealizadora do festival, Layla Braz, aponta entraves estruturais no modelo de incentivo fiscal, como a concentração de patrocínios em grandes eventos e o afunilamento de recursos fora do eixo Rio-São Paulo. Segundo a organizadora, festivais dedicados ao cinema negro enfrentam barreiras adicionais no diálogo com marcas corporativas.
"A gente vai atrás dos patrocinadores, mas eles só estão atrás de eventos de grande porte, que sabem que vão dar um retorno muito grande em publicidade. Pela pesquisa que fiz, não encontrei nenhum festival de cinema negro com o patrocínio de uma empresa de grande porte" afirma Layla Braz, idealizadora do evento.
A pesquisadora Tatiana Carvalho Costa, presidente da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), avalia que o adiamento reflete um cenário global de retração do investimento privado e institucional em pautas de diversidade e justiça racial no audiovisual.
Impacto cultural e econômico
Criada em 2021, a Semana de Cinema Negro exibiu quase 300 obras e atraiu mais de 30 mil pessoas em cinco edições gratuitas em espaços como o Cine Humberto Mauro e o Cine Santa Tereza. O evento já trouxe à capital nomes como o cineasta norte-americano Charles Burnett (vencedor do Oscar Honorário) e a arquivista francesa Annabelle Aventurin, além de mobilizar a cadeia econômica da cultura local.
O anúncio provocou forte reação na comunidade artística, com manifestações de apoio de realizadores como Gabriel Martins (Filmes de Plástico) e Vinícius Elizário. A organização do festival informou que pretende buscar novas alternativas de financiamento para retomar o projeto em 2027.
Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.



