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Redes Sociais: política não é moral!

Fala-se muito do lugar de fala, mas as Redes Sociais nos sequestraram o lugar de escuta

Por
Padre Samuel Fidelis
Padre Samuel Fidelis • Arquivo pessoal

A Redes Sociais, na busca pelo engajamento, produziram mudanças significativas na forma como nos relacionamos com o mundo. A amizade passou a se reduzir a contatos. A beleza foi substituído pela escracho. O direito a opinião virou salvo conduto para ofensa. No universo digital, confundimos views com atenção. Passamos a editar nossa própria existência em tempo real. E talvez o pior de tudo: a abertura ao contraditório passou a soar posicionamento. 

A máxima - mais ou menos apócrifo -, de Voltaire (ironicamente citado por um padre, "posso não concordar com nenhuma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-las" está desidratada. Fala-se muito do lugar de fala, mas as Redes Sociais nos sequestraram o lugar de escuta! No digital, quase ninguém quer saber da escuta, só reage e vocifera. Nas redes sociais falta espaço para contraponto. O que vale quase sempre é o que confirma e legitima as próprias visões de mundo. Antes que compreender se adjetiva! 

Observe como temos uma maneira de identifica as pessoas com as suas opiniões. Ou pior: como tendemos, hoje, a reduzir indivíduos às "percepções" sobre sua personalidade, seus equívocos, suas orientações... 

Hoje, criticando do padre ao jornalista, tem muita gente que identifica senso crítico com apenas aquilo que afaga o próprio ego. Na ilusão do monopólio das virtudes, muitos têm a profunda convicção de que não há possibilidade razoável de vida de percepção das coisa fora da própria bolha (seja ela religiosa, ideológica, política etc.). 

E isso faz muito mal! 

Faz mal, porque não há possibilidade de relacionamento sem que a gente se permita errar. Não é possível sustentar uma amizade ou casamento sem saber que: o outro tem direito a uma versão melhor de si mesmo, que ele não precisa ser refém daquilo que um dia disse, que o todo é maior do que a parte. 

Faz mal para a fé, na medida em que, quando se pressupõe que todas as pessoas são obrigadas a crer do mesmo modo, perverte-se o mais genuíno e sagrado dos princípios do agir humano: o livre-arbítrio. Se o próprio Deus - onipotente - deixa espaço para opção e para dúvida, como é possível que alguém ou alguma crença se julgue detentora dos juízos divinos? 

E na política? Ah, a política... Faz muito mal confundir espectro político com "moral". Não é que a política seja imoral! A questão é que nem a "esquerda" ou a "direita" são a correspondência exata do que significa o "bem". O Bem, não se identifica com o que se pretende totalizante ou Supremo. Não é o fato de uma pessoa defender boas ideias que faz dela alguém virtuoso ou santo. 

O campo da moral versa sobre valores que estabelecidos, princípios doutrinários e eternos ao absoluto. A política, em sentido diverso - sem prescindir da meta que é o Bem - , trata do incentivo ao consenso e da civilização do dissenso. A política, sem deixar de guiar-se pelo que é bom, belo e verdadeiro, versa sobre o instrumental, o útil, o estratégico. Ela está menos preocupada com o convencimento e o ideal e mais com o consenso mínimo sobre o que faz bem e o que garante o necessário para todos. 

Há de se demarcar bem essa diferença. É uma questão de saúde mental. Do contrário, casamentos acabam em nome de "razões" e de interesses particulares; a "crença" se torna uma justificativa para massacres e cruzadas; o espectro político assume o lugar de instrumento redentor dos males da humanidade... 

A história já mostra, que nada pode ser mais violento do que um cônjuge que sempre tem razão; nada é mais danoso do que confundir o estandarte da cruz com brasões de armas; e, agora já há exemplos claros do quão catastróficos pode ser os danos a um país de analfabetos funcionais no âmbito digital, os quais emitem opinião e juízos travestidos de autos de fé e processuais! 

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

Belo Horizonte