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Quem elege o Papa?

A tentação seria responder em duas vertentes: uma mais 'inocente', a outra mais 'cínica'

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Padre Samuel Fidelis • Arquivo Pessoal

Após a partida desse homem que marcou, sem dúvidas, o nosso tempo, nossa curiosidade passa a morar numa pergunta: quem elege o Papa? Bom, não é possível decifrar se essa dúvida é fruto de receios ou ansiedades. Por um lado, alguns temem que escolha seja um retrocesso. Isso fazendo de um ministério, cuja função profética é realizar, no amor concreto, aquilo que se crê pela fé, uma das outras mobílias do Vaticano, tal como o mármore frio de um escultor renascentista, ao qual sobra estética, mas falta alma. Por outro lado, há aqueles que entendem que, em tempos de incerteza como sãos os nossos, é preciso tomar cuidado com os "progressismos". Isso dado que o relativismo implode com muitas coisas ruins, mas também leva as boas, deixando a terra arrasada e sem nada. “A modernidade costuma apodrecer tudo o que toca” (Pondé).

Posto isto, está bem: mas e quem elege o papa? A tentação seria responder em duas vertentes: uma mais "inocente", a outra mais "cínica":

 A resposta mais "inocente" seria aquela própria de quem tem uma visão romântica do que é o papado. Não há dúvidas, para os católicos, que a missão do Papa é um encargo divino. Não se pode pensar a fé cristã sem um papa. Inclusive se a pessoa for protestante, dessas com a bíblias, com zíper e tudo, de baixo no braço. Isso porque as Escrituras não nasceram prontas. Foram os Concílios e os "papas" que discerniram e definiram quais livros da Bíblia foram ou não inspirados. 

É preciso atestar, com algo mais do que fé, ou seja, com razoabilidade e com bom-senso, que há entre os cardeais insignes exemplos de despojamento, de dedicação, de pobreza e de santidade de vida... É lúcido, nessa perspectiva, optar por uma terceira via, qual seja: sem saber exatamente  "quem e como se elege um papa", poder com os olhos abertos, para além do espetáculo e do fetiche de um Conclave, contemplar a grande beleza do que significa o ministério petrino para a vida do mundo.

Muitos sãos os títulos de um papa: Sumo Pontífice, Vigário de Cristo, Bispo de Roma, mas certamente, o que for o sucessor de Francisco, dada a sua herança e o seu legado, de presença esperada e necessária nestes tempos de crise, terá de se a ver com o mais singelo dos títulos papais: Servo dos Servos de Deus. 

Não, não é possível saber exatamente como se elege um papa. Mas é possível rezar muito para que ele seja um sinal da Verdade e do Amor de Deus entre nós. Que esse homem, em missão bela e tão ingrata, tome as sandálias do pescador. Seja dado, ao que virá em nome do Senhor, aquela lucidez que são Bernardo indica a seu amigo pontífice: lembrar-se que o papa não é sucessor de reis e de imperadores, mas de um pescador... 

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.