Postar ou Existir?
A vida virou feed. O feed é um museu dos melhores momentos que não vivemos, porque temos pressa em exibi-los. Estamos todos loucos

Passou janeiro, bem rapidinho. Esse mês é um ano inteiro. E como diz a canção, “em fevereiro, tem Carnaval!”. Mas já parou para pensar? A vida tem sido apenas uma sucessão de buscas por algo além. Um interminável ser para isso, para aquilo, para o outro, para o que vem depois…
Oscar Wilde tinha razão: "Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria de nós, apenas sobrevive." E, nessa "altura do ano" , vale a provocação: quem nos ensinou a sermos coadjuvantes no teatro da nossa própria vida?
Algo não vai bem na forma como nos percebemos. Parece que desaprendemos a estar. O tempo nos escapa pelas mãos, e tudo tem a ver com esse estilo de vida frenético. Nos Reels, só se presta atenção se houver gatilho. Nos vídeos, corta-se até o respiro. Nos stories, a melhor versão de nós mesmos dura 24 horas e some.
Não há tempo para viver. Pelo menos não com atenção, com ócio criativo, com inutilidade. Estamos dentro de um Big Brother, e não se trata do programa de audiência desidratada, nem do livro de Orwell. É a nossa vida que se tornou um reality show.
Estamos nos assistindo enquanto vivemos. O Instagram come primeiro. Inverte-se a premissa de Descartes: "É quando posto, que logo existo." A presença se perde no depois, na distração, no monitoramento. Se não foi postado, será que aconteceu? Como ser espontâneo quando parece que estamos sempre a um clique de virar reportagem?
Algo de errado não está certo. A vida virou feed. O feed é um museu dos melhores momentos que não vivemos, porque temos pressa em exibi-los. Estamos todos loucos.
Nos relacionamentos, já há exija compartilhamento de senhas e redes sociais, como se traição fosse coisa possível de impedir. Mas nossa maior infidelidade talvez seja com nós mesmos. Somos adúlteros do amor próprio, nossa atenção ao que mais importa, se tornou "promíscua"....
O abuso começa cedo. Trabalhe com alguém da geração Z e verá: para muitos "Enzo" e "Valentina", a linha entre percepção real e filtro se tornou indistinta. Sobra desconfiança excessiva e interpretações distorcidas — sim, exatamente a definição de paranoia.
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



