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Trans na comissão da mulher? 

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O mundo que conhecíamos virou do avesso. E isso não é coisa da internet! Ela é, aliás, um sintoma de um “mal” que não tem nome nem cura. Alguns chamam de modernidade; outros, pós-modernidade, modernidade líquida, mundo BANI... É certo que ninguém sabe. É certo, como lembrava o saudoso papa Francisco: mais do que numa época de mudanças, estamos numa mudança de época.

Dois episódios, nestes últimos dias, saltaram aos olhos: a questão envolvendo o apresentador Ratinho, em crítica à deputada Erika Hilton assumir a Comissão da Mulher; e a questão envolvendo a maquiagem na tribuna da deputada Fabiana Bolsonaro. Já podemos, a partir daqui, fazer um acordo: o objetivo desta coluna não é entrar em polêmica! Seria até pretensioso (ou perigoso!) tentar esgotar o tema. Nosso objetivo é provocar reflexão. Por isso, com menos emoção e mais razão, vamos lá!

O pano de fundo das duas situações é um debate sobre identidade, lugar de fala e contradições internas. As questões judiciais deixamos para as autoridades competentes. Tomemos, de cada lado, os protestos legítimos.

É certo que, em pleno século XXI, reduzir debates sobre minorias e pautas sociais legítimas à estridência e à ideologia é um grande erro! É óbvio que o tom de pele, a origem social e as questões de gênero influenciam - e muito - o modo de existência das pessoas. Que se queira ou não, há méritos em constatações históricas palpáveis: uma atenção especial a como mulheres, negros e pessoas em situação de vulnerabilidade sofrem apagamento e silenciamento. Ninguém em sã consciência pode duvidar de que leis, regras e estruturas, mesmo quando pretendem ser objetivas, vêm carregadas de enquadramentos sociais e psíquicos. Portanto, a representatividade é fundamental para garantir que a dignidade humana, em suas múltiplas expressões, seja resguardada.

Há algo de equivocado - é também óbvio - em argumentar que o lugar de fala é regra absoluta para a reflexão sobre realidades. Numa figura de linguagem cortante: não é preciso ser veterinário para entender de gado. Isso rompe com interpretações equivocadas tanto à esquerda quanto à direita.

Se observamos bem, uma das premissas científicas é a de que certo distanciamento subjetivo do objeto de estudo contribui - e muito - para a reflexão sobre ele. Isso não significa neutralidade absoluta (que, aliás, é sempre discutível), mas um esforço de objetivação: construção de métodos, critérios, linguagem comum e possibilidade de verificação. A ciência se faz, portanto, entre consensos e disputas, entre hipóteses e revisões. Ainda assim, é possível, sim, tecer observações razoáveis sem que, necessariamente, seja preciso ter uma vivência subjetiva direta daquilo que se analisa.

Dito de outro modo: quando um médico aprende a operar corações, ele não precisa, necessariamente, ter tido contato com todos os tipos de coração, nem ter sido um paciente cardíaco. É preciso cuidado para que o lugar de fala não se torne um lugar de “cale-se”, onde a vivência é aceita apenas quando serve para confirmar argumentos e ideologias, quando convém. Fora disso, não serve.

Seguindo lógicas equivocadas, a razão e o bom senso entram em parafuso. Quem disser que só se pode falar sobre questões raciais quem teve a vivência traumática disso eliminaria, por si só, qualquer capacidade de reflexão comum sobre o tema. Ao mesmo tempo, quem argumentar que só uma “mulher cis” pode integrar uma comissão sobre mulheres estaria implodindo, por dentro, o próprio argumento (diríamos conservador?) de que a criação ou o cumprimento de leis não requer, necessariamente, uma formal e absoluta representatividade. Seria, então, por princípio, necessário que só negros julgassem casos envolvendo negros? Que só mulheres  pudessem prender e julgar feminicídios? Pouco conservador... Esse nos parece um raciocínio, digamos, surfando nos memes: "sabor esquerda" (contém ironia!).

Reflexões, provocações, “palavras, palavras, palavras” (Hamlet) . Diante desse grande oceano de equívocos que é a  contemporaneidade, dessa multidão de gênios prematuros que se aloca a internet, há de haver espaço para refletir antes de “rugir” e de  adjetivar.

É um bom antídoto contra a ignorância, diante das contradições do “outro lado”, lembrar dois grandes ensinamentos de Dom Hélder Câmara. Primeiro: os cristãos devem ser capazes de encontrar, nas teorias, verdades prisioneiras em todas as formas de pensamento. O que há de verdade “prisioneira” no debate sobre gênero ou no apontamento dos equívocos sobre o lugar de fala? “Segundamente”, dizia nosso grande místico e poeta: não devemos abandonar bandeiras certas por estarem nas mãos erradas.

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.