Eleições: apocalipse

Nestas eleições, as grandes vencedoras foram as redes sociais. A performance digital gerou autoridade e celebridade; essa soma se tornou influência; a influência virou voto. O que fica claro, para ambos os espectros, é que eleição não se define mais em campanha e que engajamento é algo que vai além do período eleitoral.
Estamos ainda em guerra. Particularmente no que diz respeito ao voto presidencial. A esquerda se debate com o resultado prévio. Insiste na oposição entre internet e “trabalho de base”. O que antes foi utopia agora é uma síndrome de nostalgia futura. As diversas transformações sociais dos últimos tempos, particularmente no que diz respeito ao trabalho e à afirmação do indivíduo, jogam na cara do “partido” que “as ideias não correspondem aos fatos”.
O desafio para a esquerda, agora, é da maior ordem. Os dados, que não mentem, jogam na sua cara que ela perdeu conexão real com as bases. Na cabeça e na boca do povo, os dramas da corrupção, a descrença nas instituições e o endividamento das famílias têm uma relação direta com os anos de governo do PT. Se isso é verdade ou não, que se digladiem os críticos. O fato é que estamos falando de anos de governo que acumulam, além dos méritos das políticas sociais, também as fraturas e os ressentimentos de um país que, nos aspectos econômicos e sociais, desistiu do futuro.
A esquerda bebe agora do próprio veneno. Para vencer as eleições, criou a jabuticaba de um social-desenvolvimentismo com ares liberais. Distribuiu renda sem ir às causas e às soluções para a desigualdade. Fez de um líder evidentemente carismático sua figura mais célebre: um pé de ipê isolado no meio do cerrado. Uma árvore linda e frondosa, mas isolada, cujas flores e folhas caem podres de tão belas, ainda fazendo os passantes correrem o risco de escorregar. Na tentativa de negar o óbvio, entrega-se de bandeja ao povo brasileiro o cardápio da revolta e do ressentimento.
E, se ainda houver por aqui leitores mais lúcidos e menos indignados, o que dizer do espectro de direita? A essa altura do campeonato, dissimular a participação nas tramas do sistema? É, de fato, muito curiosa a capacidade da direita de mobilizar os instintos mais primitivos. Não fala tanto de pão, mas sobra o circo.
Não dá para negar, também por óbvio, com ou sem dosimetria, que o domínio dos poderes por essa turma impõe riscos reais ao debate democrático, à solidez das instituições e à isonomia. Não seria novidade na história, desde a sofística grega, passando pelo totalitarismo na Europa, que pessoas de lábios doces, explorando medo e ressentimento, nos fizessem digerir o fruto amargo da dissolução de pactos civilizatórios. O que começa com berros entra pelas frestas do ressentimento da “classe média”, adquire cadeiras no parlamento, seduz as juventudes, domina as narrativas, e pumba...
Não deixa de ser curioso que a esquerda esteja agora acusando a direita de financiamento por big techs e elites com histórico de financiamento a pautas woke, quando, ao que parece, há bastante voto “vermelho” precisamente entre públicos mais abastados. Hipocrisia? Chumbo trocado? Há de haver financiamentos? Provável que sim. Mas há também o tecido das relações sociais, a mobilização de aversões e apegos e os grupos de confiança previamente constituídos, que, para além de qualquer algoritmo, levam determinados conteúdos a gerar engajamento.
Não deixa de ser curioso que a direita, que tanto critica Gramsci, pareça ter seguido sua metodologia. Antes de dominar as estruturas, foi à base, aos símbolos, aos valores culturais. Se a foice e o martelo assustam, quem sabe um cabelo levemente platinado, quem sabe um jovenzinho, mártir da verdade, com o arquétipo de inconfidente contra os desmandos do “quinto”, não sejam a solução para o sistema. Nada causa mais pertencimento que o ódio e os símbolos nacionais. Talvez este tenha sido o pior erro de Marx. Desmascarou a ganância da burguesia, mas subestimou a força agregadora dos mitos e dos símbolos nacionais. Escolheu o proletariado. O proletariado abraçou, no meio da guerra, as bandeiras nacionais.
É certo que o roteirista do Brasil parece estar decidido a compor o episódio preparatório para o apocalipse. Isso posto, nem de longe essa coluna objetiva ser sobre posicionamento. Nesta altura do campeonato, não vai adiantar nada antecipar catástrofes. Tem gente comprometida, de novo, contra os riscos do comunismo. Tem gente com relatórios, "ainda não publicados" , sobre financiamento norte-americano para mobilizar as massas. O que se há de argumentar diante de tantas “razões” e “fatos”? Nosso texto é apenas uma lufada de ironia, um sorriso de canto de boca; talvez seja um ato mais político que uma bufada. Nosso texto é um apelo, quase solitário, à crítica ambidestra, um convite a algo mais importante, em nosso entendimento, do que as posições: lucidez, óbvia vigilância, honestidade...
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.



