O “Peladão” e a Praça das Ideias: redescobrindo o Monumento à Civilização Mineira
Para quem não sabe, a Praça Rui Barbosa foi o ponto inaugural da Capital planejada de Minas Gerais

Poucos lugares em Belo Horizonte condensam tantas camadas de história, arte e identidade quanto a Praça Rui Barbosa — embora quase todos a conheçam apenas como Praça da Estação. Ponto inaugural da Capital planejada de Minas Gerais, ela foi o primeiro rosto que a cidade apresentou ao Brasil. E ali, bem em frente à Estação Central, ergue-se uma estátua que há quase um século provoca, fascina e multiplica opiniões: o Monumento à Civilização Mineira, ou Terra Mineira. Oficialmente, trata-se de uma ode aos heróis e mártires do Estado. Na boca de alguns, ficou mesmo conhecido como o “Peladão da Praça da Estação”.
A alcunha irreverente não deve nos afastar de sua grandiosidade. Inaugurado em 1930, o monumento é obra do escultor ítalo-brasileiro Júlio Starace e foi encomendado pelo então presidente (como se chamava o governador à época) de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade. A figura masculina de grandes proporções, musculosa e inteiramente nua — exceto pela estratégica bandeira de Minas que encobre parcialmente o órgão sexual — é, ao mesmo tempo, um gesto de bravura e um convite à especulação. A ideia de nudez frontal poderia causar incômodo na cidade ainda pacata dos anos 1930, e o detalhe da bandeira, ambíguo e sugestivo, tornou-se motivo de comentários espirituosos, ironias populares e, com o tempo, carinho afetivo.

Contudo, com a expansão da cidade e o declínio simbólico da estação ferroviária, o monumento perdeu parte de sua visibilidade. Ganhou novo fôlego em 2003, quando a praça passou por ampla reforma: o piso de concreto avermelhado trouxe unidade visual ao espaço, enquanto a nova pintura da Estação — em tons de ocre e cinza — destacou suas esculturas femininas e a torre do relógio. A revitalização devolveu à praça o posto de arena pública, palco de manifestações culturais e políticas, como nos anos 1970.
Hoje, o Peladão resiste. Não apenas como escultura, mas como símbolo vivo da complexidade mineira. Representa um tempo em que o Estado se via como protagonista nacional, mas também convida à crítica sobre as exclusões e silêncios de sua narrativa. Em tempos de novas lutas por memória e pertencimento, a estátua volta a ser observada: não apenas pela curiosidade estética, mas pela potência de sua presença histórica e artística.
Ali, na Praça da Estação, entre passos apressados, protestos, encontros e festas populares, o “Peladão” continua a nos lembrar que a cidade também se faz de metáforas — e que às vezes é preciso encarar aquilo que o tempo tentou esconder.
Gabriel Sousa Marques de Azevedo é advogado, empresário, jornalista, professor, publicitário, pós-graduado em competitividade global pela Georgetown University e Mestre em Cidades pela London School Of Economics.



