Belo Horizonte
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Me passa um pix!

O que engajou nessa confusão está para além da “verdade” e da “mentira”. Não cabe no centro pastoral, na academia ou no gabinete!

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Confira a coluna do Padre Samuel Fidelis • Divulgação

Que coisa, não: uma semana que tem a cara do Brasil. A gente adora um barraco! Entre tapas e beijos, perucas e chupetas, uma confusão armada... "Pra variar, estamos em guerra" (Elis Regina). E tudo isso por conta da bagunça envolvendo o maior feito da inclusão econômica dos últimos tempos. Sim, ele: o pix!

Ei, calma aí! Se aí do seu lado ( ou dentro), alguém pergunta sobre o que a coluna de um padre tem a ver com pix, vamos logo nos entendendo. Além de padre, este colunista é também (por graduação) marketeiro. O marketing é a "ciência" da oportunidade. A única realmente humana, diríamos. Isso porque diferente da filosofia, da política, da teologia (que às vezes, em nome de um ideal, "mentem"), no marketing, ou se traduz o que todos estão sentindo e pensando ou não se tem eficiência na entrega... Quando o assunto é vender não dá para fingir que se entende de gente, ou então não se "engaja"! É lúcido, então, pensar que bons religiosos, por virtude ou por vício, tem sempre que ser eficientes com vendas (Sim, esse trecho contém ironia!).

Bingo, esse é o ponto! Amemos ou não os "gênios prematuros”, nesta semana tomamos uma aula do que se tornou a comunicação, no Brasil e no Mundo. Alguém jogou na cara da sociedade que instituições tradicionais, tais como o governo e a igreja, enfrentam crise de perda de credibilidade. E não adiante culpar as big techs ou o marketing!

O que engajou nessa confusão está para além da "verdade" e da "mentira". Não cabe no centro pastoral, na academia ou no gabinete! Vem do convés do navio. Esse vídeo de alcance viral, que tomou o país, provoca as intuições "ilustradas" (estado, igreja, imprensa) a pensar que: não adianta tentar convencer mais as pessoas com argumentos técnicos e racionais se o "prejuízo" parecer provável, possível, plausível.

Sim, nós pensamos com o estômago. O marketing e Nietzsche, ao dizer que o "cérebro é parte das vísceras" sempre souberam disso. Não se pode tratar questões importantes apenas de modo abstrato e técnico!

Alguém tem que explicar para os ministros (da igreja e do estado) que a democracia, a "pior forma de governo excetuando todas as outras" (Churchill) é, desde sua origem grega, um sistema “perigoso e corrupto” (Aristóteles). A gente sempre tem o risco, quando todos decidem pelo que ouviram falar, de que alguém seduza a massa pelas entranhas. Sempre foi assim: sobre convencer, dando ênfase acerca dos próprios pontos fortes e aproveitando as brechas no território "inimigo". Ou vão nos dizer que não é assim que o populismo vence as eleições? A diferença é que antes o brasileiro votava pelo "pão", agora está mais engajando com o "circo".

Sim, estamos num teatro das tesouras e de horrores. Daí o provocação desta coluna, de um jovem padre: nós, os cristãos, temos uma missão profética de ter os olhos abertos sobre a realidade e as mãos operosas para transformar o mundo! A fé envolve protesto, pressupõe consciência de que o Reino de Jesus não cabe num discurso bonito, nem é deste mundo (Jo 18,36)

O conselho do dia é: vamos descer do pedestal! Vai ajudar muito se formos mais atentos (fora da sacristia e dos gabinetes) àquilo pelo que realmente anseia o "Brasil profundo". Esse com dores e valores reais e concretos. E para terminar as inferências e ironias, vendo que estão tentando, nas redações jornalísticas (“sacrossantas” e “festivas”) corrigir, com a “técnica” esse erro político, que tem gente tentando desdizer o dito: sim, nós sabemos que o jornalismo é vocacionado a ser a "melhor versão do fato", só precisamos tomar cuidado para que ele não seja a mais chata...

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.