Belo Horizonte
Itatiaia

'O Diabo Veste Prada 2': Miranda Priestly é vilã ou espelho?

Por
O Dia Veste Prada 2 • Divulgação

No dia 30 de abril estreará, oficialmente, nos cinemas brasileiros, o filme “O Diabo Veste Prada 2”. E antes que o hype das passarelas e dos looks icônicos tome conta das redes, vale fazer uma pergunta que o primeiro filme plantou - e que nós, coletivamente, nunca resolvemos direito: por que Miranda Priestly nos incomoda tanto?

Não é pela frieza. Não é pela exigência. Não é sequer pela crueldade ocasional. É porque ela não pede licença.

O primeiro filme, lançado em 2006, ficou famoso pela transformação de Andy Sachs: a jovem jornalista idealista que chega à Runway desprezando a moda como futilidade e vai, gradualmente, sendo seduzida por um mundo que ela julgava superficial. A leitura mais fácil é a de uma história sobre os perigos do sucesso e da ambição. Mas essa leitura deixa escapar o personagem mais complexo da trama.

Ao contrário do que alguns pensam, Miranda Priestly não é um obstáculo na jornada de Andy. Ela é o argumento central do filme.

Ao falar sobre o casaco azul de Andy e a escolha do azul cerúleo por Oscar de La Renta na sua coleção de 2002, Miranda traz uma aula sobre como o poder simbólico funciona. Miranda explica, com precisão cirúrgica, que nenhuma escolha acontece no vácuo. Que linguagem, estética e mercado estão sempre entrelaçados. E que desprezar esse sistema não o torna menos real - apenas te deixa mais vulnerável a ele.

Miranda representa uma camada de inteligência que articula contexto, influência, posicionamento e leitura de mundo. Muito antes de se falar amplamente sobre soft skills, ela já operava com domínio absoluto essas competências.

Sua comunicação é direta e sem ruídos. Sua tomada de decisão é rápida e segura, mesmo sob pressão constante. Apresenta uma leitura de contexto sofisticada, capaz de conectar escolhas aparentemente simples a impactos culturais e econômicos amplos. E, talvez o mais marcante: sua presença é construída na gestão de sua imagem pública.

Ainda assim, essas habilidades raramente são reconhecidas como virtudes quando analisadas sob a lente de gênero. Agora, façamos o exercício que Andy propõe implicitamente no primeiro filme: e se Miranda fosse um homem?

Sua objetividade seria celebrada como assertividade. Sua exigência seria lida como excelência. Seu distanciamento emocional seria interpretado como foco. Sua autoridade não seria questionada, e sim, seria admirada. Provavelmente teria uma série documental na Netflix e um livro na lista dos mais vendidos sobre liderança.

Mas Miranda é uma mulher. Então a chamamos de fria, dura, impossível. Difícil.

Esse é o paradoxo de gênero no julgamento de Miranda. E ele não é ficção. Pesquisas de comunicação organizacional documentam sistematicamente que mulheres em posições de autoridade são avaliadas de forma mais negativa quando adotam os mesmos comportamentos que, em líderes homens, são vistos como competência.

O incômodo que Miranda provoca não nasce do que ela faz. Nasce de como ela o faz: sem suavizar, sem pedir desculpas, sem negociar sua presença para caber nas expectativas alheias.

Há uma expectativa histórica e ainda muito presente de que mulheres liderem, mas sem perder a doçura. Que sejam firmes, mas não demais. Que sejam respeitadas, mas nunca intimidantes. Que conquistem autoridade, mas a exerçam de um jeito que não gere desconforto nos outros. Que maternem a equipe.

É uma equação impossível, que Miranda se recusa a resolver. Ela não performa simpatia como moeda de troca. Não dilui sua autoridade para torná-la mais palatável. Não investe energia em gerenciar o conforto dos outros à sua volta. E isso tem um custo: ela é lida como vilã, não como líder.

Mas o que rara vez se pergunta é: qual é o preço pago pelas mulheres que suavizam, que sorriem quando não querem, que qualificam cada instrução com um "por favor, se você puder"?

A pesquisa é consistente: elas são mais aceitas socialmente e menos respeitadas profissionalmente. Lidas como simpáticas, raramente como autoridades. Miranda recusou esse acordo. E pagou o preço que o acordo cobra de quem o rejeita: a narrativa da vilã.

Com quase 20 anos de distância, o retorno de “O Diabo Veste Prada” acontece num momento radicalmente diferente. A conversa sobre gênero e liderança saiu dos círculos acadêmicos e entrou no mainstream. O termo "angry woman" virou ferramenta de análise política. Campanhas eleitorais foram destruídas pela percepção de que uma candidata era "antipática". Executivas continuam sendo descritas em avaliações de desempenho com adjetivos que jamais aparecem nas avaliações de seus pares homens.

O paradoxo de Miranda não envelheceu. Ele se aprofundou.

A questão, então, não é apenas se a sequência vai ser boa. É se ela terá coragem de ir além da nostalgia e enfrentar o que o primeiro filme abriu: a estrutura de gênero que define quem tem direito de ocupar espaço sem pedir permissão - e quem paga um preço desproporcional por exercer esse direito.

Se o segundo filme tratar Miranda como personagem de época, terá desperdiçado a oportunidade. Se entender que ela é, hoje, mais contemporânea do que nunca, teremos algo para discutir.

Porque, no fim, Miranda Priestly nunca foi sobre moda. Foi sobre o direito de uma mulher ocupar poder em seus próprios termos sem pedir licença, sem diluir a força, sem tornar a autoridade mais confortável para quem preferiria não precisar encarar o que ela representa.

Revisitada hoje, ela não é vilã nem ícone pop. Ela é um diagnóstico.

E o desconforto que ainda provoca em nós. Esse sim é o dado mais relevante de toda a história.

Por

Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.