O degrau que ninguém conserta

Muito se fala sobre o “teto de vidro”, aquela barreira invisível que impede as mulheres de chegarem ao topo das organizações. Mas ele sozinho não conta a história inteira. Porque existe outro obstáculo, menos famoso e igualmente devastador, que age muito antes: o “degrau quebrado”.
Enquanto o “teto de vidro” atua nos níveis mais altos da hierarquia, o “degrau quebrado” representa um obstáculo no início da carreira, impedindo que mulheres ascendam profissionalmente. Por isso a metáfora: é como se a escada da liderança feminina tivesse um degrau quebrado desde o início, sem nenhuma ponte que permita o acesso mesmo quando elas estão mais preparadas para subir.
Com menos mulheres promovidas no início da carreira, o caminho para a ascensão é desigual, e se perpetua em toda a estrutura. São duas barreiras distintas. Com causas distintas. E é hora de falarmos sobre cada uma delas com honestidade.
O 'degrau quebrado': o sistema que falha desde o início
O “degrau quebrado” representa um obstáculo que ocorre logo no início da jornada corporativa, quando as mulheres são preteridas na conquista do primeiro cargo de gerência. Sem essa primeira oportunidade, é reduzido o acúmulo de experiência e o potencial de ganhos a longo prazo.
Segundo o relatório Women in the Workplace 2025, da McKinsey em parceria com o LeanIn.Org, apenas 93 mulheres são promovidas a gerente para cada 100 homens. E esse número cai para 74 quando falamos de mulheres negras, revelando uma perspectiva cruel de cor.
Esse desequilíbrio inicial tem um efeito composto ao longo de toda a carreira, tornando progressivamente mais difícil para as mulheres alcançarem cargos seniores, mesmo quando apresentam desempenho equivalente. É uma injustiça estrutural, que mostra que a mulher não perdeu a corrida no final: ela começou em desvantagem na largada, e encontrou vários obstáculos durante o caminho.
Dados do LinkedIn analisando 74 países mostram que, entre Millennials e a Geração Z, a maior disparidade de gênero ocorre exatamente nessa primeira promoção. O sistema falha cedo. E quando falha cedo, falha em tudo.
O teto de vidro: quando a escolha também entra em cena
Mas o teto de vidro é uma história diferente - e mais complexa. Porque aqui, ao lado das barreiras impostas pelo sistema, começa a aparecer algo que raramente é dito em voz alta: a redefinição de prioridades.
Uma pesquisa da Todas Group com a Nexus, realizada em março de 2025 com mulheres em cargos de liderança, revelou que 83% afirmam ter enfrentado barreiras para crescer profissionalmente. Mas o mesmo estudo trouxe outro dado, igualmente revelador: boa parte dessas mulheres passou a questionar se o topo valia o preço.
Como coloca a consultoria Diversitera, sem perspectivas e sem um terreno fértil para crescer, a ambição some. E o problema não está nas mulheres, mas na ausência de investimento real das empresas na ascensão feminina.
Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que mulheres que chegam à alta liderança olham para quem está acima e veem esgotamento, não inspiração. Entre as razões pelas quais mulheres dizem não querer a próxima promoção, uma das mais frequentes é perceber que as pessoas nos cargos mais altos parecem estar em burnout ou infelizes – o que as faz rever a rota, calculando riscos pessoais emocionais.
Isso não é fraqueza. É lucidez.
Protagonismo não cabe em uma única definição
Separar essas duas barreiras importa porque as soluções também são diferentes.
O “teto de vidro” diz respeito a uma barreira invisível e sistêmica que impede que mulheres alcancem cargos de liderança. Todavia, ele não é o maior obstáculo da progressão de mulheres. Na verdade, ele está na primeira pedra no início do caminho.
O “degrau quebrado” exige que as empresas revisem seus processos de promoção, eliminem vieses e invistam na primeira gerência feminina. Já o “teto de vidro” pede uma pergunta mais honesta: o topo que construímos é, de fato, um lugar no qual alguém gostaria de permanecer?
Porque protagonismo não necessariamente é sinônimo de ser CEO. É a mulher que recusa uma promoção porque escolheu seu tempo. É a que monta o próprio negócio porque as regras do jogo corporativo não fazem sentido para ela. É a que sobe - e transforma o ambiente de dentro, inspirando mais mulheres a trilhar o seu caminho.
Dados revelam que o “teto de vidro” está se partindo, com mais mulheres ascendendo a cargos de diretoria, pois cada vez mais as mulheres em cargos de liderança sênior estão sendo promovidas em uma proporção maior do que os homens.
Ou seja, consertar o “degrau quebrado” não é apenas uma pauta de equidade, mas uma escolha sobre o tipo de futuro que queremos construir. Porque, quando uma mulher encontra espaço para crescer desde o início, ela não amplia apenas a própria trajetória: ela alarga o caminho para tantas outras que vêm depois.
No fim, a discussão não é apenas sobre quantas mulheres chegam ao topo, mas sobre quantas tiveram, de fato, a chance de subir. E enquanto o sistema seguir quebrando seus primeiros degraus, o sucesso feminino continuará sendo tratado como exceção, quando deveria ser possibilidade. O protagonismo feminino começa quando a mulher pode escolher o seu caminho com liberdade, e isso só acontece quando a estrutura deixa de sabotar sua ascensão desde o início.
Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.
