Caminhada do Silêncio: ato em SP denuncia violência de estado
6ª edição da Caminhada do Silêncio reuniu familiares de vítimas da ditadura militar brasileira

Em São Paulo, a 6ª Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado aconteceu nesse domingo (29), na cidade de São Paulo. A concentração teve início às 16h, em frente ao prédio do antigo DOI-Codi/SP, onde funcionava um dos principais centros de tortura da ditadura militar.
A caminhada seguiu pelas ruas da zona sul da cidade, com destino ao Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque do Ibirapuera. Todo o ato foi realizado sob escolta policial.
Organizado pelo movimento Vozes do Silêncio, a passeata reuniu centenas de pessoas. Entre elas, familiares de vítimas e movimentos dos direitos humanos. Com o lema “aprender com o passado para construir o futuro”, as entidades não apenas relembraram os crimes cometidos durante a ditadura militar mas denunciaram a repetição das violências de estado mesmo após a redemocratização.
Lorrane Rodrigues, coordenadora da área de Memória, Verdade e Justiça do Instituto Vladimir Herzog, contou que o lema tem como objetivo fazer as pessoas pensarem e relacionarem o passado e o presente. “O lema da caminhada traz essa discussão: tentar entender quais são os impactos do período da ditadura militar no presente, no período contemporâneo, pra gente pensar um pouco o futuro”, disse.
O diretor do Instituto Vladimir Herzog, afirmou em nota que a Caminhada do Silêncio nasceu como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de apagamento. Ele destacou também que a ditadura militar deixou uma lembrança que reflete na violência de estado até os dias atuais.
“Após cinco edições, queremos retomar o sentimento que originou essa manifestação. Temos vivido tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições, mas seguimos enfrentando ataques graves contra a democracia. Por isso, este é o momento de dizermos que estamos na rua, de voltarmos a demonstrar nossa força”, disse.
Leia na íntegra o manifesto da caminhada:
"Hoje, caminhamos em silêncio, mas não em ausência. Nosso silêncio é a presença viva, é memória que resiste, é a voz que ecoa nos passos de cada pessoa que se recusa a esquecer. Saímos de um lugar marcado pela dor, o antigo DOI-Codi, onde o Estado torturou, matou e tentou apagar histórias. E seguimos até um monumento que insiste em lembrar: as histórias não foram apagadas.
Nossos mortos não estão no passado. Nossos desaparecidos não são ausência. Cada vítima de violência do Estado é permanência. Se a Caminhada do Silêncio nasceu da urgência de resistir, seguimos caminhando porque ainda é preciso. Este ato nasceu quando a democracia voltou a ser ameaçada de forma aberta, quando o autoritarismo deixou de ser lembrança e voltou a ser projeto.
Hoje, anos depois, seguimos aqui, porque a ameaça não desapareceu. Ele se transformou, se reorganizou e segue à espreita. Nunca foi tão importante defender a democracia. E nunca podemos esquecer: essa luta é contínua. Relembrar para não repetir. Ocupar a memória para não esquecer nossa história. Porque sem memória, a violência se naturaliza. Sem verdade, a mentira se institucionaliza. E sem justiça, a barbárie se repete.
A violência de Estado não ficou no passado. Lutar por memória, verdade e justiça é afirmar que não aceitamos a impunidade. É exigir a responsabilização de torturadores, de seus cúmplices e daqueles que financiaram o terror. É dizer, com todas as letras: ditadura nunca mais. Tortura nunca mais. Este manifesto não é apenas denúncia. É compromisso.
Por isso, fazemos um chamado: Às novas gerações que não viveram o terror, mas herdam suas consequências. À sociedade civil que não pode se calar. Às instituições, que precisam ser defendidas, mas também transformadas. Este é um tempo de escolha: entre esquecer ou lembrar. Entre repetir ou transformar. Entre silenciar ou agir. Sabemos que resistir não é apenas lembrar o passado. Mas disputar o futuro.
Hoje, nosso silêncio fala. E o que ele diz é simples e inegociável: Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça. Seguiremos caminhando".
Maria Luíza Mendes é estagiária do portal Itatiaia e estudante de jornalismo na PUC Minas. Apaixonada por esportes e entretenimento, Maria possui experiência anteriores em outros portais online e na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



